Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Santa Casa Alfama: José Gonçalez explica homenagem a Carlos do Carmo

Santa Casa Alfama: José Gonçalez explica homenagem a Carlos do Carmo

Santa Casa Alfama: José Gonçalez explica homenagem a Carlos do Carmo, que marcou a edição deste ano.

Entrevista e texto: Rui Lavrador
Fotografia: Rute Nunes e Carlos Pedroso

José Gonçalez concedeu, como em todas as edições do Santa Casa Alfama, uma entrevista ao Infocul, na qual abordou todas as questões mais importantes na programação do festival.

Na primeira parte da entrevista, que publicamos de seguida, foi abordado o impacto da pandemia no planeamento do festival, a homenagem a Carlos do Carmo e ainda as escolhas para o palco principal do festival.

Zé, segunda edição que programas em plena pandemia. Quais foram os maiores desafios? Tendo em conta que a lotação baixou, o que implica queda de receita e com isso um necessário corte da despesa relativamente aos cachets que podem ser pagos…

Olha é bem observado. Não tinha pensado nisso por esse prisma. É uma pergunta muito interessante e confesso-te que nem sequer tinha parado para pensar.

É o segundo festival que programamos em plena pandemia, eu diria que o do ano passado foi mais complicado, sem dúvida, porque tivemos ali uma janela em que pudemos realizar alguns coisas. Este ano, acreditámos que as coisas estariam melhores e que, mais ou menos, as coisas voltariam à normalidade.

Claro que depois começámos a perceber que aquilo que desejávamos, ter o festival com lotação completa, não poderia acontecer. Temos 75% e as pessoas têm de estar todas sentadas e testadas, como sabes.

Mas também é bom dizer que temos tido aqui, sempre, o lado social dos artistas, que sempre se mostraram disponíveis e abertos a participar e também da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que na sua função social, perceberam os tempos e que nos poderiam ajudar de uma forma mais activa. O que te quero dizer com isto, sem qualquer subterfúgio? Passámos de 13 mil para 3 mil e mantivemos o mesmo cartaz, o mesmo número de artistas, o mesmo número de palcos. Portanto, se não tem havido uma compressão e ajuda da SCML, não seria possível realizar o festival. Não te vou mentir nesse aspecto.

Essa ajuda reflecte-se em termos financeiros?

Sim e na ajuda que nos dão. Muitas vezes, a maior questão nem é a financeira. É todo um conjunto de apoios que nos dão, valências que a Santa Casa tem, que acabam por nos ajudar a fazer o festival. Dizer-te que este ano foi muito difícil, relativamente à Câmara Municipal de Lisboa, e não foi por não nos apoiar. Nada disso. Mas com as eleições à porta, muita da condição logística não pôde estar connosco no festival. Vou dar-te um exemplo: Todos os anos dão redes, baias, mão-de-obra, que nos ajuda muito, e este ano, devido às eleições não pôde ser. Portanto, tivemos aqui uma série de dificuldades, mas acho que temos um festival muitíssimo digno.

No ano passado foi realizada homenagem a Amália Rodrigues. Amália nunca participou no festival, logicamente, porque o festival surgiu muito depois da sua morte. Este ano, prestou-se homenagem a Carlos do Carmo. Contudo, nunca participou no festival, embora fosse possível. Não é incoerente?

Não há incoerência. Assumo as minhas responsabilidades como programador do festival e que fique claro que nunca tive, já te disse isto uma vez, por parte dos meus patrões, qualquer condicionante no sentido de este ou aquele artista deve ou não ir. A questão sobre Carlos do Carmo até pode ser bem colocada, mas não há incoerência. E vou explicar-te porquê. Não é pelo sentido que tu tens perante as coisas, que as minhas acções têm de ser em função disso. Aquilo que enquanto programador valorizei e valorizo é e foi aquilo que sinto e sempre senti sobre Carlos do Carmo. Carlos do Carmo a mim merece-me toda a consideração e respeito. Tive oportunidade de estar em sua casa várias vezes, entrevistei-o várias vezes em sua casa e, portanto, eu tenho profunda admiração por Carlos do Carmo. Não foi de facto possível, porque o Carlos do Carmo nunca se mostrou disponível a participar no festival, nunca chegámos a acordo, se assim quiseres. Portanto, assumo isso com a maior limpeza.

