Salvaterra de Magos pela voz dos toureiros: entre a satisfação de Rouxinol Jr e a dureza assumida por Palha e Telles

Salvaterra de Magos pela voz dos toureiros: entre a satisfação de Rouxinol Jr e a dureza assumida por Palha e Telles, ao site Infocul.pt

Texto: Rui Lavrador
Entrevistas e Fotografia: Carlos Pedroso

𝗔 𝗣𝗥𝗔Ç𝗔 𝗘𝗦𝗩𝗔𝗭𝗜𝗔, 𝗠𝗔𝗦 𝗔 𝗖𝗢𝗥𝗥𝗜𝗗𝗔 𝗖𝗢𝗡𝗧𝗜𝗡𝗨𝗔 𝗡𝗔 𝗣𝗔𝗟𝗔𝗩𝗥𝗔

Há uma parte da corrida que não termina quando o último touro recolhe, quando o público deixa as bancadas ou quando a areia perde a marca das montadas. Essa parte começa depois, quando os toureiros descem da intensidade da arena e tentam traduzir em palavras aquilo que acabaram de viver.

Foi isso que aconteceu em Salvaterra de Magos, após a Corrida do Tomate.

Reportagem da corrida: Salvaterra de Magos: Rouxinol Jr triunfou na corrida do tomate

Depois de uma tarde de contrastes, com Luís Rouxinol Jr em evidência e Francisco Palha e António Ribeiro Telles a enfrentarem lotes mais duros, os três cavaleiros olharam para as suas atuações com leituras diferentes, mas unidas por uma ideia comum: em praça, cada touro exige uma resposta.

E quando o touro não permite triunfo, resta ao toureiro aquilo que nunca pode faltar: dar a cara.

Foi essa a expressão que mais ecoou no discurso de António Telles. Foi também esse o sentido que atravessou a análise de Francisco Palha. Já Luís Rouxinol Jr saiu de Salvaterra com outro semblante. Teve dois bons touros, sentiu-se toureiro e reconheceu que viveu uma tarde importante.

No fim, as entrevistas deram continuidade à corrida. Acrescentaram-lhe bastidores, pensamento e verdade.

𝗙𝗥𝗔𝗡𝗖𝗜𝗦𝗖𝗢 𝗣𝗔𝗟𝗛𝗔: 𝗨𝗠𝗔 𝗧𝗔𝗥𝗗𝗘 𝗗𝗘 𝗔𝗝𝗨𝗦𝗧𝗘 𝗘 𝗗𝗘 𝗘𝗦𝗙𝗢𝗥Ç𝗢

Francisco Palha não teve uma tarde fácil em Salvaterra. Os touros que lhe saíram em sorte obrigaram-no a procurar soluções e a moldar a lide ao comportamento de cada oponente.

Depois das duas atuações, o cavaleiro preferiu uma leitura serena. Não dramatizou as dificuldades. Também não as negou.

“𝗧𝗼𝗰𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮𝗺 𝗱𝗲 𝘁𝗼𝗰𝗮𝗿 𝗲 𝘁𝗼𝗱𝗼𝘀 𝗼𝘀 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼𝘀 𝘁ê𝗺 𝗱𝗲 𝘁𝗲𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲, 𝗺𝗮𝘀 𝗲𝘂 𝘃𝗼𝘂 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲. 𝗖𝗼𝗻𝘀𝗲𝗴𝘂𝗶 𝘁𝗲𝗿 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝘂𝗺 𝗻í𝘃𝗲𝗹 𝗯𝗼𝗺.”

A frase diz muito sobre a forma como Palha olhou para a sua passagem pela praça. Mais do que reclamar do lote, preferiu sublinhar a obrigação do toureiro. O touro sai, a lide tem de existir. Mesmo quando não oferece conforto. Mesmo quando obriga a corrigir, a adaptar e a insistir.

O cavaleiro destacou também a forma como foi procurando ajustar o seu toureio às características de cada animal.

