Gonçalo Salgueiro entre o céu e a terra numa homenagem visceral a Fernanda Maria nos Recreios da Amadora, na noite de ontem.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso
Uma noite em que o Fado se tornou oração
Os Recreios da Amadora receberam, esta sexta-feira, 10 de outubro, Gonçalo Salgueiro para um concerto que ficará gravado na memória de quem o viveu.
O fadista montemorense (natural de Montemor-o-Novo) – um artista que carrega em si um vasto mundo de emoções – surgiu em palco vestido de negro, com uma túnica que lhe conferia uma presença quase litúrgica. No entanto, foi uma explosão de cores emocionais que emergiu da sua voz: um arco-íris de sentimentos que pintou o Fado com alma e transcendência.
Gonçalo Salgueiro não canta apenas; ele sente, oferece e eleva. Traz consigo uma aura espiritual, uma entrega que transforma a arte num ato de comunhão entre palco e plateia. Cada palavra, cada nota, cada gesto, é um eco da humanidade mais profunda.
Uma homenagem sentida a Fernanda Maria
Este concerto teve um simbolismo especial: a homenagem a Fernanda Maria, a eterna “Rainha das Cantadeiras”, que partiu este ano.
Gonçalo Salgueiro mergulhou num repertório inédito, escolhendo temas que nunca tinha interpretado ao vivo.
Contudo, quem o ouviu teria jurado o contrário. Cada fado soou como se lhe pertencesse desde sempre, cantado com uma naturalidade e uma intensidade que só a verdade permite.
Em vários momentos, o artista lutou contra as lágrimas, usando o humor subtil e o sorriso sereno para manter o equilíbrio entre emoção e entrega. Foi um espetáculo de autenticidade e coração aberto.
“Um performer extraordinário com coração que extravasa o comum dos mortais”
Gonçalo Salgueiro provou, mais uma vez, que é muito mais do que um fadista. É intérprete, é poeta, é alma viva do Fado. Tem um coração que extravasa o comum dos mortais. E isso sente-se em cada respiração.
Ao longo do seu percurso, tem prestado homenagens a grandes nomes da cultura portuguesa, e esta noite foi mais um capítulo desse legado.
Nos Recreios da Amadora, foi acompanhado por músicos de excelência: Rafael Pacheco e Diogo Ferreira nas guitarras portuguesas, Ginestal Martins na viola de fado e Manuel Vaz da Silva na viola baixo.
No alinhamento, uma seleção irrepreensível de temas eternos de Fernanda Maria:
“As pedras da minha rua”, “Através daquela porta”, “O Fado das Violetas”, “Deus queira”, “De loucura em loucura”, “Vivo nos braços da noite”, “Gosto de ti”, “Saudade vai-te embora” e “Maria Severa”, entre outros.
Convidados que brilharam: Adriano Pina e Lenita Gentil
O concerto contou ainda com dois convidados de luxo – Adriano Pina e Lenita Gentil -, ambos absolutamente memoráveis.
Adriano Pina, jovem fadista de voz antiga, trouxe consigo uma intensidade quase mística.
A sua voz, profunda e visceral, ecoou como se carregasse séculos de histórias. A sua voz tem uma profundidade por vezes extasiante, outras misteriosa. Quase como se tivesse já vivido várias vidas e as expressasse através do canto.
Interpretou o Fado Menor, “Oferece o teu amor” e “Barcos do Tejo”, culminando num dueto poderoso com Gonçalo Salgueiro, num momento de comunhão artística que arrepiou a plateia.
Já Lenita Gentil mostrou, mais uma vez, por que motivo é um dos grandes nomes da cultura portuguesa.
Magnânima em palco, uma deusa de voz galáctica, trouxe temas como “Negro Ciúme”, “Triplicado” e “Não passes com ela à minha rua”, arrebatando o público.
Lenita, que gravou um álbum de tributo a Fernanda Maria, a ser editado em breve espera-se, foi sinónimo de poder, alma e emoção em estado puro.
Homenagem a Maria de Lourdes Carvalho
Em diferentes momentos, os três artistas prestaram também homenagem a Maria de Lourdes Carvalho, uma figura incontornável da cultura nacional — poetisa, locutora, biógrafa e produtora.
Foi uma homenagem justa e sentida, a uma mulher que é inspiração e exemplo de conhecimento e afetos, inclusivamente para este que vos escreve.
Gonçalo Salgueiro: um artista que transcende o Fado
No final, restou a certeza de que o que Gonçalo Salgueiro fez nos Recreios da Amadora foi extraordinário. A sua voz não se explica, sente-se. As palavras talvez falhem para descrevê-lo, mas a alma compreende-o na perfeição.
O seu canto é fogo e silêncio, dor e cura, terra e céu. É a prova de que o Fado, quando cantado com verdade, é muito mais do que música: é uma experiência espiritual.
Para quem ainda não conhece ou finge não conhecer Gonçalo Salgueiro, basta ouvi-lo cantar – ou ler o que escreve – para entender-lhe a alma. Porque o que ele oferece em palco não é apenas arte. É vida.
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