Miguel Lunet: em “Rapaz da Geração Z”, o humor também sabe escrever canções

Há sempre alguém numa festa que parece ter comprado o direito de ser o centro das atenções. Tem a melhor história, o melhor argumento, a melhor versão de si próprio e uma disponibilidade inesgotável para a apresentar aos restantes. Encontrar uma figura destas numa canção pode ser bastante mais agradável do que passar uma noite a ouvi-la. Miguel Lunet percebe o potencial musical deste pequeno teatro social e, em “Rapaz da Geração Z”, encontra nele matéria para um disco com graça e personalidade.

“Bom” é uma das minhas preferências neste trabalho, precisamente pela forma como transforma a exibição pessoal numa personagem. A outra é “Vilão”, que se aproxima de um território diferente, mas igualmente fértil: a simpatia que podemos sentir por quem, em princípio, nos ensinaram a condenar. Entre a vontade de parecer extraordinário e a possibilidade de reconhecer alguma coisa nossa no lado menos recomendável de uma história, há bastante espaço para escrever canções.

Miguel Lunet aproveita-o com um humor criativo que constitui um dos principais atrativos deste EP. Gosto dessa disponibilidade para observar comportamentos, exagerar-lhes os contornos e dar-lhes uma existência musical. Há aqui uma construção interessante, fora do mais previsível, que merece atenção para lá da primeira graça.

A companhia pouco recomendável de “Vilão”

Os vilões têm uma vantagem narrativa considerável: raramente precisam de parecer exemplares. Podem ser contraditórios, excessivos, desagradáveis e, ainda assim, despertar uma curiosidade que os heróis nem sempre conseguem igualar. “Vilão” parte dessa atração e abre espaço a uma leitura menos arrumada das nossas simpatias.

É uma ideia que me interessa. Todos gostamos de nos imaginar do lado certo, mas a ficção tem o hábito inconveniente de baralhar essas certezas. Podemos reprovar uma personagem e querer continuar a segui-la, reconhecer-lhe uma fragilidade ou descobrir que compreendemos um impulso que preferíamos considerar inteiramente alheio.

- Publicidade -

A canção ganha com essa margem de ambiguidade. O humor permite aproximar o assunto sem o tornar pesado e deixa ao ouvinte espaço para se reconhecer, ou para fingir que não tem nada a ver com aquilo. Também faz parte da diversão.

Entre os temas de “Rapaz da Geração Z”, “Vilão” destaca-se para mim pela força da premissa e pelas possibilidades que ela oferece. Há uma boa intuição de escrita nesta escolha: procurar uma perspetiva capaz de sustentar a canção e de continuar a interessar depois de compreendida a ideia inicial.

“Bom” e o talento de se achar irresistível

Em “Bom”, o campo de observação é outro. A figura do homem convencido da sua importância presta-se à caricatura porque já traz consigo quase todo o trabalho feito. Basta deixá-lo falar durante tempo suficiente.

Miguel Lunet encontra graça nessa segurança ostensiva, nesse entusiasmo com a própria pessoa que dispensa qualquer confirmação dos outros. A personagem interessa pelo que revela sem necessariamente perceber que o está a revelar. Quem tanto se esforça por impressionar acaba, muitas vezes, por mostrar mais do que pretendia.

É esse mecanismo que torna a canção uma das minhas favoritas. Há um prazer particular em reconhecer um comportamento através do exagero, sobretudo quando a caricatura conserva alguma proximidade com a vida real. Todos conhecemos alguém assim. E talvez seja prudente admitir que, numa ou noutra ocasião, também já tenhamos contribuído para o repertório.

O humor funciona melhor quando permite essa pequena dúvida. Se servir apenas para apontar o dedo a uma figura distante, a graça esgota-se depressa. Quando nos deixa perguntar até que ponto também fazemos parte da cena, ganha outra duração.

“Bom” e “Vilão” são, por isso, duas boas portas de entrada neste trabalho: uma olha para a imagem que se procura vender aos outros; a outra mexe com as afinidades que nem sempre gostamos de admitir.

Cinco canções com espaço para a imaginação

A construção do EP é outro dos aspetos que valorizo. “Rapaz da Geração Z” reúne cinco temas e consegue fazer dessa dimensão curta um espaço de variedade. “Amor de longe”, a canção que dá título ao trabalho e “Julieta” completam um alinhamento que passa pelas relações, pelos hábitos contemporâneos e por referências narrativas reconhecíveis.

Há uma atenção à ideia de cada canção que ajuda a dar interesse ao conjunto. O disco permite mudar de situação e de personagem, mantendo a curiosidade sobre o olhar de quem escreve. Essa é uma qualidade importante num trabalho desta natureza: sentir que existe imaginação para encontrar diferentes maneiras de contar.

O humor contribui para essa unidade, mas seria redutor tratá-lo como o único assunto. Interessa-me sobretudo a forma como participa na escrita, como permite caracterizar alguém, introduzir uma contradição ou tornar mais evidente um comportamento que, fora da canção, talvez passasse sem grande reflexão.

Também por isso, a expressão “fora da caixa” faz aqui sentido. A originalidade que encontro no trabalho está na escolha das perspetivas e na maneira de construir pequenas situações com potencial musical. Há curiosidade, vontade de experimentar e gosto pela narrativa.

Levar a graça a sério

Existe alguma tendência para conceder mais importância artística à solenidade. Uma canção carregada de sofrimento parece chegar à discussão com credenciais que uma canção bem-humorada ainda tem de conquistar. Nunca achei esse critério particularmente justo.

Escrever com graça exige perceber o que mostrar, o que exagerar e aquilo que deve ficar por dizer. Exige também evitar que uma boa ideia se transforme numa piada demasiado explicada. O humor tem trabalho por trás, mesmo quando o resultado parece descontraído.

É essa dimensão que me interessa destacar em Miguel Lunet. “Rapaz da Geração Z” tem uma construção que resulta, encontra personalidade nas suas histórias e faz da criatividade um motivo para acompanhar o seu autor. “Vilão” e “Bom” são os temas que prefiro, mas ajudam igualmente a perceber o interesse do conjunto.

Fico com a curiosidade de saber que outras personagens poderá trazer para as próximas canções. A matéria-prima não deverá faltar: basta entrar numa festa e esperar que alguém comece a explicar como é extraordinário.

- Publicidade -

Destaques

Monda: “Talvez Amanhã” e a liberdade de fazer música sem obedecer aos algoritmos

Gosto dos Monda desde o primeiro disco. A ligação...

Rui Veloso emociona o Sagres Campo Pequeno com «Porto Sentido» e homenagens a João Gil e Luís Represas

Rui Veloso levou o Sagres Campo Pequeno numa viagem...

Benfica goleia Celtic ao som de Duran Duran: bis de Jhon dá o tom na Luz

Benfica goleia Celtic ao som de Duran Duran: bis...

Expresso Transatlântico: “Nunca pensamos em público quando estamos a compor”

Expresso Transatlântico: “Nunca pensamos em público quando estamos a...
- Publicidade -

Reportagens

- Publicidade -

Artigos relacionados