Tânia Laranjo contestou as críticas aos jovens que protestam por melhores condições de habitação e recordou que conseguiu comprar a primeira casa aos 25 anos. Numa publicação no Facebook neste domingo, 18 de outubro, a jornalista questionou a comparação entre as oportunidades da sua geração e as dificuldades atuais, rejeitando a ideia de que deixar de viajar resolveria o problema.
“Assusto-me com alguns comentários. Há quem critique os jovens porque viajam. Se têm dinheiro para conhecer o mundo, porque não poupam para comprar casa? Como se uma viagem pagasse a entrada de um apartamento”, escreveu.
A reflexão surgiu a propósito da manifestação da noite anterior e centrou-se na falta de perspetivas de quem procura construir uma vida independente.
“Aos 25 anos comprei a minha primeira casa”
Para explicar a sua posição, Tânia Laranjo recuperou a experiência pessoal de acesso à habitação, numa altura em que estava no primeiro emprego.
“Aos 25 anos comprei a minha primeira casa. No meu primeiro emprego, a minha taxa de esforço permitia-me pagar a prestação e o banco emprestava a 100 por cento. Hoje, quantos conseguem fazer o mesmo?”, perguntou.
A jornalista colocou assim em causa os discursos que atribuem as dificuldades dos mais novos sobretudo às suas escolhas de consumo, sublinhando a diferença entre conseguir pagar despesas correntes e reunir condições para comprar casa.
Reconhece comportamentos de desordem, mas rejeita generalizações
Na publicação, Tânia Laranjo descreveu uma manifestação com participantes e intenções diferentes.
“Na manifestação da noite passada havia de tudo. Jovens sem perspetivas, sem capacidade de sonhar com uma casa, uma família, uma vida que não seja fazer contas até ao dia 30. Havia também gandulos, mitras, como dizemos no Porto, e arruaceiros. Há sempre quem aproveite para fazer aquilo que já trazia vontade de fazer”, afirmou.
Ainda assim, recusou que esses comportamentos servissem para desvalorizar todos os que saíram à rua.
“Mas reduzir tudo a um grupo de gente que não trabalha e só quer instalar a confusão é tão absurdo como fingir que não há quem queira apenas ser ouvido”, defendeu.
“Uma geração que deixa de conseguir sonhar tem razões para sair à rua”
Tânia Laranjo alargou depois a reflexão às consequências da falta de condições para projetar o futuro, evocando uma frase que atribuiu a Nelson Mandela.
“Mandela dizia que ‘a educação é a arma mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo’. Talvez nos falte perceber que uma geração sem perspetivas, sem condições para construir o seu futuro, dificilmente acredita que pode mudar alguma coisa”, escreveu.
A mensagem terminou com uma crítica aos conselhos de poupança dirigidos a quem sente não ter possibilidades de avançar na vida.
“É fácil dar lições de poupança a quem não consegue sequer imaginar um futuro. Uma geração que deixa de conseguir sonhar tem razões para sair à rua.”
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