Alexandre Quintas distinguido como “Herói CM” após salvar crianças em Alcácer do Sal, na manhã de hoje.
Alexandre Quintas tornou-se, nos últimos dias, um rosto de humanidade num caso que comoveu o país. O padeiro que encontrou e levou para um local seguro duas crianças francesas abandonadas numa estrada em Alcácer do Sal foi distinguido, esta sexta-feira, 22 de maio, pelo grupo Medialivre.
A homenagem aconteceu no edifício do grupo editorial, antes de uma entrevista na CMTV. Carlos Rodrigues, Diretor-Geral Editorial da Medialivre, entregou-lhe o prémio honorário “Herói CM”.
Medialivre homenageia Alexandre Quintas
A distinção surgiu como reconhecimento pelo gesto que evitou uma possível tragédia. As duas crianças, abandonadas pela mãe e pelo padrasto, foram encontradas por Alexandre Quintas e encaminhadas depois pelas autoridades.
Carlos Rodrigues explicou a decisão e sublinhou o impacto nacional do caso.
“𝐍ó𝐬, 𝐧𝐨 ‘𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐢𝐨 𝐝𝐚 𝐌𝐚𝐧𝐡ã’, 𝐭𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐮𝐦𝐚 𝐢𝐧𝐢𝐜𝐢𝐚𝐭𝐢𝐯𝐚 𝐡á 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐚𝐦𝐚𝐝𝐚 ‘𝐇𝐞𝐫ó𝐢 𝐂𝐌’, 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐫𝐞𝐭𝐞𝐧𝐝𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐭𝐢𝐧𝐠𝐮𝐢𝐫 𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐬𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐭𝐢𝐧𝐠𝐮𝐞 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐮𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐧𝐝𝐨 𝐨 𝐛𝐞𝐦 𝐬𝐞𝐦 𝐨𝐥𝐡𝐚𝐫 𝐚 𝐪𝐮𝐞𝐦. 𝐀 𝐯𝐨𝐭𝐚çã𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐚𝐧𝐨 𝐣á 𝐞𝐬𝐭á 𝐚 𝐝𝐞𝐜𝐨𝐫𝐫𝐞𝐫, 𝐞 𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐧𝐜𝐞𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐯ã𝐨 𝐬𝐞𝐫 𝐚𝐧𝐮𝐧𝐜𝐢𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐝𝐢𝐚 𝟏𝟎 𝐝𝐞 𝐣𝐮𝐧𝐡𝐨. 𝐏𝐨𝐫é𝐦, 𝐚𝐭𝐞𝐧𝐝𝐞𝐧𝐝𝐨 à 𝐫𝐞𝐥𝐞𝐯â𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐬𝐞𝐮 𝐚𝐭𝐨, à 𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐬𝐚𝐥𝐯𝐨𝐮 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐧ç𝐚𝐬, 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐦𝐨𝐜𝐢𝐨𝐧𝐨𝐮 𝐮𝐦 𝐩𝐚í𝐬, 𝐞𝐮 𝐡𝐨𝐣𝐞 𝐝𝐞 𝐦𝐚𝐧𝐡ã 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐝𝐢, 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐣𝐮𝐧𝐭𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐚𝐝𝐦𝐢𝐧𝐢𝐬𝐭𝐫𝐚𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐈𝐬𝐚𝐛𝐞𝐥 𝐑𝐨𝐝𝐫𝐢𝐠𝐮𝐞𝐬, 𝐧𝐨𝐦𝐞á-𝐥𝐨 ‘𝐇𝐞𝐫ó𝐢 𝐂𝐌 𝐇𝐨𝐧𝐨𝐫á𝐫𝐢𝐨’…”
Logo depois, o responsável deixou um agradecimento público ao padeiro.
“𝐐𝐮𝐞𝐫𝐨, 𝐞𝐦 𝐧𝐨𝐦𝐞 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐨𝐬 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐫𝐞𝐬, 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐨𝐬 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐜𝐭𝐚𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐞 𝐩𝐞𝐧𝐬𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐦 𝐧𝐨𝐦𝐞 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐨 𝐩𝐚í𝐬, 𝐝𝐢𝐳𝐞𝐫-𝐥𝐡𝐞, 𝐬𝐞𝐧𝐡𝐨𝐫 𝐀𝐥𝐞𝐱𝐚𝐧𝐝𝐫𝐞, 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨 𝐨𝐛𝐫𝐢𝐠𝐚𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐢𝐧𝐮𝐚 𝐚 𝐞𝐦𝐨𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐫 𝐨 𝐩𝐚í𝐬”.
