Bia Caboz revela a força de “Espiral”: “O melhor ainda está para vir”, assinalou a artista em entrevista.
Bia Caboz transforma o fundo do poço numa espiral ascendente
Assim, Bia Caboz está num momento de viragem. Depois de uma fase em que a palavra “espiral” podia carregar dor, queda e fundo, a artista olha agora para o mesmo símbolo de outra forma.
Agora, “Espiral” é movimento. É subida. Obra feita. É também a prova de que há caminhos que não andam em círculo.
“É mesmo uma espiral ascendente, acho que desde a última vez que falámos. Eu já consigo ver o movimento dessa espiral, tal como te disse na última entrevista, em círculo eu não estou a andar, é mesmo.”
Além disso, há no discurso de Bia Caboz uma noção clara de conquista. A artista não fala apenas de um disco lançado. Fala de uma ideia que passou do pensamento para a realidade.
“Então é engraçado, se nós olharmos para o nosso ponto de partida, já andei muito e estou muito, muito orgulhosa de ter idealizado uma coisa e vê-la concretizada.”
Por isso, “Espiral” surge como um disco de afirmação. Não abandona os temas difíceis, mas escolhe outra forma de os entregar ao público.
As coisas duras também podem ser cantadas com luz
Bia Caboz não quis fazer um disco pesado. Ainda assim, também não quis fugir ao que dói. A diferença está na forma como escolhe apresentar essas emoções.
Em vez de deprimir, quer motivar. Em vez de deixar o ouvinte preso no fundo, tenta mostrar uma saída.
“Houve essa intencionalidade de aproveitarmos as coisas negativas e vê-las na perspectiva do copo meio cheio e não sempre do copo meio vazio.”
Depois, Bia explica que esta decisão não é acidental. A produção, o estilo e a escolha sonora servem a mensagem. Tudo é pensado para a canção conseguir chegar.
“Então, a forma como eu produzo ou o estilo musical que eu escolho produzir, para mim, ajuda a complementar a mensagem que eu estou a passar.”
No entanto, essa leveza não significa superficialidade. Para Bia Caboz, há mensagens que só entram quando vêm disfarçadas de algo mais imediato.
“Porque uma coisa que seja muito forte, se ela não estiver quase disfarçada de música chiclete, tu não vais ouvir.”
Assim, a artista procura criar músicas que fiquem no corpo antes de serem totalmente entendidas pela cabeça.
“Então, eu tenho mesmo esse cuidado para as músicas chegarem às pessoas e elas inconscientemente estarem a cantar alguma coisa que elas, mais tarde, quando passarem por um assunto, aquilo faça sentido, assim, tipo, é sobre isto.”
“A Lei do Retorno” não é uma canção de vingança
Entre as faixas de “Espiral”, “A Lei do Retorno” tem provocado reacções curiosas. Algumas pessoas lêem a canção como um desejo de vingança. Bia Caboz discorda.
Para a artista, o tema fala de consequência. Fala da forma como cada pessoa acaba por lidar com aquilo que planta.
“A Lei do Retorno, as pessoas acham muito que é estou a desejar que o outro seja enganado como eu fui. E é totalmente o oposto.”
Depois, a cantora explica que a frase não pretende prometer imunidade a quem nunca falhou. A vida não funciona assim. No entanto, há uma diferença entre viver com peso e viver com consciência.
“Agora, uma coisa é certa, se tu nunca fizeste mal a outra pessoa tu vais ser muito mais feliz que aquela pessoa, com certeza.”
Além disso, a artista percebeu que muitas reacções vinham de pessoas que se projectavam na música. Algumas diziam que nunca tinham traído e, mesmo assim, tinham sido traídas.
Bia não encara isso como uma crítica directa. Encara como uma interpretação emocional de quem ouviu a canção a partir da própria ferida.
A estratégia não mata a arte
A palavra “estratégia” acompanha esta fase da carreira de Bia Caboz. Mas a artista faz uma distinção importante. Para ela, a arte não nasce da estratégia. A estratégia chega depois.
“A música, eu nunca faço música com estratégia. Eu nunca começo a fazer a obra com estratégia. Eu começo a compor e a escrever e só depois é que eu somo tudo e monto a estratégia.”
Ainda assim, Bia não tem receio de assumir que pensa o lançamento, o posicionamento e o caminho. Sobretudo porque é uma artista independente.
