Katy Perry incendeia o Rock in Rio Lisboa com pop, humor, raízes açorianas e um final em catarse

Katy Perry incendeia o Rock in Rio Lisboa com pop, humor, raízes açorianas e um final em catarse, com o público em delírio.

Fotografias: Carlos Pedroso

O Parque Tejo já esperava. E esperava muito.

Katy Perry entrou alguns minutos depois da hora marcada, este sábado, 20 de junho, mas não deixou que o atraso pesasse no ambiente. Antes de aparecer, transformou a demora em espetáculo. Num ecrã gigante, surgiu uma história em formato de redes sociais, com a cantora a correr para o concerto enquanto recebia notificações a avisar que estava atrasada.

O público percebeu a brincadeira. E respondeu com aplausos.

Pouco depois, “California Gurls” rebentou no recinto e confirmou o que já se adivinhava: o primeiro Dia Pop do Rock in Rio Lisboa tinha guardado para o fim uma das suas atuações mais aguardadas.

A partir daí, o Parque Tejo entrou em modo coro. Milhares cantaram, saltaram e acompanharam uma artista que regressou a Portugal oito anos depois da última passagem pelo país.

Uma estrela pop sem medo do excesso

Katy Perry apareceu em palco vestida apenas com uma camisa oversized, meias altas e collants. À volta, bailarinos com figurinos extravagantes ajudavam a compor uma produção visual irreverente, futurista e assumidamente teatral.

Havia humor. Existia coreografia. Havia imagens de grande escala. Havia também aquele lado de fantasia pop que sempre acompanhou a cantora norte-americana.

Depois de “California Gurls”, a sequência foi direta ao coração da memória coletiva. “Teenage Dream” e “Last Friday Night (TGIF)” fizeram o recinto cantar como se o concerto tivesse virado uma gigantesca sessão de karaoke.

Katy percebeu o volume da resposta e brincou com a dimensão do momento: “Meu Deus, isto é tão alto. Foi um olá de 90 mil pessoas”.

Logo depois, puxou a ligação familiar a Portugal para dentro do espetáculo: “Tenho de dizer olá à minha família portuguesa. O meu trisavô é de Ponta Delgada. Eu sou de São Miguel. Há aqui alguém de São Miguel? Onde estão os meus primos? Devem estar a pensar: quem é esta maluca no palco? Eu sou a Katy Perry.”

A referência não surgiu isolada. A cantora, cujo verdadeiro nome é Katheryn Elizabeth Hudson, tem falado ao longo dos anos das suas raízes açorianas. Em Lisboa, voltou a fazê-lo perante um recinto praticamente lotado.

E continuou, já com a plateia totalmente conquistada: “Estou tão feliz por estar aqui porque nunca toquei para tanta gente. Sei que trabalham muito e poupam dinheiro para me ver. Obrigada por gastarem o vosso dinheiro. Agora estamos de férias. Estamos ‘Out of Office’”.

Astronautas, praia e uma bandeira portuguesa na Lua

O concerto não ficou preso à nostalgia inicial.

Com “CTTR & NRO (Remix)”, a atuação entrou numa zona mais eletrónica e preparou um dos momentos visuais mais trabalhados da noite. Em “Space Odyssey”, elementos da banda surgiram vestidos de astronautas, enquanto Katy Perry levou a encenação para o território da ficção espacial.

Mesmo aí, encontrou forma de aproximar a fantasia de Portugal: “Toda a gente que se muda para Portugal quer estar na praia. Muitas pessoas querem ir ao espaço, mas à maior parte falta coragem.”

Pouco depois, os astronautas colocaram uma bandeira portuguesa no topo da estrutura do palco, numa simulação de chegada à Lua. A resposta foi imediata. O Parque Tejo explodiu em aplausos.

A cena serviu de rampa para “Dark Horse”, um dos pontos mais fortes dessa fase do espetáculo. Seguiram-se “E.T.” e “Part of Me”, com a cantora sempre em movimento, entre dança, interação e uma energia que parecia não ter desgaste.

A popstar que sabe rir de si própria

Katy Perry nunca separou completamente espetáculo e caricatura. Em Lisboa, voltou a usar essa linguagem como arma.