“O verdadeiro herói foi mesmo o miúdo mais velho”
Perante a homenagem, Alexandre Quintas não escondeu a surpresa. Ainda assim, recusou colocar-se no centro da história.
Visivelmente emocionado, fez questão de valorizar a coragem do menino de cinco anos, que procurou ajuda e protegeu o irmão.
“𝐒𝐢𝐧𝐭𝐨-𝐦𝐞 𝐞𝐦𝐨𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐝𝐨, 𝐧ã𝐨 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐯𝐚 à 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚. 𝐀𝐜𝐡𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐧ã𝐨 𝐦𝐞𝐫𝐞𝐜𝐢𝐚, 𝐬𝐞 𝐜𝐚𝐥𝐡𝐚𝐫, 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐧ã𝐨 𝐟𝐢𝐳 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐭𝐢𝐧𝐡𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫. 𝐃𝐮𝐚𝐬 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐧ç𝐚𝐬 𝐬𝐨𝐳𝐢𝐧𝐡𝐚𝐬 𝐧𝐨 𝐦𝐞𝐢𝐨 𝐝𝐨 𝐧𝐚𝐝𝐚, 𝐚𝐜𝐡𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚 𝐟𝐚𝐳𝐢𝐚 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐮 𝐟𝐢𝐳. 𝐀𝐜𝐡𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐯𝐞𝐫𝐝𝐚𝐝𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐡𝐞𝐫ó𝐢 𝐟𝐨𝐢 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐨 𝐦𝐢ú𝐝𝐨 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨, 𝐝𝐞 𝟓 𝐚𝐧𝐨𝐬, 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐨𝐧𝐝𝐞 𝐟𝐨𝐫𝐚𝐦 𝐥𝐚𝐫𝐠𝐚𝐝𝐨𝐬, 𝐨 𝐜𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞𝐬 𝐟𝐢𝐳𝐞𝐫𝐚𝐦, 𝐞𝐥𝐞 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐞𝐠𝐮𝐢𝐮 𝐬𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞 𝐭𝐫𝐚𝐳𝐞𝐫 𝐨 𝐢𝐫𝐦ã𝐨 𝐞 𝐝𝐞𝐩𝐨𝐢𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐚 𝐢𝐧𝐢𝐜𝐢𝐚𝐭𝐢𝐯𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐝𝐢𝐫 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚. 𝐄𝐥𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐢𝐫𝐦ã𝐨, 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐞𝐥𝐞 𝐯𝐢𝐮 𝐨 𝐜𝐚𝐫𝐫𝐨, 𝐥𝐞𝐯𝐚𝐧𝐭𝐨𝐮-𝐬𝐞 𝐞 𝐟𝐞𝐳 𝐬𝐢𝐧𝐚𝐥”.
O abraço que gostaria de repetir
Já na CMTV, Alexandre Quintas voltou a falar dos dois menores. Questionado sobre aquilo que lhes diria se os voltasse a encontrar, respondeu sem hesitar.
A memória do primeiro contacto continua presente e foi impossível conter as lágrimas.
“𝐅𝐚𝐳𝐢𝐚 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐥𝐡𝐞𝐬 𝐟𝐢𝐳, 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐚𝐫 𝐮𝐦 𝐚𝐛𝐫𝐚ç𝐨 𝐟𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐞𝐥𝐞𝐬 𝐬𝐞𝐧𝐭𝐢𝐫𝐞𝐦 𝐜𝐚𝐥𝐨𝐫 𝐞 𝐚𝐦𝐨𝐫, 𝐪𝐮𝐞 𝐬𝐞 𝐜𝐚𝐥𝐡𝐚𝐫 𝐧𝐮𝐧𝐜𝐚 𝐭𝐢𝐯𝐞𝐫𝐚𝐦”.
Além disso, o padeiro admitiu que gostaria de acompanhar o futuro das crianças. Caso deixe de ter notícias, pondera procurá-las.