“Primeiro sou artista independente. Não havia caminho das pedras feito, nem ninguém sequer para dar uma opinião.”
Por isso, recusa a ideia de que tudo “acontece” por acaso. Na sua visão, essa narrativa pode ser confortável, mas também pode esconder falta de consciência.
“As pessoas aqui em Portugal têm muito medo de dizer assim. Ah, eu fiz isto, eu fiz esta música porque eu precisava estar posicionada neste lugar. As pessoas não dizem isso.”
Depois, reforça a ideia de que há uma diferença entre a criação e o lançamento. Uma coisa é escrever. Outra é fazer a obra chegar.
“Ninguém faz nada sem estratégia. Eu acho que um artista não faz nada sem estratégia e eu não estou a falar da arte, do momento que tu estás a fazer arte estou a falar do lançamento se tu não fazes, alguém vai fazer por ti.”
Um disco que não quer viver dentro de uma gaveta
“Espiral” não cabe facilmente num género musical. Bia Caboz não parece preocupada com isso. Pelo contrário, vê essa liberdade como parte da identidade do disco.
“Se tu ouves o meu álbum, não há um estilo musical, na parte instrumental, que tenha ligação com o outro. O que liga é toda a história e a minha forma de cantar.”
Assim, o disco passa por linguagens diferentes. Há fado, há outros balanços, há referências que se cruzam. Mas a artista insiste que a coerência está na narrativa e na voz.
“Para mim o mais importante na realidade é a letra e a melodia. O resto são arranjos.”
Além disso, Bia Caboz não quer ficar presa a espartilhos. Não procura ser apenas isto ou aquilo. E essa recusa também é uma forma de se afirmar.

O perfeccionismo como motor e como peso
Bia Caboz é exigente. Muito exigente. A própria reconhece que esse detalhe pode complicar o processo, mas também o considera essencial.
“Eu sou capaz de perder um dia se calhar a limar uma coisa que tu não vais entender mas para mim se aquilo vai ficar eternizado merece esse tempo perdido.”
Depois, fala da mistura e da masterização do álbum. Mesmo sem fazer a masterização, acompanhou o processo. Não conseguiria afastar-se de uma etapa tão determinante.
“É impossível não estar no mix porque o mix é os volumes de cada instrumento e a forma como tu no final ouves aquilo, se eu não estiver lá a pessoa que vai fazer não sabe o que eu quero vai alterar tudo, não é?”
No entanto, este controlo não vem apenas da música. Bia está também na estética, nos visuais, no cenário e nas luzes.
Há várias “Bias” dentro do mesmo projecto. A cantora, a compositora, a produtora, a directora visual e a pessoa que se senta com o técnico para pensar o espectáculo.
“Existe a Bia que perde imenso tempo a estudar sobre coloração, por exemplo, do vídeo porque eu quero ter uma coerência estética, desde o Instagram aos videoclipes, por exemplo existe a Bia produtora existe a Bia que está a criar o cenário que está a desenhar o cenário existe a Bia que está a dirigir.”
Além disso, Bia revela que até o desenho de luz do espectáculo passa por si. Isso surpreendeu um técnico com quem trabalha actualmente.
“Estou com um técnico novo de luzes e ele disse assim ‘eu só tive com um artista sentado comigo a fazer isto uma vez na vida e não desta forma’.”
Para Bia Caboz, essa presença total é natural. O palco é o ponto final de tudo o que constrói.
“Para mim é natural que eu esteja em todos os lugares porque se eu estou a criar uma coisa e eu quero que essa coisa chegue a ti o ponto final é o palco.”
O palco mostra aquilo que o disco ainda não revela
Depois do lançamento, “Espiral” ganha outra vida nos concertos. Para Bia Caboz, há coisas que só se compreendem ao vivo.
“No palco o disco ganha uma imagem que tu não tinhas, tu só tens um áudio ou videoclipes, mas ele ganha uma imagem.”
Por isso, a artista acredita que o concerto dá ao álbum uma dimensão impossível de captar apenas pela escuta.
“Tu ias entender coisas que são impossíveis de entender só ouvindo, impossíveis, impossíveis de entender.”
Entre os momentos mais marcantes está “Vai Vaguiar”. A música, que no disco pode parecer um lado B, ganha uma força cénica especial.
“Uma das músicas mais interessantes em palco é uma música que é quase um lado B do disco que é o Vai Vaguiar, por exemplo o Vai Vaguiar eu entro vestida de Zé Pilintra em personagem e é sempre muito incrível a reação das pessoas.”
