Jorge Jesus reage ao comunicado de Ronaldo: “Agora vou ler, não tenho nada a dizer”, afirmou o selecionador nacional.
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Jorge Jesus afirmou que ainda não tinha lido o comunicado de Cristiano Ronaldo quando foi questionado pela CMTV, esta terça-feira, 6 de outubro. O selecionador regressava a casa, na Aroeira, depois de ter acompanhado em Leiria a vitória dos sub-21 portugueses sobre a Chéquia, por 2-0.
“Estive em Leiria a ver o jogo da seleção [sub-21]. Agora vou ler o comunicado, não tenho nada a dizer”, declarou, sem responder naquele momento às acusações do capitão.
A primeira reação de Jesus surgiu numa noite em que o texto de Ronaldo motivou diferentes leituras. António Simões pediu diálogo, embora tenha criticado a postura do avançado, enquanto Rui Santos considerou que o comunicado aumenta a pressão sobre o selecionador.
Ronaldo assume erro e coloca punição nas mãos da Federação
No comunicado, Cristiano Ronaldo acusou Jorge Jesus de faltar à palavra em duas ocasiões, mas reconheceu que não deveria ter abandonado o estágio da Seleção Nacional. Pediu desculpa aos companheiros e aos adeptos e defendeu que o seu comportamento deve ter consequências disciplinares.
O capitão manteve também a disponibilidade para regressar à equipa, desde que esteja em condições físicas, continue a jogar no clube e cumpra uma eventual suspensão.
O artigo 160.º do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol prevê, para o abandono ou a falta de comparência injustificados em atividades das seleções, uma suspensão de um a seis meses e, no caso de jogadores profissionais, uma multa entre cinco e dez unidades de conta. O mesmo artigo estabelece a suspensão preventiva automática nos termos do regulamento.
Este enquadramento regulamentar não corresponde, por si só, ao anúncio de uma decisão disciplinar concreta sobre Ronaldo.
António Simões pede uma solução que permita encerrar o conflito
António Simões pronunciou-se à margem da apresentação do relatório “O apito e a confiança”, do movimento UNUM – Benfica de Todos, no Lux Lisboa Park. Nas declarações recolhidas pela A BOLA, o antigo internacional português defendeu que a prioridade deve ser encontrar uma saída para o desentendimento.
“É melhor encontrar-se forma de criar-se paz do que continuar com a guerra. Não faz sentido isto. Se há condições para que o Cristiano volte, seja bem-vindo, mas por todos, não alguns que se vão escondendo. Não temos de dar razão ao Cristiano Ronaldo, e acho que não tem, agora se ele reconhece que cometeu um erro”, afirmou.
Simões defendeu que o jogador deve ter a oportunidade de uma despedida à altura do seu percurso e insistiu na necessidade de diálogo.
“Pede-se bom senso. Tolerância. Temos conflitos com todos. Se o Cristiano quer fazer, deem-lhe essa chance. Não estou aqui a defender Cristiano ou o Jesus, ou outra pessoa, estou a defender o bom senso. Que se encontrem, conversem e resolvam. Que bonito ficaria. Essa é a minha grande esperança que assim aconteça.”
“Não é só o golo, é o jogo”
Apesar do apelo à conciliação, António Simões deixou críticas à forma como Ronaldo encara o seu papel.
“Às vezes ficamos com a sensação de que é um egolátrico, que só pensa nele. Tive essa experiência no Campeonato do Mundo na África do Sul e tive a oportunidade de falar com ele. Já ali tive um pequeno sinal de que não vale a pena ser assim”, declarou.
O antigo jogador do Benfica considerou que a experiência acumulada deve refletir-se na maneira de gerir esta fase da carreira.
“Este jogador tem este trajeto todo, está maduro, é um homem, arranje forma de pensar que não é egolátrico. Não é só o golo, é o jogo. Essas coisas têm de fazer parte dele. Se ele percebe isto, temos uma festa lindíssima de despedida. Quer jogar? Vamos ver, aí pertence ao selecionador se tem ou não condições para isso.”
Questionado sobre se Ronaldo continua a ser uma mais-valia aos 41 anos, Simões distinguiu essa avaliação da utilidade que pode ter em determinados momentos.
“Tenho dúvidas se é uma mais-valia. Isso implica muito mais do que ser útil, atenção ao que se diz. Quando tem 41 anos tem de perceber que pode ser útil em determinado momento do jogo que pode ele implicar fazendo alguma intimidação ao seu grande nome… coisas que o selecionador deve saber gerir. Se ele quer jogar não é nenhum crime, mas tem de perceber que o querer jogar não é todo o jogo.”
Simões defende autoridade do treinador
Sobre uma eventual punição, António Simões voltou a colocar a conversa entre os envolvidos em primeiro plano.
“Depende do critério. Tem de se olhar para o que se passou e há várias fórmas de castigo… Conversem primeiro, se tiverem de pedir desculpa um ao outro peçam. Que grande lição de civismo que dão a Portugal.”
O antigo internacional considerou ainda que a equipa manteve capacidade competitiva durante a polémica.
“A equipa jogou bem e ganhou”, assinalou, defendendo que Ronaldo pode continuar a ser útil sem ter de assumir a titularidade ou cumprir os 90 minutos.