A ausência dele foi sempre por opção de Carlos do Carmo e nunca do festival?

Porque nunca nos ‘encontrámos’. Se eu quiser ser politicamente correcto, direi que nunca foi possível encontrar no festival e naquilo que ele estava a fazer na carreira dele, em cada momento, essa possibilidade. Pode soar a politicamente correcto, mas é a verdade. Eu tenho uma relação muitíssimo boa com a família de Carlos do Carmo, com o seu filho que era o seu manager, que trouxe aqui muitos artistas ao longo dos anos, este ano está cá o Camané por exemplo. Vou dar-te o exemplo da Mariza. Nunca tinha vindo. Até que se encontrou o ano em que foi possível [2020]. Penso que com o Carlos do Carmo acabaria por acontecer o mesmo. Tive sempre boa relação com ele, admiro-o e admirava-o bastante e para mim seria um gosto tê-lo no festival.

Em termos daquilo que são os grandes nomes, no primeiro dia tivemos Sara Correia e Camané, mas no segundo dia falta um grande nome…

Não. No segundo dia, estão lá os nomes todos. Eu, no segundo dia deste ano, posso revelar-te sem problema, este concerto ficou agendado no dia da morte de Carlos do Carmo, no dia 1 de Janeiro…

Na Basílica da Estrela…

Exactamente. Posso contar-te tudo. Não tenho nenhum problema em que tornes público, não tenho qualquer tipo de subterfúgio, nada. Não me escondo atrás das coisas, assumo tudo o que digo e faço. Este concerto ficou marcado, no dia 1 de Janeiro, na Basílica da Estrela, num momento em que o Luís Montez, que é o dono do festival, numa conversa com o Becas, o filho de Carlos do Carmo, começando-se logo a falar ali. Estava também o Marco Rodrigues. Porque, até te posso contar, este ano o festival seria dedicado ao Fernando Maurício. A partir do momento em que Carlos do Carmo nos deixa, era da mais elementar justiça, acho que ninguém coloca isso em causa, que a edição deste ano teria de ser dedicada a Carlos do Carmo. Portanto, nesse dia decidimos logo realizar um grande concerto, à imagem do que tínhamos feito no ano passado com Amália, como disseste e bem, dedicado ao Carlos do Carmo. Se nós íamos ter esse concerto, é também uma opção de programação. Vou ser ainda mais frontal. Como sabes, em todas as edições, temos sempre a ideia de neste palco, e a abrir, ter gente com grandes carreiras e muito consagrados (como foi já o caso de Rodrigo, Maria da Fé, Alexandra, por aí…), ou artistas emergentes. É uma opção. É discutível, mas é a nossa opção. E não nos temos dado mal, verdade seja dita. É bom lembrar por exemplo que a Sara Correia já abriu o palco principal, no Porto, quando ninguém conhecia. A Gisela João foi uma aposta nossa na primeira edição do Caixa Alfama. E este ano voltámos a apostar nessa situação [artista emergente]. Já tínhamos a homenagem ao Carlos do Carmo, onde temos alguns dos maiores nomes da actualidade, como o Camané, Ricardo Ribeiro, Sara Correia, Marco Rodrigues, Paulo de Carvalho, Gil do Carmo… A noite estaria rematada. Então, o que é que achámos? Por um lado, tinha surgido um miúdo que eu acho que tem imenso talento, um longo caminho para percorrer, mas tem imensas condições, que é o Miguel Moura. Há uma coisa que as pessoas insistem e eu tenho dificuldade em entender, mas eu recordo que os festivais precisam de público, precisam de pessoas. Quando dizem que aquele grande fadista ou aquela grande fadista não vai aquele palco, eu respondo, sem me esconder em lado nenhum, que o festival precisa de se pagar. Por exemplo, nesta situação que estamos a conversar, eu tenho a certeza de que se tiver o Camané, tenho o festival cheio. Ou se tiver o Ricardo Ribeiro. Assim, se eu tiver gente emergente, e nesta edição tivemos 3 (Buba, Trigacheiro e Miguel), além de achar que merecem, têm também gente que os quer ver. E, portanto, há que assumir isso, sem nenhum tipo de medo, que precisamos de pessoas nos festivais. Temos de somar partes, não tenho problema nenhum em assumir isso.

Amanhã, o Infocul publicará a 2ª parte da entrevista.

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