Buba Espinho há sempre de voltar ao seu Alentejo e nós agradecemos, pelo espetáculo intimista que deu nos Sabores do Barro, entre amigos e família, na tarde de 29 de março de 2025. E quem assistiu sentiu-se parte desta família. Aliás, podia até não ser definido como um espetáculo no sentido teatral e até comercial da palavra. Pois foi uma expressão da emoção da saudade. Foi uma expressão de felicidade, uma comemoração do “ser dali”, ser alentejano, ser emotivo e ser humano.
Texto: André Nunes
Fotografias: Diogo Nora
O Buba de há dez anos
O presidente da Junta de Freguesia de Beringel, Vítor Besugo, senta-se com Buba Espinho numa mesa tão típica das adegas e tabernas alentejanas do passado. Sentam-se e olham para o público.
Neste espaço, que era a Embaixada do Cante, por entre utensílios do passado, da agricultura e pecuária, não cabia nem mais um apaixonado por cante. O público esperava com grande ansiedade por Buba Espinho e amigos, e este mar humano era a perder de vista.
Após inspirarem todo aquele espaço, o presidente declara: “Estou na mesma mesa do Buba, pelo menos, já que não sei cantar. Fico para a fotografia”. E concluiu que era “uma grande honra e privilégio” estar ali com ele, já que as suas raízes são dali e foi sempre a todos os Sabores no Barro. Buba agradeceu: “Quem era o Buba há 10 anos? Obrigado ao presidente e ao executivo da Junta de Freguesia que sempre deram oportunidades aos mais jovens. Ao Buba sem barba. E, se os Sabores no Barro tiverem 50 anos, é 50 anos que vão ter cá o Buba”. Foi ali, nos Sabores do Barro, que Buba pôde cantar tranquilamente os temas “Casa” e “Roubei-te um beijo” quase em modo de estreia, entre amigos, família e alentejanos.
E começamos, felizes e com brilho nos olhos
“Verão, Alentejo e os Homens”, moda que ganhou maior popularidade por António Zambujo, dá o mote ao concerto com calor humano da tarde alentejana. Buba evoca com a musicalidade da sua voz, a “brasa dourada e celeste”, “solo agreste” queimado, os campos de “espigas” e as nossas avós que eram, com muito sacrifício, ceifeiras “com corpos curvados”.
E pela forma como a nossa equipa foi bem recebida e tratada, entre uma comunidade excecional que mais parece uma cápsula de tempos mais simples e a preto e branco, o Alentejo continua a região e estado de espírito que trata o trabalho, a família, os amigos, a comunidade, o pertencer e o ser. E o público sentiu esse pertencer e o ser alentejano. Fomos todos alentejanos, até quem não era. O “suor rasga a camisa e o homem queimado mais fica”, mas daria essa camisa num ápice se o vizinho precisasse.
Em família é como se canta o cante alentejano
Neste momento, Buba chamou os seus amigos ao palco rústico improvisado: João Domingos, Inês Gonçalves, Beatriz Felício, Bandidos do Cante e irmão Eduardo Espinho.
“Já não há pardais no céu”, o último single de Bandidos do Cante, ecoou na voz deste grupo, e teve repercussões nesta tarde por toda a província alentejana. “Já não há pardais no céu/ Nem cigarras nas noites de verão” e não eram estes animais que desapareceram. Foram as nossas infâncias, mas voltaram nestes momentos incríveis momentos da tarde de ontem.
[Best_Wordpress_Gallery id=”7964″ gal_title=”Buba-SaboresnoBarro-2025″]É cá que queremos ficar
“Um dia hei de voltar” veio logo a seguir. E por muita ansiedade que o público e a nossa equipa tivessem por este tema, acredito que estavamos a torcer para que este tardasse. Para que fosse lá bem para o fim, tal não é a carga emocional que carrega e com este tipo de canções carregamos o mundo do nosso passado às costas.