Além disso, essa ligação ao Brasil também tem impacto no público. Bia nota a reacção de muitos imigrantes brasileiros quando reconhecem uma raiz cultural mais profunda.
“O Zé Pilintra é muito raiz do Brasil não é uma fusão de música tipo ou funk ou tipo coisas que estão a bater hoje em dia, é uma coisa muito raiz.”
O Monsantos, a intimidade e a adaptação ao espaço
Bia Caboz recorda também o concerto no Monsantos. O palco era pequeno, com menos espaço e menos possibilidades de luz. Ainda assim, a artista não viu isso apenas como limitação.
Pelo contrário, adaptou a proposta ao lugar. E transformou a intimidade numa oportunidade.
“Eu sabia que aquilo ia ser pequeno ia ser uma coisa mais intimista eu contratei sopros, um saxofone, trompete, trombone para aparecerem do nada uma pessoa a tocar o saxofone e de repente estávamos numa roda e eu estava no meio das pessoas a cantar.”
Depois, volta à palavra-chave da conversa: estratégia. Para Bia, adaptar a obra ao espaço e ao público não é frieza. É respeito.
“Eu acho que é isso a estratégia é adaptar a tua obra à cabeça de quem está lá.”
Rock in Rio confirma uma data mediática para Bia Caboz
Entre as datas deste ano, há uma que se destaca pela força mediática. Bia Caboz confirmou presença no Rock in Rio, no dia 27, o mesmo dia de Rod Stewart.
“Nós tivemos a confirmação que eu vou ao Rock in Rio este ano.”
A artista está feliz com a data. Considera que o público desse dia pode fazer sentido para o concerto que está a preparar.
“Eu estou feliz de irem nesse dia, para mim faz sentido porque eu ainda estou a caminhar para um público mais jovem, mas eu ainda não estou nesse lugar.”
Além disso, vê esse dia como uma oportunidade para chegar a um público mais maduro e disponível.
“É um público mais maduro e para o concerto que eu estou a preparar acho que vai ser super interessante.”
Ainda assim, Bia Caboz não idealiza o festival. É clara quando diz que o Rock in Rio tem um peso estratégico.
“O Rock in Rio, por exemplo, é estratégico não é um concerto que eu… é estratégico eu aceitei ir ao Rock in Rio, obviamente mas se tu me perguntares assim ah, é o palco dos teus sonhos, não.”
A estrada, o Rio de Janeiro e o desafio de levar “Espiral” para fora
Depois do disco, o próximo passo é levá-lo para a estrada. Bia Caboz quer espalhar o universo de “Espiral” por Portugal e também lá fora.
“Os próximos passos é usufruir tudo isto que tive a trabalhar e agora há um grande trabalho por cima disto que é espalhar o território Espiral por Portugal e lá fora.”
Um dos concertos que mais expectativa lhe cria é no Rio de Janeiro. Não por ser um destino óbvio, mas precisamente pelo contrário.
“O primeiro concerto é no Rio de Janeiro e isto para mim é impressionante.”
Depois, explica o desafio. Ao contrário de outros lugares com comunidades portuguesas fortes, sente que o Rio de Janeiro não tem esse vínculo directo.
“Se eu dissesse assim por exemplo, vou a Fall River, eu nunca fui à América mas entendo que há emigrantes portugueses, faz sentido, mas não há emigrantes portugueses no Rio de Janeiro.”
Por isso, a expectativa é grande. A actuação será num festival de fado, mas Bia Caboz não pretende apresentar um concerto de fado tradicional.
“Vai ser super desafiante e acho que vai ser super interessante porque é um festival de fado e claramente eu não vou estar a tocar fado tradicional.”
No fundo, a artista sabe onde está a sua maior força.
“O objectivo é agarrar o álbum levá-lo para a estrada e espalhá-lo da melhor forma porque eu acho que o melhor ainda está para vir na realidade, o melhor é eu ao vivo.”
Adidas escolheu Bia Caboz para representar Portugal
O lançamento de “Espiral” ficou também ligado a uma campanha com a Adidas. Para Bia Caboz, essa associação teve um significado muito particular.
A artista recorda que, na conversa anterior, tinha falado sobre caminhar antes de o mar abrir. Agora, vê esta parceria como uma confirmação desse pensamento.