“𝐄𝐮 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐨 𝐯𝐨𝐥𝐭𝐚𝐫 𝐚 𝐯ê-𝐥𝐨𝐬 𝐞, 𝐬𝐞 𝐟𝐢𝐜𝐚𝐫 𝐬𝐞𝐦 𝐢𝐧𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚çõ𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐥𝐞𝐬, 𝐮𝐦 𝐝𝐢𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐞𝐮 𝐯𝐨𝐮 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫á-𝐥𝐨𝐬. 𝐄𝐮 𝐚𝐜𝐡𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐧ã𝐨 𝐬𝐞 𝐯ã𝐨 𝐞𝐬𝐪𝐮𝐞𝐜𝐞𝐫”.
“Saiu a sorte grande aos miúdos”
Apesar da humildade, Alexandre Quintas reconhece o peso do que fez. O homem tem consciência de que o encontro mudou o destino dos dois irmãos.
Ao comentar o caso e os contornos que envolvem a mãe e o padrasto, foi direto.
“𝐒𝐢𝐦, 𝐭𝐞𝐧𝐡𝐨 [𝐧𝐨çã𝐨 𝐝𝐞 𝐪𝐮𝐞 𝐬𝐚𝐥𝐯𝐞𝐢 𝐚 𝐯𝐢𝐝𝐚 𝐝𝐞𝐥𝐞𝐬]. 𝐏𝐞𝐥𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐭𝐞𝐧𝐡𝐨 𝐯𝐢𝐬𝐭𝐨 𝐧𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐭í𝐜𝐢𝐚𝐬, 𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐦ã𝐞 𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐚𝐝𝐫𝐚𝐬𝐭𝐨… 𝐓𝐞𝐧𝐡𝐨 𝐧𝐨çã𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐬𝐚𝐢𝐮 𝐚 𝐬𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐠𝐫𝐚𝐧𝐝𝐞 𝐚𝐨𝐬 𝐦𝐢ú𝐝𝐨𝐬. 𝐃𝐚 𝐩𝐢𝐨𝐫 𝐦𝐚𝐧𝐞𝐢𝐫𝐚, 𝐦𝐚𝐬 𝐬𝐚𝐢𝐮 𝐚 𝐬𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐠𝐫𝐚𝐧𝐝𝐞”.
A frase resume a dureza do caso. Foi uma tragédia evitada no limite, mas marcada por uma violência emocional difícil de apagar.
O futuro das crianças preocupa Alexandre Quintas
Os dois menores estão junto de uma família de acolhimento. Segundo o texto, o pai chegou esta madrugada a Portugal e já estará em Setúbal, onde se encontram os filhos.
Questionado sobre a possibilidade de uma família de acolhimento ser a melhor solução, Alexandre Quintas defendeu primeiro uma alternativa familiar segura. No entanto, deixou claro que o amor deve estar acima de qualquer laço biológico.
“𝐒𝐢𝐧𝐜𝐞𝐫𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐮 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐨𝐬𝐬𝐞 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐦 𝐟𝐚𝐦𝐢𝐥𝐢𝐚𝐫 𝐛𝐞𝐦 𝐞𝐬𝐭𝐫𝐮𝐭𝐮𝐫𝐚𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐢𝐜𝐚𝐬𝐬𝐞 𝐜𝐨𝐦 𝐞𝐥𝐞𝐬. 𝐎 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐮 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐞𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐨𝐬𝐬𝐞 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐦 𝐟𝐚𝐦𝐢𝐥𝐢𝐚𝐫, 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 é 𝐝𝐢𝐟𝐞𝐫𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐬𝐞𝐫 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬. 𝐒𝐞 𝐚 𝐟𝐚𝐦í𝐥𝐢𝐚 𝐟𝐨𝐫 𝐭𝐨𝐝𝐚 𝐚𝐬𝐬𝐢𝐦, 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐯𝐚𝐥𝐞 𝐬𝐞𝐫 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐥𝐡𝐞𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐢𝐠𝐚𝐦 𝐝𝐚𝐫 𝐚𝐦𝐨𝐫”.
Entretanto, a mãe e o padrasto das crianças foram detidos na tarde de quinta-feira, 21 de maio, em Fátima.
No meio de um caso que abalou Portugal, Alexandre Quintas ficou associado ao gesto que impediu o pior. E, mesmo homenageado como herói, continuou a olhar para o essencial: os dois irmãos e o futuro que ainda precisam de reconstruir.


