Caso de Alcácer do Sal comove Portugal: Joana Amaral Dias fala em “redenção”, Tânia Laranjo homenageia Alexandre Quintas e CMTV vive manhã emotiva, esta sexta-feira.
O caso das duas crianças francesas abandonadas numa zona de mato, em Alcácer do Sal, continua a provocar uma onda de comoção em Portugal. A história juntou indignação, análise criminal, reflexão social e reconhecimento público ao homem que encontrou os dois menores.
Enquanto Joana Amaral Dias fez uma leitura dura sobre os suspeitos e alertou para os números da infância em Portugal, Tânia Laranjo dedicou um texto emocionado a Alexandre Quintas. Na CMTV, Luciana Abreu e Rúben Pacheco Correia também assinalaram a dificuldade de conduzir uma emissão marcada por lágrimas.
Joana Amaral Dias faz análise dura ao caso
No canal Now e nas redes sociais, Joana Amaral Dias recorreu à sua experiência na psicologia e criminologia para comentar o caso. A comentadora não suavizou palavras ao referir-se à mãe e ao padrasto das crianças, Marine Rousseau e Marc Ballabriga.
“Ela não é uma mãe, é uma maléfica. E ele não é um padrasto, é um carrasco”, afirmou.
Depois, Joana Amaral Dias ligou o impacto deste caso a uma memória coletiva que marcou Portugal: o desaparecimento de Maddie. Na sua leitura, o salvamento destas duas crianças estrangeiras teve um peso simbólico no país.
“Parece que Portugal se está assim um bocadinho a redimir da Maddie. Tivemos uma menina estrangeira que desapareceu em Portugal. Acho que foi um trauma nacional que nunca foi totalmente superado. E finalmente agora podemos salvar duas crianças estrangeiras. Acho que foi uma espécie de uma redenção“, considerou.
Nas redes sociais, reforçou ainda que o caso Maddie acabou por “manchar a reputação nacional” e que este desfecho representa uma “redenção simbólica do país“.
Infância em Portugal também preocupa
Ainda assim, Joana Amaral Dias fez questão de afastar a ideia de que a comoção com estas duas crianças possa fazer esquecer outras realidades. A comentadora alertou para dados que considera alarmantes sobre menores em Portugal.
“Vale alertar que só os números que saíram esta semana sobre as situações das crianças portuguesas são alarmantes. Temos uma em cada 20 crianças teve fome e não comeu. Temos 54 casamentos forçados infantis, o que é terrível. 300 mil crianças em situações de pobreza, um aumento de 21% dos casos da CPCJ, sendo que as CPCJs, só um quarto delas estão em condições de funcionar na plenitude“, denunciou.
Além disso, lamentou que o país continue a conviver com o “sofrimento silencioso das suas próprias crianças“.
“Crueldade intolerável” e “planeamento quase sádico”
A psicóloga analisou também a forma como o abandono terá sido preparado. Para Joana Amaral Dias, o caso revela um grau elevado de frieza e premeditação.
“Como criminóloga, devo dizer que é preciso de facto um sangue-frio tremendo, uma crueldade intolerável e um planeamento realmente quase sádico para pegarem duas crianças tão pequeninas, a mais pequena, do ponto de vista pediátrico, é um bebé, não é? Pegar nelas e colocá-las na floresta nessas condições, sem saber o que poderia acontecer, vencer uma eventual resistência das crianças enganando-as“, afirmou.
Depois, referiu o alegado pretexto usado para levar os menores ao local.
“Vejam lá, vão à procura de um brinquedo, tipo caça ao tesouro, portanto vencendo uma resistência que pudesse aparecer, tendo já deixado um adolescente na fronteira“, acrescentou.
Joana Amaral Dias comentou ainda o comportamento posterior dos suspeitos, encontrados em Fátima.
“Umas horas depois, são encontrados em Fátima, certamente não foram confessar-se ao santuário, em Fátima a beber calmamente uma água e um café. Isto, portanto, mostra uma personalidade de ambos, mas da parte da mãe, pelo menos, e desde logo, muito complexa, numa relação de facto perversa com os filhos e agindo (…) em conluio numa rede também ela maligna com o seu companheiro“, analisou.
O trauma das crianças e a confiança nos adultos
Na parte final da sua intervenção, Joana Amaral Dias centrou-se nas consequências emocionais para os dois irmãos. A comentadora sublinhou que, para as crianças, o abandono terá sido vivido como uma ameaça extrema.