Simões questionou também a necessidade de um tratamento especial para o capitão.
“Porque é que tem de ter tratamento especial? Tem um estatuto diferente, mas não é jogador da equipa? Acabem com essas coisas, não alimentem isso. O que quis fazer, foi livre de o fazer, é o problema de quem o fez. Todos nós acabamos. Eu joguei com o Rei chamado Eusébio, convivi com Pelé e Maradona, nunca vi uma coisa destas à volta de um Rei. Um senhor com 41 anos a jogar futebol… não é melhor parar?”
Num registo irónico, acrescentou: “Depois dos mil golos, Cristiano Ronaldo vai jogar na Seleção até aos 49 anos.”
Rui Santos vê no comunicado pressão para Jesus sair
No “Jornal Nacional”, da TVI, Rui Santos apresentou uma leitura diferente da possibilidade de entendimento. Questionado por Sandra Felgueiras sobre o regresso do capitão, o comentador afirmou que o comunicado não aproxima as partes.
“Não, não acho. Eu acho que este comunicado é um convite ao Jorge Jesus para sair da seleção.”
Na sua interpretação, o texto procura “tentar atirar o Jorge Jesus pela janela”, colocando em causa a autoridade do treinador.
Rui Santos recordou o que tinha dito quando Jesus foi contratado: “Se fizerem alguma coisa que ponha em causa a autoridade do Jorge Jesus, ele sai ao fim de 4 meses.”
Perante a observação de Sandra Felgueiras de que o selecionador soma quatro vitórias em quatro jogos, o comentador admitiu que a saída é pouco provável neste momento.
“Eu próprio disse, em termos de análise, que achava que havia aqui uma tentativa de levar o Jorge Jesus ao limite para que ele tomasse, ele próprio, a posição de se demitir”, explicou, reconhecendo que “é muito difícil que isso venha a acontecer”.
Sandra Felgueiras coloca hipótese de entendimento
A apresentadora questionou uma análise que considerou demasiado “preto e branco” e colocou em cima da mesa a possibilidade de uma “Cimeira da Paz”, com Pedro Proença “a exercer o seu ministério de influência” e a participação de figuras próximas do capitão, como Bruno Fernandes.
Rui Santos respondeu que gostaria de ver uma solução que permitisse a Ronaldo terminar o percurso internacional em boas condições.
“O que eu adorava é que se criassem as condições para o Cristiano Ronaldo regressar à seleção, ter a sua despedida em grande e em glória. Defendi isso para o Campeonato do Mundo, como tu sabes. E, portanto, essa é a minha posição.”
Ainda assim, manifestou dúvidas sobre a possibilidade de Jorge Jesus aceitar limitações à sua liderança.
“No plano meramente da liderança de um treinador que eu conheço há muitos anos, desde que ele começou a treinar no Amora, eu não estou a ver que ele abdique do princípio fundamental, que é naturalmente deixar de gerir a seleção como quer.”
“Os dois tiveram os seus excessos”
Rui Santos destacou o rendimento da equipa, considerando que Portugal “joga futebol”, está “absolutamente competitiva” e apresenta uma qualidade “compatível com aquilo que é o valor de cada jogador”.
O comentador procurou também separar o reconhecimento do percurso de Ronaldo da avaliação ao trabalho de Jesus.
“Cristiano Ronaldo, sim. Cristiano Ronaldo, lenda. Cristiano Ronaldo merece todo o apreço dos portugueses. Não obstante, Jorge Jesus, grande treinador, grande líder.”
Na sua leitura, “os dois tiveram os seus excessos”.
“O Cristiano Ronaldo já confessou os seus excessos. O Jorge Jesus foi confessante também os seus excessos”, afirmou.
Sobre a forma como o capitão tornou pública a sua versão dos acontecimentos, concluiu que “não ajuda nada, absolutamente nada” à resolução do conflito.
As declarações de Jesus que antecederam a saída do estágio
O comunicado de Ronaldo voltou a colocar em discussão a conferência de imprensa em que Jorge Jesus reafirmou a sua autoridade sobre as opções da equipa.
Nessa ocasião, o selecionador rejeitou que o avançado se tivesse recusado a treinar: “O Ronaldo não se recusou a treinar. Isso era impossível. Hoje vai treinar.”
Sobre a utilização dos jogadores diante da Dinamarca, explicou:
“Em princípio, é o Gonçalo Ramos que vai jogar. O Ronaldo não sei se entrar ou não. Não sei o que vai acontecer amanhã [quinta-feira] no jogo. Se eu precisar, ele entra, se eu não precisar, ele não entra. O estatuto não dá direito para que os jogadores sejam diferenciados dos outros. O estatuto é o respeito pela carreira deles. Coloco sempre a questão, o plano que traçar com o jogador, mas quem decide sou eu. Eles sabem disso. Quem trabalhou comigo, eles sabem, toda a gente sabe, até os presidentes sabem. No clube manda o presidente, na equipa mando eu. Com os jogadores é igual.”
Foi depois dessa conferência que Ronaldo deixou o estágio. Na primeira reação ao comunicado em que o capitão explicou a decisão, Jesus remeteu qualquer comentário para depois da leitura do texto.