“Nós temos de caminhar para o mar abrir, não podemos esperar que o mar abra.”
Depois, explica que a Adidas decidiu avançar com um videoclip. Segundo Bia, era a primeira vez que a marca fazia algo assim naquele contexto.
“A Adidas decidiu fazer um videoclip e é a primeira vez.”
Além disso, a artista destaca o peso simbólico de representar Portugal numa campanha internacional.
“Perceber que eu estou a representar Portugal nesta campanha e que lá fora são nomes como Kendall Jenner, o Bad Bunny está com a Adidas e perceber que escolheram-me em Portugal para ser a cara desta campanha é muito…”
O mais marcante, para Bia, é a escolha não ter sido feita apenas pelos números. Foi uma aposta numa artista ainda em construção pública, mas com uma identidade forte.
“Não foi por números, foi perceber primeiro, eu achei visionário porque é preciso ser visionário porque é preciso olhar para aquela pessoa e perceber esta pessoa ainda não é, mas vai ser.”
Um reconhecimento que toca na ferida e no orgulho
Quando confrontada com o facto de uma marca gigante ter olhado para si pelo carisma e pelo caminho, Bia Caboz emocionou-se.
A artista, que já falou abertamente sobre ter estado no fundo do poço e sobre duvidar de si, vê esta escolha como uma confirmação profunda.
“É um orgulho, é um orgulho.”
Depois, reflecte sobre o peso desse reconhecimento. Para Bia, não se trata apenas de uma marca escolher uma cara. Trata-se de uma marca associar-se a uma visão artística.
“Ser reconhecido por uma marca que se quer associar a ti, uma marca que é arte porque eles também fazem arte e que se quer associar a ti por tudo o que tu construíste até ali sem sequer saber, porque nessa altura eles nem sabiam como ia ser o meu álbum, nunca viram o meu concerto, isso para mim é um grande orgulho.”
Ainda assim, a artista fez questão de proteger a obra. A mistura entre marca e videoclip podia ser delicada. Mas sentiu respeito do outro lado.
“Percebi que eles estavam a respeitar a minha arte.”
Por isso, este momento ficou como uma prova de que vale a pena defender o que se faz.
“É nesses momentos que tu percebes que vale a pena lutar e acreditar naquilo que tu fazes.”
A espiritualidade entre o cansaço e a materialização
A conversa com Bia Caboz passa também pela espiritualidade. Não de forma abstracta, mas ligada ao trabalho, à exaustão e à capacidade de continuar antes de ver resultados.
A artista admite que, a meio do processo, a parte espiritual pode perder força. Quando há muito para resolver, a cabeça fica mecânica.
“Quando tu trabalhas muito eu fico muito robotizada e os sentimentos se anulam.”
Além disso, o ritmo é intenso. Há música, visuais, produção e decisões constantes. E nem sempre há espaço para sentir.
“Eu saio daqui e eu tenho o dia inteiro de trabalho mecânico tanto produção musical como visual porque estou a fazer os visuais do conceito, isso é mecânico, a cabeça está a pensar nisso, é resolver quase um puzzle e isso não é emocional.”
Ainda assim, Bia reconhece que a espiritualidade volta quando vê uma ideia materializada.
“Quando eu vejo materializado o que eu pensei que saiu de um pensamento aí eu volto a sentir essa parte espiritual.”
Também admite cansaço. Mas sente que ainda não é a hora de parar.
“Às vezes chego à cama exausta e penso que preciso parar mas não é a hora ainda.”

Instagram, palco e a escolha do que realmente importa
Bia Caboz sabe que o Instagram é importante para a música circular. No entanto, não quer que essa dimensão substitua a experiência real.
Para a artista, há coisas mais importantes do que alimentar constantemente a rede social.
“Eu tenho tanta coisa para fazer que assim não dá para estar a alimentar.”
Depois, deixa claro onde prefere colocar a energia.
“Para mim o que importa é a experiência que tu vais viver quando me vires no palco, eu prefiro mil vezes dedicar o meu tempo ali.”
Assim, a artista escolhe o palco como prioridade. A visibilidade interessa, mas não pode ocupar o lugar da obra.
O sucesso que não precisa de ser visto pelos outros
Bia Caboz também fala sobre sucesso de uma forma íntima. Para a artista, há conquistas que não precisam de ser validadas pelo público para existirem.
