Segunda-feira, Junho 14, 2021

O mal estar na civilização

O mal estar na civilização

O mal estar na civilização, um artigo de opinião por Raul Tartarotti.

A humanidade bate recordes por vezes diários, outras não tão rápido assim. Porém, é atraente sabermos que o infinito está distante, e quando chegamos mais perto dessas oportunidades raras, nos alimentamos desses eventos para reforçar nosso entusiasmo em respirar por mais um ciclo de três segundos.

Construímos nossa vida no abraço de nossos entes queridos, muitos idosos, que estavam aqui bem antes de nós, e aprendemos como a força dessa gente se propagou. Pelo DNA, pelo olhar, pelos gestos que repetimos frequentemente, e que seguirão na memória durante nossos dias mais frios. Somos a obra dos antepassados, o melhor que puderam nos oferecer, e que estarão sempre em nossos pensamentos.

Com muita certeza, nem uma pandemia conseguirá apagar. Porém, não esperávamos o dia de algum final, que tivéssemos por encerrar as emoções vividas com carinho e afeto, dessa gente que se foi abruptamente. Mas no Brasil, nosso novo recorde está no cemitério. Mais de 460 mil mortes seguiram na frente. Estamos mais vazios, menos felizes e a sós.

Choramos mais e o medo é frequente a cada esquina. Lá fora os inconsequentes negacionistas, seguem fazendo reuniões em grupo, baladas clandestinas e festas particulares. Enquanto isso na central de vagas de UTI, são selecionados os pacientes que ficam esperando leitos, e os que podem ser internados.

Os fiscais da saúde, fazem “a escolha de Sofia” em suas telas de computador. Em um ano, o número de pacientes que cada fiscal seleciona, subiu de 30 para 200 por dia. Novo recorde. Parece que muitos pensam que Deus não existe, e como Dostoiévski escreveu no livro “Os Irmãos karamazov”, através de seu personagem Ivan, “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, e por isso as baladas e festas clandestinas seguem ocorrendo em todos andares de nossa cidade, inclusive nos subsolos escuros com luzes piscantes e bebidas inebriantes para farto deleite de seus frequentadores.

Aqueles jovens, buscando novos desafios, querem ultrapassar limites ainda não atingidos, e acabam encontrando a peste pra levar pra casa, já é um limite extraordinário. “A vida é sua, estrague-a como quiser” (Antônio Abujanra).

E chegando no Brasil, a pandemia se somou a um cenário de desassistência pública em saúde mental, o que tornou a busca por soluções mais árduas. “O mal estar na civilização” moderna, apareceu em todos países, com forma e intensidade diferentes, porém ocorreram as mesmas mortes prematuras, quase anunciadas. Sigmund Freud escreveu um livro com esse título em 1929. Sua tese sobre o incômodo dos problemas emocionais, levaram milhares de pessoas a se apoiarem na religiosidade, e todos saíram vivos.

A regra básica sempre foi procurar uma forma de escapar á crítica alheia sendo muito educado, vigiando o tempo todo o próprio temperamento, pra não deixar escapar nada que pudesse ser julgado pelo outro. É como perder o tempo das coisas, o momento que se deve semear, ao invés de preocupar-se com o que o outro vai pensar.

Tente bater seu recorde de oportunidades oferecidas, ao invés de cultivar o silêncio longo, obtuso e ineficaz, similar ao antigo morbus sacer, que diminuía todas faculdades mentais.

Raul Tartarotti
Raul Antônio Tartarotti, brasileiro, gaúcho de Porto Alegre - Eng. Biomédico, cronista semanal de jornais no Brasil e exterior. Estudou literatura Russa, clássicos europeus e brasileiros. Os seus textos são de cunho filosófico e social, com objetivo de trazer reflexão ao leitor sobre temas do cotidiano.

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