Raul Minh’alma celebra 15 anos de carreira: «Fui de porta em porta colocar convites nas caixas de correio», destacou.
Antes dos livros vendidos aos milhares e de uma carreira consolidada, Raul Minh’alma distribuía convites às escondidas pelas caixas de correio da sua terra natal. Quinze anos depois da publicação do primeiro livro, o escritor recuperou uma história até agora desconhecida sobre os primeiros passos no mundo literário.
A efeméride assinalou-se esta quarta-feira, 12 de agosto, precisamente no dia em que o eclipse solar concentrou atenções em Portugal. Para Raul Minh’alma, porém, a data tinha um significado muito particular.
«Para uns hoje é o dia do eclipse, para outros é apenas uma quarta-feira, mas para mim é um pouco mais do que isso – faço 15 anos de carreira.»
Um primeiro livro que hoje olha com outros olhos
Foi a 12 de agosto de 2011 que Raul Minh’alma publicou o primeiro livro. Quinze anos depois, não tenta transformar essa obra naquilo que considera que ela não foi.
«Um livro que já não está à venda, e ainda bem, porque não é grande coisa, mas foi o meu primeiro livro e será sempre o meu primeiro livro.»
O escritor admite mesmo que quem encontre atualmente esse trabalho não deverá procurar ali o autor em que se viria a transformar.
«Não faço questão que o conheçam, mas podem lê-lo, desde que saibam que não vão encontrar o Raul Minh’alma nele. Vão sim encontrar um jovem de 17 e 18 anos que achava que tinha alguma coisa a dizer ao mundo.»
Raul recorda esse jovem como alguém que ainda estava a tentar encontrar o seu lugar e que acreditava que a vida lhe devia alguma coisa.
«Um rapaz que achava que o mundo lhe devia alguma coisa. Não devia nada. Nem naquela altura, nem hoje.»
Apesar da distância crítica com que hoje olha para o conteúdo, não diminui a importância daquele primeiro passo.
«Mesmo não sendo nada de especial, é um livro importante, talvez o mais importante. Por ser o primeiro. Por ser o que me abriu as portas a este mundo literário que se tornou a minha vida.»
Usou o cartão da faculdade para imprimir convites
Foi precisamente ao recordar o início da carreira que Raul Minh’alma decidiu revelar um episódio que nunca tinha contado.
Na altura, o universo de leitores era bastante diferente daquele que viria a conquistar nos anos seguintes.
«Naquela época, o meu universo de leitores ia pouco além dos meus amigos e das amigas da minha mãe.»
Sem uma grande estrutura de divulgação, encontrou uma solução para promover a apresentação do livro na terra natal: imprimir os próprios convites.
Só que o dinheiro utilizado tinha originalmente outro destino.
«Imprimi convites em papel, usando o plafond do meu cartão da faculdade que devia ser gasto em apontamentos.»
Depois veio a distribuição. E Raul Minh’alma confessa que a fez durante a noite por uma razão muito simples: tinha vergonha de ser visto.
«Durante a noite, porque tinha vergonha que alguém me visse, fui de porta em porta colocá-los nas caixas de correio.»
Uma recordação que o escritor revisita agora com humor: «Não havia elevadores na altura, tive mesmo de usar as escadas.»
«Tudo foi como tinha de ser»
A distância de 15 anos alterou também a forma como Raul Minh’alma olha para aquele rapaz que percorria prédios durante a noite na tentativa de levar pessoas à apresentação do primeiro livro.
«Agora, olhando para trás, sei que tudo foi como tinha de ser. E assim continuará. Na vossa companhia. Obrigado por isso.»
A celebração trouxe ainda uma novidade para os leitores. O escritor revelou que a coleção de livros que mostrou na publicação vai voltar a aumentar dentro de poucos meses.
«Esta coleção volta a crescer em outubro. Até breve!»
Quinze anos depois de imprimir convites com o plafond destinado aos apontamentos da faculdade, Raul Minh’alma assinala assim uma carreira que começou de forma quase artesanal e deixa já marcado o próximo capítulo para outubro.