Entre canções, deixou uma declaração que resume bem o tom da noite: “Sei que alguns amigos vossos já disseram que eu sou maluca. Às vezes faço coisas malucas. Mas também toco todos os hits”.

Depois, levou a frase para uma afirmação mais directa: “Não podemos levar a vida demasiado a sério. Às vezes é enervante e aborrecida. Estou aqui para ser eu própria, inteira, inteligente e sexy. Mulheres, conseguimos ser as duas coisas.”

“I’m His, He’s Mine” e “Bon Appétit” voltaram a aquecer o recinto. Pelo meio, a artista brincou com os fãs através dos ecrãs gigantes, escolhendo espectadores aleatórios para uma espécie de jogo de paparazzi improvisado.

Mesmo nas músicas mais recentes, como “Bandaids”, “Watch It Burn” e “Heads Will Roll”, o concerto manteve ligação com a plateia. Katy trocou de figurino, mudou ambientes visuais e continuou a alimentar a sensação de espetáculo total.

A certa altura, resumiu o que estava a viver: “Eu acho que este espetáculo está a ser lendário. É por isso que continuo a dar concertos. Adoro isto”.

A memória também cantou alto

Quando “The One That Got Away” chegou, a euforia mudou de lugar. Continuou grande, mas entrou numa zona mais nostálgica.

Pouco depois, antes de “Thinking of You”, Katy Perry abriu uma porta pessoal no meio da máquina pop: “Escrevi esta canção há quase 18 anos. Lembro-me de estar num hotel em Los Angeles, sem lençóis, depois de terminar com o meu namorado. Achava que precisava de alguém”.

A reação do público foi imediata. Assim que percebeu qual seria a canção seguinte, o Parque Tejo respondeu com gritos de entusiasmo.

A pausa sentimental, porém, durou pouco. “Hot N Cold” devolveu o concerto à festa, com Katy a percorrer a frente do palco e a apontar o microfone à multidão.

Logo depois, “I Kissed a Girl” trouxe a canção que a lançou para a fama mundial em 2008. Mais uma vez, o público cantou em força, palavra por palavra.

Quase duas décadas depois do início da explosão global da sua carreira, Katy Perry continuava a ter o recinto na mão.

O rugido que voltou em Lisboa

A recta final guardou alguns dos momentos mais esperados da noite.

“Harleys in Hawaii” manteve o ambiente descontraído e romântico. Depois, “Wide Awake” voltou a unir o recinto num enorme coro, já com mais de 90 minutos de concerto.

Antes do derradeiro momento, Katy parou para falar diretamente com os fãs. E ligou o presente ao último concerto em Lisboa: “Usei este outfit há oito anos, em Lisboa. Obrigada por terem estado comigo. Obrigada, KittyCats”.

A seguir, o tom mudou. A cantora de 41 anos deixou cair uma confissão mais vulnerável: “Por vezes não consegues rugir. E as coisas que as pessoas dizem sobre ti magoam porque não somos robôs. Por isso temos de ser simpáticos, porque nunca sabemos o que alguém está a passar. Houve momentos em que perdi o meu roar.”

A frase abriu caminho para uma versão diferente de “Roar”. Antes de cantar, Katy Perry explicou o sentido daquele momento: “Na próxima semana vou lançar uma nova música e acho que o meu roar está de volta. Por isso vou cantar ‘Roar’ para vocês mais uma vez, mas de uma maneira diferente.”

Sem bailarinos, sem coreografias e sem a muralha visual que tinha marcado grande parte da noite, “Roar” surgiu apenas com piano. O Parque Tejo escutou os versos em silêncio e voltou a cantar nos refrões.

Era o instante mais despido da atuação. E talvez por isso tenha ficado tão forte.

Depois, como a noite pedia despedida em grande, Katy Perry regressou para o encore com “Firework”. O clássico de 2010 transformou o fim do concerto numa celebração coletiva.

O atraso inicial já pertencia a outra história. No final, o que ficou foi uma noite de pop em escala máxima, com humor, raízes portuguesas, catarse e uma artista que fez do Parque Tejo uma explosão até ao último refrão.

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