Parque Natureza de Noudar na Herdade da Coitadinha: “Uma aventura muito grande”

Foto: Terras sem Sombra

O Parque Natureza de Noudar é um dos ex-libris paisagísticos de Barrancos, ficando localizado na Herdade da Coitadinha. Foi neste espaço que parte da comitiva (produção e comunicação social) do Festival Terras sem Sombra ficou alojada este fim-de-semana. Foi também daqui que partimos para a acção de biodiversidade, que aqui decorreu.

Na Herdade da Coitadinha pode ficar alojado na Casa do Monte ou na Casa da Malta, lado a lado, que contam com “10 quartos duplos, portanto para 20 pessoas e temos ainda mas 3 quartos que têm beliches num formato que serve muito bem para casais com muitos filhos. Temos cozinhas completamente equipadas. Eu acho que é muito acessível, para a qualidade que servimos, é muito acessível. Uma proposta irrecusável”, disse-nos José Pedro Salema, presidente da EDIA (entidade proprietária e gestora do espaço).

Para quem queira conhecer melhor ou até mesmo obter informações sobre reservas, basta clicar AQUI .

A Herdade da Coitadinha foi adquirida pela EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas de Alqueva, S.A.) em 1997, como medida de compensação pela perda de habitats de ecossistemas de montado, galerias ripícolas e matagais mediterrânicos induzida pela construção da barragem de Alqueva. A escolha deste território, um pouco afastado da zona de influência direta de Alqueva, prende-se com o facto de este território peculiar pertencer à Rede Natura 2000 – Zona Proteção Especial (ZPE) Moura-Mourão-Barrancos-, visto ter um riquíssimo património natural e cultural e certamente por ter uma vasta e preservada área de montado de azinho. A EDIA tem como missão garantir que este espaço de características únicas se mantém e valoriza.

José Pedro Salema descreve todo o processo como “uma aventura muito grande. Começou pela escolha da propriedade, depois a recuperação do monte. Abrimos em 2006, depois de recuperar o monte na íntegra, e temos vindo a aprender de como podemos aqui criar uma estrutura que seja sustentável. Não é nada, nada fácil. Estamos num sítio muito isolado, apesar de ser lindo, toda a gente que cá vem adora. Mas, de facto não temos muitos visitantes. É uma grande luta convencer as pessoas a vir e a ficar, a ficar mais tempo. Para o turismo é muito importante a questão do tempo de permanência”.

E por termos estas dificuldades, fomos encontrando formas de viabilizar o território, de o gerir melhor, candidatámos-nos a projectos financiados para recuperar o habitat, tivemos uma grande participação no projecto Iberlinx, um projecto que lutou para melhorar e garantir as condições do habitat o lince ibérico, para que ele se instale. Aqui no Parque temos vários locais de multiplicação de coelhos, zonas onde largamos coelhos e os alimentamos artificialmente para que possam servir de alimentos aos predadores, para o lince e para os outros, porque há muita bicharada que se alimenta do coelho. Nós aqui até protegemos com cercas dos predadores terrestres mas não conseguimos protegê-los dos predadores aéreos. Porque estes parques de multiplicação de coelhos são um supermercado para as águias”, acrescentou.

Mas no Parque Natureza de Noudar, “além dos projectos de recuperação do património, fomos encontrando também na agricultura que é uma fonte de rendimento importante. Temos toda esta área certificada em agricultura biológica. Temos essencialmente aqui, também, uma vacada mertolenga e uma outra vacada, mais pequena garvonesa que é a raça bovina mais ameaçada em Portugal. Foi de propósito que escolhemos estas usa raças, foi de propósito que introduzimos a garvonesa há cerca de três anos de modo a dar o nosso contributo para recuperar essa raça”.

José Pedro Salema falou ainda da caça, “temos também caça”.

Por paradoxalmente que pareça, muitas das vezes as pessoas acham que a caça é uma actividade destrutiva, mas neste caso é para manter o equilíbrio. A caça é uma ferramenta de gestão desse equilíbrio. Por exemplo, quando temos excesso de veados ou javalis vamos ter mais destruição do mato. A destruição do mato retira abrigos para outras espécies. Há que ter um equilíbrio muito grande. O que nos falta cá e ainda não conseguimos ter como residente é o lince ibérico, o predador de topo que garante o equilíbrio da pirâmide. E como em termos gerais falta esse predador em Portugal, há uma generalidade de predadores intermédios que ganham outra dimensão como as raposas, ginetas ou saca-rabos que depois criam desequilíbrios. E portanto temos de usar a caça como ferramenta”, disse.

Quando questionado sobre a sustentabilidade do projecto, assume que “é sempre uma pergunta que vem. Vocês ganham dinheiro com isto. Muito dificilmente, com os subsídios agrícolas conseguíamos estar à tona da água, portanto no positivo mas muito baixinho. A conseguir respirar. Sem os subsídios, tivemos recentemente uma reclassificação por sermos uma entidade pública e portanto recebemos menos subsídios, estamos claramente no negativo. Mas é um investimento que temos de suportar e fazemos-lo com muito bom gosto”.

Um dos aspectos menos positivo para os visitantes é a acessibilidade. José Pedro Salema assume que “a estrada não é boa. São cerca de 7 Km de macadame, com muitos buracos e algumas gretas”.

Explica que “estamos numa zona Rede Natura 2000, num espaço classificado e portanto não podemos impermeabilizar. Não podemos alcatroar. Ao longo do tempo houve várias intervenções com recarga de pedra e terra, é algo que temos vindo a fazer em conjunto com a câmara em todos os verões. Mas era necessário fazer um trabalho mais de fundo”.

Revela ainda que “Onde vamos bater? No investimento. É uma extensão muito grande, e a EDIA não tem capacidade nem orçamento para o fazer. Estamos a tentar convencer a câmara municipal a dividir este esforço connosco, de modo a não perder tantos visitantes e a melhorar as acessibilidades”.

 

Sobre Noudar, falámos com o Presidente da Câmara Municipal de Barrancos, João António Serranito Nunes, que nos disse que “Noudar é, de facto, um sítio emblemático. Tem uma localização privilegiada com uma envolvente riquíssima, que faz fronteira com Espanha, apenas separado ali pelo Rio Ardila. Ajunta-se ali também o Rio Murtega. É uma fortaleza medieval, que foi construída com o aspecto que tem neste momento nos tempo de D. Dinis, construido com a preocupação de povoar o território, construção de fronteiras e ao mesmo tempo ser o primeiro baluarte defensivo de Portugal”.

Acrescentou ainda que “este aspecto histórico em si, dá-lhe uma importância histórica extraordinária. Tanto mais que, como já referi, o local é extraordinário sob o ponto de vista paisagístico”.

Revelou que “vamos desenvolver ali um projecto, para já, de consolidação da muralha e depois de algumas estruturas, nomeadamente a capela no seu interior. Para depois, avançar-se para um uso que queremos que tenha as três vertentes: a visitação, aspecto cultural e pedagógico e o de divulgação e preservação patrimonial”.