Através do tema, ficamos menos pesados, mas com a cara enternecida por lágrimas que carregam, por sua vez, os nossos arrependimentos e desejos de voltar onde fomos felizes, e até onde fomos infelizes mas confortáveis. Até ao fim as lágrimas continuavam a ser constantes, a pensar em tudo o que ficou para trás, mas a que nunca perdemos a esperança de voltar. Queremos voltar para quem mais gostamos de abraçar no frio do inverno.
E não é tarde nem é cedo para voltar a animar o público, ao arranjarem um tema para animarem os nossos arrependimentos e falhas das pessoas que somos. “Quinta Feira da Ascenção, Saem as moças pro campo. De vestido cor-de-Rosa, No cabelo, (chapéu),um laço branco.” E é um branco de esperança e felicidade por estarmos todos unidos a cantar, tal como se estivéssemos em palco com os artistas.
Assim, seguiu-se “Ao Teu Ouvido”, tema de Buba com Bárbara Tinoco. Neste tema,sabemos que “o verão que todos os anos fica mais pequeno” mas nesta região dura o ano todo. Ou pelo menos o sentimento dele dura o ano todo, sempre com a declaração que: “Prometo p’ro ano temos mais tempo”.
“A gente não sai daqui nem por nada”, exclamou Buba Espinhos, ao interiorizar todo aquele momento, e não podia faltar “ Menina estás à janela” para complementar as modas alentejanas, com o espaço prestes a cair de tanto canto em uníssono.
Arrepios e pele de galinha
“Estamos aqui por vocês e somos o que somos por vocês”, continuou o artista embaixador dos Sabores no Barro,e passou a ´tocha´ aos Bandidos do Cante para o tema “Amigos Coloridos”. E aqui cantámos todos juntos, e foi de arrepiar. Aliás, foi de fazer “pele de galinha”, como se diz no Alentejo.
Atentos a novas vozes
Segue-se um momento de fado, “Janelas Enfeitadas”, em que Beatriz foi estrela e mostrou porque é presença assídua nas mais importantes casas de fado lisboetas.
“Gotinha de água”, o clássico do cante que seguiu e ecoou por todo o Beringel e atmosfera periférica, mais consistente e apresente do que as rolas, passarinhos e verde ofuscante na luz que são os olivais.
Também a voz feminina da jovem Inês Gonçalves foi estrela nesta tarde, com “A Janela”. E ninguém ficou indiferente a ouvir esta voz ímpar a cantar sozinha e em extremo silêncio de respeito pelo cante, “Passei à tua janela. para contigo falar. Levava uma linda flor. Para te dar. Eu dou-te a minha vida, tu dás-me o teu coração”.
Assim, Buba Espinho foi ele próprio, e entre os seus maiores amigos cantou “Casa”. O público acompanhou verso a verso, sabia cada diferença de tom, palavra, nota e timbre. Isto antes de “Os guardas bateram”,com animação a tomar conta de todo o concelho de Beja.
O Cante é eterno e tivemos uma faísca da eternidade
“Obrigado por acreditares em nós”, disse Buba em relação ao presidente da Junta de Freguesia, Vítor Besugo. “O Vítor já acreditava em nós antes do cante ser património da Humanidade”, testemunhou.
“O Buba tem estado em Beringel todos os dias. Obrigado Buba”, respondeu o presidente, mencionado que levou alunos de Cante Alentejano de Buba, quando era professor de música em Beringel,a Lisboa ao programa “Uma Canção para ti”.
“Coliseus, ao pé de Beringel, não são nada”, concluiu Espinho num concerto onde pôde ser ele próprio, com a linguagem e expressões que queria.
Em conclusão, Buba Espinho divertiu-se com amigos nos Sabores no Barro de Beringel. Seria esta a descrição mais precisa destas horas que passámos, entre amigos, a ouvir cante na voz de quem sabe e de quem deseja levar cada vez para mais longe.
“Beringel ‘tá na moda!”, tal como é o slogan da Junta, e Buba vai voltar sempre, mesmo que não estivesse. Vai voltar de certeza, seja lá quando isso for, mas acreditamos e esperamos ser mais cedo do que tarde.