“𝗘́ 𝗰𝗹𝗮𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗮𝘀 𝗱𝗶𝗳𝗶𝗰𝘂𝗹𝗱𝗮𝗱𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼, 𝗲𝗺 𝗿𝗲𝗴𝗶𝘀𝘁𝗼𝘀 𝗱𝗶𝗳𝗲𝗿𝗲𝗻𝘁𝗲𝘀, 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝗳𝘂𝗶 𝗺𝗼𝗹𝗱𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮 𝗶𝗻𝘃𝗲𝘀𝘁𝗶𝗱𝗮 𝗱𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗮 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗼. 𝗠𝗮𝘀 𝗮𝗰𝗵𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼𝘀 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗼𝘀 𝘁𝗶𝘃𝗲𝗿𝗮𝗺 𝗻𝘂𝗺 𝗻í𝘃𝗲𝗹 𝗯𝗼𝗺.”

A análise foi equilibrada. Palha reconheceu que houve matéria importante nas duas atuações, mesmo sem ter alcançado uma tarde de triunfo largo.

“𝗔𝗰𝗵𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗵𝗼𝘂𝘃𝗲 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗰𝗼𝗶𝘀𝗮𝘀 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗲𝗺 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝘂𝗺𝗮 𝗱𝗮𝘀 𝗮𝘁𝘂𝗮çõ𝗲𝘀 𝗲 𝘃𝗼𝘂 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲.”

Ficou, portanto, a imagem de um toureiro que saiu consciente da dureza, mas não diminuído por ela. Nem todas as tardes dão glória. Algumas dão ofício. E também isso conta.

𝗥𝗢𝗨𝗫𝗜𝗡𝗢𝗟 𝗝𝗥 𝗦𝗔𝗜𝗨 𝗗𝗘 𝗦𝗔𝗟𝗩𝗔𝗧𝗘𝗥𝗥𝗔 𝗖𝗢𝗠 𝗔 𝗧𝗔𝗥𝗗𝗘 𝗡𝗔 𝗠Ã𝗢

Luís Rouxinol Jr teve outro tipo de leitura. E tinha razões para isso. A sua tarde foi a mais alta da corrida e o próprio assumiu a satisfação.

“𝗢𝗹𝗵𝗮, 𝘀𝗮𝗶𝗼 𝗱𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲. 𝗙𝗼𝗶 𝘂𝗺𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗶𝘃𝗲 𝗱𝗼𝗶𝘀 𝗯𝗼𝗻𝘀 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼𝘀. 𝗗𝗼𝗶𝘀 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗽𝗿𝗮𝘁𝗶𝗰𝗮𝗿 𝗼 𝗺𝗲𝘂 𝘁𝗶𝗽𝗼 𝗱𝗲 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗼.”

A diferença começa logo aqui. Rouxinol Jr teve dois touros que lhe permitiram expressar a sua forma de estar em praça. E, quando isso acontece, o toureiro cresce. A técnica encontra espaço. A emoção ganha forma. A comunicação com a bancada deixa de ser esforço e passa a ser consequência.

Sobre a primeira lide, o cavaleiro destacou o comportamento do touro e a opção por uma construção mais clássica.

“𝗢 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼, 𝘂𝗺 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗮𝗹𝗲𝗴𝗿𝗲, 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗿𝗮𝗻𝘀𝗺𝗶𝘁𝗶𝗮 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 à𝘀 𝗯𝗮𝗻𝗰𝗮𝗱𝗮𝘀. 𝗢𝗽𝘁𝗲𝗶 𝗽𝗼𝗿 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲, 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝘀𝗲 𝗱𝗶𝘇 𝗷á à 𝗮𝗻𝘁𝗶𝗴𝗮, 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲 𝘀ó 𝗰𝗼𝗺 𝘂𝗺 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗼.”

Esse cavalo foi Picasso, uma montada nova na qual Rouxinol Jr se sentiu particularmente bem.

“𝗘𝘀𝘁𝗮𝘃𝗮-𝗺𝗲 𝗮 𝘀𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗯𝗲𝗺 𝗻𝘂𝗺 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗼 𝗻𝗼𝘃𝗼, 𝗾𝘂𝗲 é 𝗼 𝗣𝗶𝗰𝗮𝘀𝘀𝗼.”

A partir daí, a lide ganhou desenho. O cavaleiro falou de ferros, remates e momentos bem conseguidos.