“Nestas crianças, obviamente, a sensação que elas têm, uma vez que se encontram abandonadas na floresta, é de homicídio, é de perigo de vida. Claro, juridicamente sabemos que será enquadrado de outra maneira, mas a sensação de risco iminente de vida é o que elas sofreram. Sente-se que não podem confiar na mãe“, explicou.
Por fim, deixou um desejo ligado à justiça e à recuperação dos menores.
“Esperemos que a justiça tenha mão pesada. E que o pai, em França, consiga ajudá-las a reaprender a coisa mais difícil de todas: confiar novamente em adultos“, concluiu Joana Amaral Dias.
Tânia Laranjo homenageia Alexandre Quintas
Entretanto, Tânia Laranjo usou o Instagram para dedicar uma reflexão a Alexandre Quintas, o homem que encontrou e ajudou as duas crianças numa estrada em Alcácer do Sal.
A jornalista começou por falar da profissão e do desgaste de contar histórias todos os dias.
“Há dias em que não sei se trabalho demais ou se simplesmente tive o péssimo hábito de transformar aquilo que amo numa profissão”, escreveu.
Depois, desenvolveu essa ideia com um tom mais íntimo.
“Se uma criança de cinco anos me perguntasse o que faço, ainda respondia sem hesitar: conto histórias. E talvez dissesse baixinho: às vezes, nos dias bons, até mudamos vidas; mas nos outros, sobrevivemos a cafés requentados, ao barulho constante e ao desejo muito adulto de desaparecer duas horas para um sítio com sombra, silêncio e livros suficientes para justificar a ausência”, acrescentou.
“Um verdadeiro herói”
A partir daí, Tânia Laranjo centrou-se em Alexandre Quintas. A jornalista afastou a ideia de um heroísmo fabricado e destacou a simplicidade do gesto.
“E depois há dias como estes, que estragam um bocado o cinismo, que também é uma forma de sobreviver. E isso apenas porque duas crianças encontraram um verdadeiro herói: não daqueles certificados pelas redes sociais. Não foi um empreendedor da bondade com fotógrafo atrás. Foi apenas um padeiro alentejano. E pai de dez filhos – o que, por si só, já devia garantir canonização”, escreveu.
Logo depois, descreveu o homem que abraçou os menores sem esperar recompensa.
“Um homem de mãos gastas, sono atrasado e um coração absurdamente disponível. Abraçou estes miúdos como se fossem dele. Sem protocolo. Sem pose. Sem frases feitas. Sem transformar afeto em conteúdo. Só um homem bom. Daqueles perigosamente raros. E é irritante quando aparecem pessoas assim. Porque desmontam, em poucos minutos, todas as desculpas elegantes que inventámos para justificar a pressa, a indiferença e a falta de tempo”, continuou.
No final da publicação, Tânia Laranjo assumiu que não queria relativizar a emoção daquele caso.
“Há histórias mais bonitas do que esta? Talvez haja. Mas hoje, sinceramente, não me apetece ser equilibrada o suficiente para admiti-lo”, rematou.
CMTV distingue Alexandre Quintas e apresentadores reagem
O caso teve também forte impacto na CMTV. Alexandre Quintas esteve no programa “Olá, Bom Dia”, esta sexta-feira, 22 de maio, onde foi entrevistado por Luciana Abreu e Rúben Pacheco Correia.
Antes da conversa, foi distinguido com o prémio honorário “Herói CM”, entregue por Carlos Rodrigues, Diretor-Geral Editorial do grupo Medialivre.
Nas redes sociais, Luciana Abreu assinalou a intensidade da manhã.
“Um dia cheio de emoções, gratidão e inesquecível. Haja amor, viva ao amor e à liberdade. Muito obrigada“, escreveu.
Também Rúben Pacheco Correia destacou o peso emocional da emissão.
“Hoje foi, possivelmente, um dos programas mais difíceis de apresentar. Recebemos o Alexandre Quintas, que ajudou as duas crianças francesas abandonadas pela própria mãe – um testemunho que emocionou o país. Foi hoje homenageado como Herói CM Honorário“, afirmou.
Assim, o caso de Alcácer do Sal continua a ser mais do que uma notícia policial. Tornou-se uma reflexão sobre infância, abandono, justiça e humanidade. E, no centro dessa comoção, ficou o gesto de Alexandre Quintas, descrito por muitos como o homem que fez aquilo que devia ser simples: parar, proteger e abraçar.


