Pedro Chagas Freitas dirigiu um apelo a quem pode intervir na crise da habitação, pedindo que a atenção se concentre nas causas que levam as pessoas a protestar. Numa carta publicada no Facebook, o escritor falou do medo que sente pelo futuro do filho e deixou uma pergunta: “Onde vai morar quem não é rico?”
A publicação, apresentada como uma “Carta a quem pode ter influência na pandemia da falta de habitação”, abordou as dificuldades de acesso a uma casa a partir da preocupação de um pai. “Escrevo em nome do meu filho”, começou por explicar.
Um dos pedidos mais diretos surgiu quando Pedro Chagas Freitas se referiu às pessoas que estão na rua a manifestar-se: “Por favor, não pensem em dar cabo de quem está na rua a protestar; pensem em dar cabo do que faz com que muitos só possam ter a rua para estar.”
“Esta não é uma luta entre lados, entre correntes, entre partidos”
Ao longo da carta, o escritor rejeitou que o problema da habitação seja reduzido a uma disputa partidária. Antes disso, confessou o receio que lhe provocam a violência e a possibilidade de um agravamento dos conflitos.
“Estou assustado. Não quero guerras, odeio guerras, conflitos, ofensas. A violência faz-me chorar. Desde sempre. Fico em pânico com a violência. Mas tenho de escrever em nome do meu filho. Quem será ele com esta escalada?”, escreveu no Facebook.
Depois de questionar onde poderão viver aqueles que não são ricos, Pedro Chagas Freitas pediu uma resposta assente na compreensão das dificuldades dos outros.
“Esta não é uma luta entre lados, entre correntes, entre partidos, entre ideologias. Somos todos pessoas, porra. Temos todos pessoas que amamos, pessoas que podem um dia ser estas pessoas que não têm como pagar o mais mínimo dos mínimos. Estou-me nas tintas para a arena política; quero é atirar-me inteiro para a arena humana, para a arena onde todos disparamos abraços, empatia, compreensão, uma real percepção do que o outro pode estar a sofrer com isto tudo.”
A quem tem poder para agir, deixou ainda uma exigência: “Deixem-se da vaidade do poder; pratiquem a grandeza do poder.”
O medo pelo filho: “Quero salvá-lo, protegê-lo da porcaria”
A preocupação com o futuro do filho atravessou a mensagem. Pedro Chagas Freitas associou a capacidade de ajudar à defesa da dignidade humana e explicou como essa inquietação o atinge enquanto pai.
“É tão lindo usar o que podemos usar para ajudar quem podemos ajudar. É a batalha primária do humano: a dignidade. Quando penso em tudo o que pode vir deste lamaçal em que lentamente nos estamos a deixar cair, sofro tanto ao imaginar o meu filho lá no meio dele. Quero salvá-lo, protegê-lo da porcaria.”
Logo depois, acrescentou: “Não consigo.”
O escritor desenvolveu esse sentimento numa reflexão sobre a paternidade e sobre os limites da proteção que consegue dar ao filho.
“A pior parte da paternidade é também a melhor: amarmos alguém acima de nós mesmos, sermos de alguém mais do que nós mesmos. O sofrimento dele é maior em mim do que o meu, e não sei o que fazer senão pedir a quem pode fazer alguma coisa para olhar para isto, para sentir isto.”
Após pedir que os manifestantes não sejam tratados como o problema, Pedro Chagas Freitas encerrou a carta com um apelo à entreajuda: “Temos de salvar uns aos outros, não há outra maneira de nos salvarmos se não nos salvarmos uns aos outros.”
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