“𝗣𝗲𝗻𝘀𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗼𝗶 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝗯𝗼𝗻𝘀 𝗺𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼𝘀, 𝗰𝗼𝗺 𝗯𝗼𝗻𝘀 𝗳𝗲𝗿𝗿𝗼𝘀, 𝗳𝗲𝗿𝗿𝗼𝘀 𝗰𝗶𝗻𝗴𝗶𝗱𝗼𝘀, 𝗯𝗼𝗻𝘀 𝗿𝗲𝗺𝗮𝘁𝗲𝘀.”

A SEGUNDA LIDE

Na segunda lide, a lógica foi outra. O touro era diferente, a abordagem também. Mas a ambição manteve-se.

“𝗘 𝗻𝗮 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗻𝗱𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲, 𝘂𝗺𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗹𝗲𝘁𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗱𝗶𝗳𝗲𝗿𝗲𝗻𝘁𝗲. 𝗨𝗺 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗮𝗹𝗲𝗴𝗿𝗲 𝗻𝗮𝘀 𝗶𝗻𝘃𝗲𝘀𝘁𝗶𝗱𝗮𝘀.”

Começou com uma sorte de gaiola que considerou boa e procurou sempre acrescentar emoção.

“𝗖𝗼𝗺𝗲𝗰𝗲𝗶 𝗰𝗼𝗺 𝘂𝗺𝗮 𝗯𝗼𝗮 𝘀𝗼𝗿𝘁𝗲 𝗱𝗲 𝗴𝗮𝗶𝗼𝗹𝗮. 𝗗𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲𝗶 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗶𝗺𝗶𝗿 𝗲𝗺𝗼çã𝗼 à𝘀 𝘀𝗼𝗿𝘁𝗲𝘀, 𝗮 𝗺𝗮𝗻𝗱𝗮𝗿 𝘃𝗶𝗿 𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗲 𝗮 𝗿𝗲𝗰𝗲𝗯𝗲𝗿. 𝗘 𝗰𝗿𝗮𝘃𝗲𝗶 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗳𝗲𝗿𝗿𝗼𝘀 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀.”

A síntese veio naturalmente.

“𝗦𝗮í 𝗱𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝘀𝗮𝘁𝗶𝘀𝗳𝗲𝗶𝘁𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗮 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗮𝗾𝘂𝗶 𝗲𝗺 𝗦𝗮𝗹𝘃𝗮𝘁𝗲𝗿𝗿𝗮 𝗱𝗲 𝗠𝗮𝗴𝗼𝘀.”

Foi a voz de quem sentiu que a praça lhe deu o que um toureiro procura: touro, emoção, resposta e memória.

𝗢 𝗕𝗥𝗜𝗡𝗗𝗘 𝗔 𝗝𝗢Ã𝗢 𝗦𝗔𝗟𝗚𝗨𝗘𝗜𝗥𝗢 𝗘 𝗢 𝗣𝗘𝗦𝗢 𝗗𝗔𝗦 𝗥𝗘𝗙𝗘𝗥Ê𝗡𝗖𝗜𝗔𝗦

A tarde de Rouxinol Jr teve também um gesto de memória. O cavaleiro brindou a sua segunda atuação a João Salgueiro, figura incontornável da tauromaquia nacional.

E falou desse gesto com respeito evidente.

“𝗦𝗲𝗺 𝗱ú𝘃𝗶𝗱𝗮, 𝘀𝗲𝗺 𝗱ú𝘃𝗶𝗱𝗮. 𝗢 𝗺𝗲𝘀𝘁𝗿𝗲 𝗝𝗼ã𝗼 𝗦𝗮𝗹𝗴𝘂𝗲𝗶𝗿𝗼 é 𝘂𝗺𝗮 𝗿𝗲𝗳𝗲𝗿ê𝗻𝗰𝗶𝗮 𝘁𝗮𝗻𝘁𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗺𝗶𝗺 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼𝘀 𝗷𝗼𝘃𝗲𝗻𝘀.”

Não foi apenas uma dedicatória protocolar. Foi reconhecimento de escola, de admiração e de influência.

“𝗙𝗼𝗶 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝘂𝗺 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘂 𝗴𝗼𝘀𝘁𝗲𝗶 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗶𝗯𝗿𝗲𝗶 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝗮𝘀 𝘀𝘂𝗮𝘀 𝗮𝘁𝘂𝗮çõ𝗲𝘀.”