“Para ti, o meu sucesso é o que tu vês, mas o meu sucesso para mim tu não precisas de ver, eu só preciso sentir.”
Depois, resume o alívio de ter a obra feita. “Espiral” já existe. Está cá. E isso, para Bia, tem um peso enorme.
“Está cá, a obra está cá, se me acontecer alguma coisa amanhã, com o tempo as pessoas podem ir ver, está cá já está cá, e isso é um alívio.”
Por isso, o disco é mais do que um lançamento. É uma marca no tempo. É algo que fica.
A adolescente perdida e a potência encontrada
Quando fala de legado, Bia Caboz vai ao passado. Recorda uma versão mais jovem de si, perdida e sem se ver num caminho convencional.
“Eu era quando era adolescente era muito perdida porque não me via numa faculdade a fazer um curso comum.”
Hoje, olhando para trás, percebe que aquela rapariga ainda não conhecia a própria potência.
“A Bia que eu sou hoje olhando para essa miúda ela nem tinha a noção que a sua potência podia ser tão grande na direção certa.”
Além disso, fala da mãe. Havia o desejo de uma profissão estável. Hoje, existe orgulho pelo percurso construído.
“A minha mãe queria que eu tivesse uma profissão estável e hoje ela se sente tão orgulhosa.”
Essa dimensão pessoal atravessa “Espiral”. O disco parece nascer também de anos de observação, de dúvidas e de perguntas sobre o mundo.
“Eu acho que eu tive anos da minha vida a preparar o que eu ia escrever neste álbum.”
Questionar em vez de repetir
Bia Caboz valoriza a capacidade de questionar. Para a artista, não basta repetir ideias herdadas. É preciso olhar para elas e perguntar porquê.
“Eu quero questionar porque é que os gatos pretos dão azar, questiona, não digas, só não repitas uma mentira, não repitas, questiona.”
Depois, liga essa postura ao legado que quer deixar. Trabalhar importa, mas trabalhar no caminho certo importa ainda mais.
“Se tu trabalhas, tudo pode acontecer mas trabalha no caminho certo e não no caminho que as pessoas acham que deve ser o correto.”
Assim, a artista assume uma vontade de contagiar os outros. Não com fama, mas com abertura, consciência e movimento.
“Eu vejo que as pessoas vivem num círculo as pessoas têm muita dificuldade em viver em espiral.”
Amanda, a potência e a casa da mãe
Na parte mais pessoal da conversa, Bia fala também de Amanda. Refere-a como alguém muito presente no seu processo, quase como uma extensão do pensamento. A sua manager.
“Imagina, a Amanda é quase metade do meu cérebro a pensar, não é?”
Depois, surge uma reflexão sobre potência. A ideia é simples, mas profunda: quando alguém desenvolve aquilo que pode ser, abre espaço para que os outros façam o mesmo.
“Se tu desenvolves toda a tua potência, tu permites que os outros que estão à tua volta também desenvolvam.”
Bia liga essa ideia a uma mudança recente. Saiu de casa da mãe e foi viver para uma casa alugada. Esse gesto acabou por provocar outra mudança familiar.
“Eu agora saí da casa da minha mãe passado muitos anos, apesar de estar sempre a viajar e fui para uma casa alugada e a minha mãe ficou encantada com a minha casa.”
Depois, conta que a mãe olhou para a própria casa de outra maneira. E decidiu vender.
“O facto de eu ter saído da minha casa fez com que a minha mãe olhasse para a casa dela e disse assim eu vou vender a minha casa.”
Para Bia Caboz, isto resume uma parte importante da sua visão. Crescer não é apenas alcançar algo para si. Também pode abrir janelas nos outros.
“Desenvolve toda a máxima potência para permitir que os outros que estão à volta façam o mesmo.”
“Espiral” é disco, palco e declaração de identidade
Com “Espiral”, Bia Caboz entrega uma obra que não se resume a uma estética ou a um género. O disco carrega estratégia, espiritualidade, detalhe, memória familiar, ambição e estrada.
Ao mesmo tempo, confirma uma artista que não quer andar em círculo. Quer subir, mesmo quando o processo pesa. Quer pensar a carreira sem pedir desculpa por isso. E quer fazer do palco o lugar onde tudo finalmente se revela.
Por isso, “Espiral” não parece ser apenas o nome de um álbum. É o retrato de uma fase em que Bia Caboz decidiu transformar o que viveu numa obra capaz de ficar.




