Luís Osório elogia Jorge Fernando: “um homem que é muito mais do que a maioria dos portugueses reconhece”, considerou.
O jornalista e escritor Luís Osório elogiou Jorge Fernando, através da sua rubrica ‘Postal do Dia’.
Foto: Nuno Almeida
Nesse sentido, destacou a vida e obra do artista, num texto profundamente bonito.
Eis o Postal do Dia:
“O Jorge Fernando não se pode dar ao luxo de morrer
1.
Apanhei hoje um táxi e estava na Rádio Amália.
Ouvi Jorge Fernando a acompanhar a diva à guitarra e voltei a pensar no susto que deve ter apanhado o ano passado.
É que uma operação ao coração é uma operação ao coração.
Correu bem, mas podia não ter corrido, podia não ter resistido, podia não ter chegado a tempo ao hospital, podia ter protelado mais um pouco e deixado para amanhã, felizmente não o fez.
O Jorge Fernando foi operado ao coração e podíamos ter-nos despedido de um homem que é muito mais do que a maioria dos portugueses reconhece – quase apostaria.
2.
Conheci-o em casa de Amália Rodrigues.
Eu pela mão do meu pai – adolescente, introvertido e curioso do mundo – e ele a acompanhá-la numa guitarra a quem castigava com o seu talento.
O Jorge tem agora 67 anos, deveria andar pelos trinta quando o vi no sofá da casa de Amália. Estavam muitas pessoas, estavam sempre muitas pessoas e ele, pelo menos na memória que tenho, não fazia qualquer cerimónia, era família.
Foi sempre um dos preferidos de Amália, ela gostava de o ter ao pé.
E de o ouvir.
O Jorge era e é um homem bonito.
E um comunicador.
A vida não lhe tinha sido fácil.
Nascera no Casal Ventoso, primeiro bairro de Lisboa onde entrou a droga.
O Jorge Fernando é bem capaz de ter conhecido o mítico Dragão que a polícia matou numa rusga falada durante muitos anos.
Viu tudo, fez amizades, mas seguiu sempre o seu caminho.
Às vezes com vergonha de dizer de onde vinha.
Às vezes a chorar às escondidas por os meninos não brincarem consigo.
Cresceu sem o pai que emigrou para França e depois para o Brasil. Era camionista e um dia partiu para não mais regressar.
A sua guitarra salvou-o.
E o fado também.
Nasceu com Lisboa dentro de si – abria a boca e parecia que a sua voz era a voz dos bairros, a voz de uma madrugada em extinção.
3.
O Jorge Fernando foi o ano passado operado ao coração.
Felizmente correu bem, mas se tivesse corrido mal talvez perdêssemos a oportunidade de o conhecer melhor, de o ouvir com outro modo de escutar.
Porque vale a pena escutá-lo.
É um sedutor e ao sê-lo talvez nos distraia do resto, do seu talento e da sua guitarra, da facilidade com que inventa letras e músicas, do sentido de humor, daquele Festival da Canção onde perdeu ganhando – quem não se lembra de “Umbadá”?
Sem ele talvez o extraordinário talento da Ana Moura não tivesse sido do conhecimento do país.
E se falo da Ana poderia falar de outras e de outros que foram tocados pelo seu modo de ver o fado, de sentir a música, de compor e aconselhar.
4.
O seu coração traiu-o, mas conseguiu recompor-se e voltar ao mundo.
Tem uma filha pequenina que o ajuda a ver o futuro, que o obriga a ver o futuro, não há outra forma possível.
O Jorge Fernando não se pode dar ao luxo de morrer com uma bebé de dois anos nos braços.
Ela precisa que ele continue.
E que um dia lhe conte do jeito que tinha para a bola, da primeira vez que cantou o fado, da amizade com o Fernando Maurício, o rei dos reis do fado, das vielas que conhece de cor, das canções que ainda não compôs e dos sonhos que ainda não sonhou.
Ele é o último símbolo de uma Lisboa que já não existe.
A Lisboa da Igreja de Santo Estevão, a Lisboa do fado vadio e dos “pintas”, a Lisboa dos marialvas e da voz rouca, do penalty de vinho tinto, do café com cheirinho, do pastelinho de bacalhau.
O Jorge Fernando não pode morrer porque se isso acontecesse essa Lisboa deixaria de amanhecer.
LO”