Depois, Rouxinol Jr ligou o brinde à própria atuação.

“𝗜𝗻𝘀𝗽𝗶𝗿𝗲𝗶-𝗺𝗲 𝗻𝗼 𝗯𝗿𝗶𝗻𝗱𝗲 𝗲 𝗼𝗯𝘁𝗶𝘃𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗮𝘁𝘂𝗮çã𝗼 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲.”

Há brindes que são palavra. Outros são compromisso. Em Salvaterra, este pareceu pertencer à segunda categoria.

𝗗𝗔 𝗕𝗔𝗥𝗥𝗔 𝗗𝗘 𝗢𝗨𝗥𝗢 À 𝗘𝗦𝗧𝗥𝗘𝗜𝗔 𝗗𝗢 𝗜𝗥𝗠Ã𝗢

O cavaleiro de Pegões falou ainda das próximas datas, sublinhando duas corridas com significado próprio.

A primeira será em Montemor-o-Novo.

“𝗔 𝗽𝗿ó𝘅𝗶𝗺𝗮 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗼𝘂 𝘁𝗲𝗿 é 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗺𝗶𝗺 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲. 𝗔 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗱𝗮 𝗕𝗮𝗿𝗿𝗮 𝗱𝗲 𝗢𝘂𝗿𝗼 𝗲𝗺 𝗠𝗼𝗻𝘁𝗲𝗺𝗼𝗿-𝗼-𝗡𝗼𝘃𝗼, 𝗻𝗼 𝗽𝗿ó𝘅𝗶𝗺𝗼 𝗱𝗶𝗮 𝟯𝟬 𝗱𝗲 𝗠𝗮𝗶𝗼.”

Depois, virá uma data de carácter familiar e simbólico.

“𝗘 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀, 𝗻𝗼 𝗽𝗿ó𝘅𝗶𝗺𝗼 𝗱𝗶𝗮 𝟭𝟯, 𝘂𝗺𝗮 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗺 𝘂𝗺 𝘀𝗶𝗴𝗻𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮𝗱𝗼 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝗶𝗮𝗹. É 𝗮 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮 𝗱𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗿𝗲𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗺𝗲𝘂 𝗶𝗿𝗺ã𝗼, 𝗲𝗺 𝗥𝗲𝗴𝘂𝗲𝗻𝗴𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗠𝗼𝗻𝘀𝗮𝗿𝗮𝘇.”

E o cavaleiro não escondeu a dimensão desse momento.

“𝗣𝗲𝗻𝘀𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝘀𝗲𝗿á 𝘂𝗺𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿á 𝗻𝗮 𝗵𝗶𝘀𝘁ó𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗮 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗮 𝗱𝗶𝗻𝗮𝘀𝘁𝗶𝗮 𝗲 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺, 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗿𝗼, 𝗻𝗮 𝗵𝗶𝘀𝘁ó𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗮 𝘁𝗮𝘂𝗿𝗼𝗺𝗮𝗾𝘂𝗶𝗮.”

A palavra “dinastia” não surge por acaso. Nos Rouxinol, a tauromaquia não é apenas profissão. É linhagem, herança e futuro.

𝗔𝗡𝗧Ó𝗡𝗜𝗢 𝗥𝗜𝗕𝗘𝗜𝗥𝗢 𝗧𝗘𝗟𝗟𝗘𝗦: “𝗗𝗘𝗜 𝗔 𝗖𝗔𝗥𝗔”

António Ribeiro Telles fez a leitura mais dura da tarde. Não procurou disfarçar a dificuldade dos dois touros que lhe saíram em sorte. Pelo contrário, chamou as coisas pelo nome.

Sobre o primeiro, começou por reconhecer uma casta que conhece bem.

“𝗢 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗲𝗿𝗮 𝘂𝗺 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼, 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺, 𝗮𝗻𝘁𝗶𝗴𝗼, 𝘂𝗺𝗮 𝗰𝗮𝘀𝘁𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘂 𝗰𝗼𝗻𝗵𝗲ç𝗼 𝗯𝗲𝗺, 𝗾𝘂𝗲 é 𝗮 𝗰𝗮𝘀𝘁𝗮 𝗮𝗼 𝗹𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗰𝗮𝘀𝗮.”

