Marcos Bastinhas abre o coração em Elvas após ano de paragem: “Foi uma viagem de autoconhecimento”, disse-nos.
Entrevista e Texto: Rui Lavrador
Vídeo: Nuno Almeida
Fotografia: Diogo Nora
No final de 2025, Marcos Bastinhas recebeu-nos em sua casa, em Elvas, para uma das entrevistas mais íntimas do seu percurso. Depois de um ano marcado pela suspensão da temporada tauromáquica, motivada por uma depressão, o cavaleiro falou sem reservas sobre o homem que hoje é.
Desde logo, Bastinhas descreve esta fase como transformadora. “Tem sido uma fase positiva, tem sido uma fase evolutiva em que me tenho vindo a descobrir”, confessou. Para si, esta paragem representou uma viagem interior feita de novos caminhos e descobertas pessoais.

A pausa que trouxe consciência e novas prioridades
Por outro lado, o cavaleiro reconhece que o afastamento das praças lhe permitiu olhar para si com mais atenção. “Esta paragem fez-me pensar em mim, fez-me ver a desvendar coisas que eu não sabia”, afirmou, sublinhando que o processo ainda está em andamento.
Entretanto, hábitos simples ganharam um novo significado. A leitura, praticamente ausente no passado, tornou-se um refúgio. “Ultimamente tenho lido muito e tenho-me ajudado também muito”, explicou, valorizando o contacto com outras almas através dos livros.
Além disso, Marcos Bastinhas descobriu prazeres que antes passavam despercebidos. “Ler um livro na rua, coisas tão simples, mas que podem ser tão tranquilizantes”, revelou, reconhecendo que o tempo em família passou a ocupar um lugar central.

A mente, a exigência e o peso do sucesso
Ao falar do lado mental da carreira, o cavaleiro foi direto. “Na nossa mente é difícil de controlar, às vezes, aí fica uma grande confusão”, disse, lembrando a pressão constante de ter de triunfar. Para Bastinhas, a exigência excessiva afastou-o do essencial.
Nesse sentido, deixou uma reflexão profunda. “A felicidade não é uma coisa que se alcança finalmente”, explicou. Para si, a verdadeira felicidade está nos momentos vividos ao longo do caminho, e não apenas no resultado final.

A decisão de parar já estava tomada
Questionado sobre a última corrida, realizada a 11 de julho, Marcos Bastinhas admitiu que a decisão de parar já estava latente. “Penso que no meu interior, penso que estava tomada”, confessou, referindo um acumular de emoções difíceis.
Ainda assim, assumir essa escolha foi duro. “Foi difícil, foi duro”, recordou. No entanto, o alívio chegou rapidamente. “Senti-me com o respirar diferente”, explicou, consciente de que continuar poderia agravar a situação.

A terra, os cavalos e o silêncio do Alentejo
Longe das arenas, Bastinhas mantém uma ligação diária à agricultura. “Estou todos os dias ligado ao campo permanentemente”, disse, referindo a herança familiar que atravessa gerações. O campo, para si, é também cura.
Por outro lado, andar de trator no meio do Alentejo tornou-se um momento de paz. “É muito tranquilizante e é muito apaziguador”, afirmou, destacando o poder do silêncio e da natureza.

Família, amor e estabilidade emocional
No plano pessoal, o cavaleiro destacou o papel fundamental da companheira, Dália Madruga. “A Dália tem sido um pilar muito grande na minha vida”, afirmou, reconhecendo o impacto emocional e familiar da relação.
Sobre o percurso conjunto, não escondeu a emoção. “Conseguiu ser a outra metade de mim que me faltava”, disse, sublinhando a estabilidade que encontrou em casa e que se reflete nos filhos.

A memória, os afetos e o tempo que passa depressa
A proximidade do Natal trouxe também reflexões sobre a perda do pai e do avô. Ainda assim, Bastinhas prefere olhar com serenidade. “Recordar esses dias com saudade, mas com alguma alegria”, explicou, destacando a importância de transmitir memórias aos filhos.
Hoje, mais consciente da fragilidade da vida, admite uma mudança profunda. “Temos de dizer a estes nossos o quanto gostamos e o quanto são importantes para nós”, afirmou, defendendo uma vivência mais humana e presente.

Um homem diferente, mas mais inteiro
No final da conversa, ficou clara uma certeza. Marcos Bastinhas não regressa igual. A pausa, dolorosa, trouxe-lhe clareza, empatia e uma nova forma de estar. Longe do cavalo ou dentro da arena, o cavaleiro segue agora com mais verdade, mais calma e uma humanidade ainda mais visível.
A primeira parte da entrevista pode ser vista e ouvida na íntegra no vídeo abaixo:





