Fernando Correia fala sobre Alzheimer da mulher: “Aprendi com ela o que era o amor”, destacou na TVI.
Jornalista esteve no Dois às 10 para assinalar 90 anos de vida e 70 de carreira
Fernando Correia esteve à conversa com Cristina Ferreira, no Dois às 10, para assinalar uma vida marcada pela rádio, pelo jornalismo e por uma história familiar profundamente exigente.
Aos 90 anos, e a um mês de celebrar o 91.º aniversário, o comunicador falou dos 70 anos de carreira, do novo livro “Piso 3/4/303” e da doença da mulher, Vera.
Diagnosticada com Alzheimer há mais de duas décadas, Vera permanece no centro da vida afectiva de Fernando Correia. O jornalista falou da dor, da dedicação e da aprendizagem que este percurso trouxe à família.
“A idade está em nós, está na cabeça”
Antes de entrar no lado mais íntimo da entrevista, Fernando Correia revelou como encara a passagem do tempo. Para o comunicador, a vitalidade vem da actividade constante e da curiosidade mantida.
Questionado por Cristina Ferreira, explicou: “𝗘́ 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮𝗿. 𝗘́ 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮𝗿, 𝗲́ 𝗽𝗲𝗻𝘀𝗮𝗿 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼, 𝗲́ 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲𝗿 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼, 𝗲́ 𝗹𝗲𝗿 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼, 𝗲́ 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗰𝗮𝗿 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼”.
Depois, deixou uma frase que resume a forma como olha para a idade: “𝗔 𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗲𝗺 𝗻𝗼́𝘀, 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗻𝗮 𝗰𝗮𝗯𝗲𝗰̧𝗮”.
Apesar da longevidade profissional, a conversa ganhou outro peso quando Fernando Correia falou de Vera, diagnosticada aos 59 anos.
Vera está há 14 anos numa unidade de saúde
A mulher de Fernando Correia tem actualmente 82 anos. O jornalista recordou que a doença se prolonga há tanto tempo que, em breve, poderá ocupar mais anos do que aqueles vividos antes do diagnóstico.
Com emoção, desabafou: “𝗣𝗿𝗮𝘁𝗶𝗰𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗮̃𝗼 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗮𝗻𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗱𝗼𝗲𝗻𝗰̧𝗮 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗲 𝘃𝗶𝗱𝗮, 𝗺𝗮𝘀 𝗾𝘂𝗮𝗹𝗾𝘂𝗲𝗿 𝗱𝗶𝗮 𝗲́”.
Durante algum tempo, a família tentou manter Vera em casa, com apoio de um cuidador. Porém, a evolução da doença tornou essa solução impossível.
Fernando Correia explicou a decisão de internamento: “𝗠𝗲𝘀𝗺𝗼 𝘁𝗲𝗻𝗱𝗼 𝘂𝗺 𝗰𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗼𝗿 𝗹𝗮́ 𝗲𝗺 𝗰𝗮𝘀𝗮, 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲𝗿𝗮 𝗽𝗼𝘀𝘀𝗶́𝘃𝗲𝗹, 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗲𝗹𝗮 𝗯𝗮𝘁𝗶𝗮 𝗻𝗼 𝗰𝘂𝗶𝗱𝗮𝗱𝗼𝗿, 𝗲𝗹𝗮 𝗯𝗮𝘁𝗶𝗮 𝗻𝗼𝘀 𝗻𝗲𝘁𝗼𝘀”.
Desde então, Vera está na Casa de Saúde das Irmãs Hospitaleiras, onde permanece há 14 anos.
“Eu aprendi com ela o que era o amor”
Fernando Correia contou que a mulher já não o reconhece. Também já não reconhece os filhos nem os netos. Ainda assim, as visitas e o carinho mantêm-se.
Foi nesse caminho de cuidador que o jornalista diz ter descoberto outro sentido para o amor. Não o amor idealizado, mas o amor da presença e do sacrifício.
À apresentadora, afirmou: “𝗘𝘂 𝗮𝗽𝗿𝗲𝗻𝗱𝗶 𝗰𝗼𝗺 𝗲𝗹𝗮 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝗿𝗮 𝗼 𝗮𝗺𝗼𝗿. 𝗘𝘂 𝗲𝘀𝘁𝗮𝘃𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘃𝗲𝗻𝗰𝗶𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗮𝗺𝗼𝗿 𝗲𝗿𝗮 𝗮𝗾𝘂𝗲𝗹𝗮 𝗰𝗼𝗶𝘀𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗼́𝘀 𝘃𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗰𝗿𝗶𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗶𝗹𝘂𝘀𝗼𝗿𝗶𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲”.