Mas o comportamento do animal não lhe permitiu construir o toureio que pretendia.

“𝗠𝗮𝘀 𝗲𝗿𝗮 𝘂𝗺 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗻ã𝗼 𝗱𝗮𝘃𝗮 𝘀í𝘁𝗶𝗼 𝗮𝗼𝘀 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗼𝘀, 𝗻ã𝗼 𝗱𝗮𝘃𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗼 𝗰𝗿𝗲𝘀𝗰𝗲𝗻𝘁𝗲.”

A partir daí, a palavra central foi responsabilidade.

“𝗗𝗲𝘀𝗲𝗻𝗿𝗮𝘀𝗾𝘂𝗲𝗶, 𝗺𝗮𝘀 𝗱𝗲𝗶 𝗮 𝗰𝗮𝗿𝗮. 𝗥𝗲𝘀𝗽𝗲𝗶𝘁𝗲𝗶 𝗮𝘀 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗮𝗴𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗼 𝗯𝗶𝗹𝗵𝗲𝘁𝗲 𝗲 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗲𝗶-𝗼. 𝗘 𝗽𝗿𝗼𝗻𝘁𝗼, 𝗱𝗲𝗶 𝗮 𝗰𝗮𝗿𝗮.”

Esta insistência não é menor. Telles quis deixar claro que, mesmo quando o touro não permite brilho, o toureiro não pode desaparecer.

“𝗗𝗲𝗶-𝗹𝗵𝗲 𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲 𝗮𝗱𝗲𝗾𝘂𝗮𝗱𝗮, 𝗮 𝗹𝗶𝗱𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝗹𝗲 𝗽𝗿𝗲𝗰𝗶𝘀𝗮𝘃𝗮.”

Quanto ao segundo touro, a expectativa inicial não se confirmou.

“𝗘𝘀𝘁𝗲 𝘀𝗲𝗴𝘂𝗻𝗱𝗼 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗮 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻ç𝗮 𝗻𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼, 𝗺𝗮𝘀 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗼𝘂-𝗺𝗲 𝗮 𝘀𝗮𝗶𝗿 𝗮 𝗳𝗮𝘃𝗮.”

A análise manteve o mesmo tom.

“𝗘 𝗶𝗴𝘂𝗮𝗹 𝗮𝗼 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼. 𝗖𝗼𝗺𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗿𝗼, 𝘁𝗲𝗻𝗵𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗲𝗿 𝘂𝗺 𝗯𝗼𝗰𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝘃𝗲𝗿𝗴𝗼𝗻𝗵𝗮 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗲 𝗻ã𝗼 𝗽𝗼𝘀𝘀𝗼, 𝗽𝗼𝗿 𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝘀𝗲𝗿 𝗺𝗮𝘂, 𝘃𝗶𝗿 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼. 𝗧𝗲𝗻𝗵𝗼 𝗱𝗲 𝗱𝗮𝗿 𝗮 𝗰𝗮𝗿𝗮 𝗲 𝗿𝗲𝘀𝗽𝗲𝗶𝘁𝗮𝗿 𝗮𝘀 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗮𝗴𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗼 𝗯𝗶𝗹𝗵𝗲𝘁𝗲.”

Depois, a síntese da tarde.

“𝗘 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺 𝗼 𝗳𝗶𝘇. 𝗧𝗲𝗻𝘁𝗲𝗶 𝗲𝘅𝗲𝗰𝘂𝘁𝗮𝗿 𝗼 𝗺𝗲𝘂 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗼. 𝗢 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗻ã𝗼 𝗼 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗼𝘂. 𝗘 𝗽𝗿𝗼𝗻𝘁𝗼, 𝘀𝗮𝗳𝗲𝗶-𝗺𝗲. 𝗙𝗼𝗶 𝘂𝗺𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗱𝘂𝗿𝗮. 𝗨𝗺𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘂 𝘁𝗶𝘃𝗲 𝗱𝗲 𝘀𝘂𝗽𝗲𝗿𝗮𝗿.”

Há entrevistas em que o toureiro procura dourar a dificuldade. Esta não foi uma delas. António Ribeiro Telles não dourou a tarde. Assumiu-a.

