Pedro Chagas Freitas reflete sobre a morte do pai: «Quando morre uma pessoa, morre um idioma com ela», afirmou.
Pedro Chagas Freitas voltou a escrever sobre o luto e sobre a ausência deixada pela morte do pai. Desta vez, o autor partiu da linguagem construída entre os dois para explicar uma perda que vai muito além das palavras.
Numa reflexão partilhada nas redes sociais, o escritor falou das expressões, perguntas e formas de tratamento que pertenciam exclusivamente à relação que mantinha com o pai.
As palavras que deixaram de ter destinatário
A consciência surgiu num momento inesperado. Pedro Chagas Freitas percebeu que existem palavras que deixou de pronunciar porque apenas faziam sentido dentro daquela ligação familiar.
«Quando morre uma pessoa, morre um idioma com ela. Ontem dei por mim a perceber isso: há palavras que já não digo. Pertenciam ao meu pai. Havia expressões que só existiam entre nós, maneiras de perguntar, maneiras de chamar um pelo outro, pequenas construções da linguagem.»
Eram formas de comunicação criadas ao longo de uma vida. Não precisavam de ser explicadas a mais ninguém, porque o significado estava guardado na relação entre ambos.
«Eram nossas: eram nós.»
A partir dessa memória, o autor alargou a reflexão às diferentes relações humanas. Para Pedro Chagas Freitas, cada vínculo afetivo acaba por desenvolver uma linguagem própria, reconhecida apenas por quem a partilha.
«Cada relação fabrica um dialecto clandestino»
O escritor considera que o amor não se limita a utilizar uma língua já existente. Pelo contrário, adapta-a, transforma-a e cria significados que dependem de gestos, olhares e histórias comuns.
«Passamos a vida a aprender uma língua comum, e o amor inventa outra. Cada relação fabrica um dialecto clandestino: há o dialecto dos casais, dos irmãos, dos amigos, dos pais, dos filhos. O amor não fala uma língua; fala uma versão privada dela.»
Fora de cada relação, determinadas palavras podem perder completamente o sentido. Aquilo que as tornava especiais não era apenas o som, mas tudo o que existia à sua volta.
«Fora daquela relação, há palavras que nem sequer fazem sentido. Ganham significado porque um olhar as acompanhava, porque havia uma história escondida dentro das sílabas.»
Contudo, a morte interrompe essa comunicação e leva consigo a única pessoa capaz de compreender plenamente aquele vocabulário.
«Quando essa história morre, desaparece a única pessoa que sabia falar aquele idioma. Nunca mais ninguém me chamará de certas maneiras, nunca mais poderei responder da maneira que respondia, há perguntas que nunca mais voltarão a ser feitas, há respostas que morreram antes de mim.»
Assim, a perda de alguém representa também o desaparecimento de códigos, hábitos e construções linguísticas que não poderão ser repetidos da mesma forma.
«A morte é a extinção de um vocabulário inteiro, de uma gramática particular.»
Pedro Chagas Freitas rejeita a ideia de que o tempo cura
Durante a reflexão, o autor também contrariou uma das frases mais repetidas perante o luto: a ideia de que o passar do tempo ajuda a ultrapassar a ausência.
«Dizem que o tempo ajuda.»
A resposta surgiu logo depois, sem procurar suavizar aquilo que sente desde a morte do pai.
«Não ajuda nada. Na melhor das hipóteses, ensina-nos a falar menos essa língua. Nunca a esquecemos.»
Para Pedro Chagas Freitas, essa linguagem continua guardada, mesmo quando já não pode ser usada numa conversa real.
«É o nosso latim privado: ninguém o fala, mas continua vivo debaixo de todas as outras línguas.»
Por vezes, as frases regressam de forma espontânea. No entanto, desaparecem imediatamente quando o escritor se recorda de que já não existe ninguém a quem possam ser dirigidas.
«Às vezes, apanho-me a pensar uma frase como a diria ao meu pai, e ela nasce inteira, perfeita, e morre logo a seguir por falta de destinatário. É uma dor estranha descobrir que uma frase pode ficar órfã.»
O luto como perda de uma parte de nós
No final, Pedro Chagas Freitas definiu o luto como a falta da versão de nós próprios que apenas existia junto da pessoa que morreu.
«Deve ser isso o luto: sentir falta da pessoa que éramos quando falávamos com quem morreu. Perdemos uma versão de nós.»
A língua construída com o pai ficou sem lugar físico e sem alguém com quem possa voltar a ser partilhada. Ainda assim, permanece como uma das memórias mais importantes do escritor.
«É uma língua sem país, sem bandeira. Continua a ser uma das minhas línguas favoritas. Dói-me tanto não ter com quem a falar.»