Depois, explicou o que entende hoje por afecto verdadeiro: “𝗘́ 𝗼 𝗮𝗺𝗼𝗿 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗺𝗲 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗼 𝗱𝗲 𝗱𝗮𝗿 𝗮 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝘃𝗶𝗱𝗮 𝗽𝗼𝗿 𝗲𝗹𝗲𝘀”.
O sorriso que contrariou o silêncio
Mesmo com a ausência de reacções evidentes, Fernando Correia revelou que continuam a existir momentos raros e difíceis de explicar.
Um deles aconteceu há dois anos, no aniversário da filha mais nova do casal. O jornalista levou Nara até junto de Vera e contou-lhe, ao ouvido, que a filha fazia anos.
Antes de relatar esse instante, descreveu o estado da mulher: “𝗘𝗹𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗳𝗮𝗹𝗮, 𝗻𝗮̃𝗼 𝘃𝗲̂, 𝗻𝗮̃𝗼 𝗼𝘂𝘃𝗲, 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗻𝗮𝗱𝗮”.
Depois, recordou o momento: “𝗘 𝗲𝘂 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲-𝗹𝗵𝗲 𝗮𝗼 𝗼𝘂𝘃𝗶𝗱𝗼, 𝗹𝗲𝘃𝗲𝗶 𝗮 𝗡𝗮𝗿𝗮 𝗲 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲-𝗹𝗵𝗲 𝗮𝗼 𝗼𝘂𝘃𝗶𝗱𝗼: ‘𝗢𝗹𝗵𝗮, 𝗩𝗲𝗿𝗮, 𝗮 𝗡𝗮𝗿𝗮 𝗵𝗼𝗷𝗲 𝗳𝗮𝘇 𝗮𝗻𝗼𝘀.’ 𝗘 𝗲𝗹𝗮 𝘀𝗼𝗿𝗿𝗶𝘂”.
O episódio continua a emocionar Fernando Correia, precisamente por surgir no meio de um quadro de grande ausência.
Livro nasce também da falta de empatia
O novo livro “Piso 3/4/303” surge ligado a esta experiência familiar. Fernando Correia quer que a obra ajude outras famílias a lidar com a doença e com a incompreensão social.
Durante a entrevista, recordou um episódio que o marcou profundamente. Numa loja, uma funcionária chamou “maluca” a Vera, perante a indecisão provocada pela doença.
O jornalista explicou o impacto desse momento: “𝗜𝘀𝘁𝗼 𝗱𝗼́𝗶. 𝗘 𝗲́ 𝗶𝘀𝘁𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘂 𝗾𝘂𝗲𝗿𝗼 𝗲𝗻𝘀𝗶𝗻𝗮𝗿 𝗮̀𝘀 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀, 𝗲́ 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗲𝗻𝗵𝗮𝗺 𝗮𝗺𝗼𝗿, 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗼́𝗱𝗶𝗼, 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲́ 𝗱𝗲𝘀𝗽𝗿𝗲𝘇𝗼, 𝗲́ 𝗮𝗺𝗼𝗿 𝗽𝗲𝗹𝗮𝘀 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀”.
Assim, a obra assume-se como um testemunho pessoal, mas também como um apelo à sensibilidade perante doenças do foro psíquico.
“Deem carinho, deem ternura, deem amor”
Na parte final da conversa, Fernando Correia deixou uma mensagem dirigida a quem acompanha familiares com Alzheimer.
O jornalista defendeu que, perante a doença, o amor é a resposta mais necessária no dia a dia.
Na sua perspectiva, sublinhou: “𝗦𝗼𝗯𝗿𝗲𝘁𝘂𝗱𝗼, 𝗮 𝗱𝗼𝗲𝗻𝗰̧𝗮 𝗱𝗲 𝗔𝗹𝘇𝗵𝗲𝗶𝗺𝗲𝗿 𝗻𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗮𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗰𝘂𝗿𝗮-𝘀𝗲 𝘀𝗼́ 𝗱𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮, 𝗰𝗼𝗺 𝗮𝗺𝗼𝗿, 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗻𝗮𝗱𝗮. 𝗗𝗲𝗲𝗺 𝗰𝗮𝗿𝗶𝗻𝗵𝗼, 𝗱𝗲𝗲𝗺 𝘁𝗲𝗿𝗻𝘂𝗿𝗮, 𝗱𝗲𝗲𝗺 𝗮𝗺𝗼𝗿, 𝗲́ 𝗽𝗿𝗲𝗰𝗶𝘀𝗼 𝗶𝘀𝘀𝗼, 𝗻𝗮𝗱𝗮 𝗺𝗮𝗶𝘀”.
Sem medo do futuro, Fernando Correia mostrou vontade de continuar a trabalhar, escrever e comunicar. Aos 90 anos, mantém a fé, a esperança e uma ideia simples: enquanto houver voz, há caminho.