𝗔 𝗦𝗢𝗥𝗧𝗘 𝗔 𝗦𝗘𝗦𝗚𝗢 𝗘 𝗔 𝗘𝗦𝗖𝗢𝗟𝗔 𝗗𝗢 𝗣𝗔𝗜

Questionado sobre os ferros a sesgo no primeiro touro, uma sorte que muitos jovens cavaleiros já não executam com frequência, António Ribeiro Telles trouxe para a conversa a sua grande referência: o pai.

“𝗔 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗿𝗲𝗳𝗲𝗿ê𝗻𝗰𝗶𝗮 é 𝗼 𝗺𝗲𝘂 𝗽𝗮𝗶. 𝗘 𝗼 𝗺𝗲𝘂 𝗽𝗮𝗶 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗺𝗲 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗼𝗱𝗮𝘀 𝗮𝘀 𝘀𝗼𝗿𝘁𝗲𝘀 𝗻𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗼 𝘀ã𝗼 𝗯𝗼𝗻𝗶𝘁𝗮𝘀. 𝗘 𝗯𝗼𝗮𝘀.”

Depois, explicou que as sortes não existem apenas para exibição. Existem porque, em determinados touros, são necessárias.

“𝗘 𝘁ê𝗺 𝗱𝗲 𝘀𝗲 𝘂𝘀𝗮𝗿 𝗲𝗺 𝗮𝗹𝗴𝘂𝗻𝘀 𝗰𝗮𝘀𝗼𝘀. 𝗙𝗼𝗶 𝘂𝗺 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗽ô𝘀-𝘀𝗲 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗰𝗲𝗱𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮𝘀 𝘁á𝗯𝘂𝗮𝘀. 𝗘 𝗻ã𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗶𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗱𝗲𝗿 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼.”

A solução foi clara.

“𝗘 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺 𝘁𝗶𝘃𝗲 𝗱𝗲 𝗺𝗲𝘁𝗲𝗿 𝘁𝗿ê𝘀 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗶𝗱𝗼𝘀 𝗮 𝘀𝗲𝘀𝗴𝗼. 𝗘 𝘂𝗻𝘀 𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼𝘀 𝗰𝘂𝗿𝘁𝗼𝘀 𝗮 𝘀𝗲𝘀𝗴𝗼 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺. 𝗣𝗼𝗿 𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗼 𝗲𝘅𝗶𝗴𝗶𝗿. 𝗘 é 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺.”

Aqui está uma leitura importante. Telles não apresentou o sesgo como recurso menor. Apresentou-o como parte do repertório necessário de um toureiro que entende que nem todos os touros pedem o mesmo desenho.

No fundo, a sorte escolhida não foi ornamento. Foi resposta.

𝗧𝗥Ê𝗦 𝗩𝗢𝗭𝗘𝗦, 𝗧𝗥Ê𝗦 𝗙𝗢𝗥𝗠𝗔𝗦 𝗗𝗘 𝗟𝗘𝗥 𝗔 𝗠𝗘𝗦𝗠𝗔 𝗔𝗥𝗘𝗡𝗔

As entrevistas dos três cavaleiros ajudam a completar a leitura da corrida de Salvaterra.

Francisco Palha falou de adaptação, de cavalos e de um nível que considerou bom perante as dificuldades. Luís Rouxinol Jr falou de satisfação, de touros que lhe permitiram tourear e de uma tarde onde encontrou momentos importantes. António Ribeiro Telles falou de dureza, de respeito pelo público e de uma obrigação moral: dar a cara.

São três leituras diferentes. Mas todas revelam a mesma coisa: a tauromaquia não vive apenas do que se vê da bancada.

Vive também daquilo que cada toureiro sente quando percebe o touro que tem pela frente. Da decisão tomada em segundos. Vive do cavalo escolhido. Do ferro que se crava ou falha. Vive da sorte que se impõe porque o touro obriga. Da capacidade de aceitar que a tarde pode não ser de glória, mas tem sempre de ser de responsabilidade.

Em Salvaterra, Rouxinol Jr saiu com triunfo interior e satisfação pública. Palha saiu contente pelo que conseguiu construir dentro das dificuldades. Telles saiu com a dureza assumida de quem não brilhou, mas não se escondeu.

E talvez seja esse o retrato mais honesto da tarde.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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