Antes de Toni Peres aprender a escrever música para histórias, houve uma paisagem sonora a escrever-se nele. Não vinha de um piano, de uma sala de cinema ou de uma partitura. Vinha de uma floresta no leste de França, do vento a atravessar as árvores e do canto de um pássaro cujo nome continua, décadas depois, sem saber.
Compositor e produtor musical português, formado em produção musical e piano, Toni Peres construiu um percurso onde a música raramente existe apenas para ser escutada. Há quase sempre alguma coisa a acontecer para lá dela: uma imagem, uma personagem, um lugar, uma tensão ou uma história que pede som.
Álbuns como «Scorched Circle (Part One)», «A Um Compasso do Abismo» e «O Silêncio dos Lugares Comuns» foram revelando essa inclinação para universos cinematográficos, emocionais e narrativos. Em «Uma Verdade Tecida em Sombras», lançado a 21 de setembro, o desafio foi diferente: Toni Peres não teve apenas de imaginar uma história. Teve de entrar numa que já existia.
O álbum é a banda sonora original do livro de estreia de Pedro Subtil, uma obra de fantasia jovem-adulta onde o steampunk se cruza com mistério, conflito e intriga política. São 15 temas ligados a momentos concretos da narrativa, acessíveis também através de um código QR incluído no livro e identificados nas passagens a que pertencem.
Pelo caminho entraram um enorme relógio industrial, uma torre que se recusava a acordar musicalmente, três dias praticamente sem dormir, um coro gravado sem plano B e personagens que obrigaram o compositor a compreender comportamentos que, enquanto simples leitor, tinha condenado.
Ao Infocul.pt, Toni Peres abriu a porta desse processo.
A primeira paisagem sonora não nasceu num estúdio
A relação de Toni Peres com o som começou muito antes de existir qualquer intenção de fazer dele profissão.
Nasceu numa zona rural do leste de França, onde viveu até aos oito anos, rodeado por florestas que permanecem muito vivas na memória.
«Nasci numa zona rural a leste de França, onde vivi até aos oito anos. A pequena vila era envolvida por densas florestas e, principalmente no verão, adorava passear pelo bosque e sentir-me rodeado por toda aquela natureza.»
Não recorda apenas o lugar. Recorda, sobretudo, aquilo que o lugar fazia ouvir.
«Lembro-me do som da natureza: a combinação da brisa a passar pelas árvores com o canto muito peculiar de uma determinada espécie de pássaro, cujo nome ainda hoje desconheço. Todos aqueles registos sonoros se conjugavam, criando uma paisagem sonora muito específica que, curiosamente, não se assemelha à que encontro na natureza daqui. Havia ali uma característica muito própria que, apesar de recordar com precisão, não consigo descrever.»
Essa infância acabou por permanecer também na forma como Toni se relaciona com os espaços.
«Este som não só me marcou, como também me moldou enquanto pessoa. A minha relação com os ambientes verdes e serranos acabou por se tornar muito mais estreita do que a minha relação com os ambientes citadinos. A minha preferência por escapadelas ao Gerês durante as férias, por exemplo, é uma consequência do ambiente em que vivi na infância e do som específico que o acompanhava.»
Talvez seja precisamente por isso que exista uma curiosidade particular no território musical que veio depois. Os títulos dos seus discos não são propriamente luminosos. Há abismos, silêncios e sombras. Toni, porém, não se reconhece pessoalmente nesse lado mais carregado.
E talvez seja justamente por isso que regressa tantas vezes a ele.
As sombras interessam-lhe porque não se parece com elas
«A Um Compasso do Abismo», «O Silêncio dos Lugares Comuns» e agora «Uma Verdade Tecida em Sombras» partilham uma tensão que parece procurar alguma coisa escondida.
Toni Peres não vê nisso um espelho da própria personalidade. Vê o contrário.
«Estamos em polos completamente opostos, e é precisamente essa divergência que me fascina e me leva a explorá-lo com maior frequência. Apesar de apresentarem algumas diferenças de tom, “A Um Compasso do Abismo” e “O Silêncio dos Lugares Comuns” exploram as vertentes mais sombrias, com momentos de maior tensão e intensidade explosiva. Estas características não se identificam propriamente comigo, mas considero-as fundamentais para a criação de uma atmosfera cinematográfica mais envolvente e emotiva.»
Em «Uma Verdade Tecida em Sombras», a escuridão não foi uma escolha isolada do compositor. Já estava escrita.
«Já “Uma Verdade Tecida em Sombras” segue a linha narrativa do livro, que vai ganhando uma carga emocional mais pesada a cada capítulo. Dizem que os opostos se atraem, e este é um bom exemplo disso.»
Entrar musicalmente naquele universo obrigou-o primeiro a entrar nele enquanto leitor.
Toni evita revelar demasiado do livro de Pedro Subtil, mas reconhece que encontrou situações capazes de tocar em experiências humanas comuns.
«Na minha opinião, existem vários momentos no livro que acabam por tocar qualquer leitor, pois retratam situações pelas quais passamos ao longo da vida e que nos afetam a todos. Poderia referir alguns, mas prefiro deixar o mistério no ar e permitir que cada leitor faça as suas próprias descobertas.»
Houve, no entanto, alguém que lhe ficou particularmente próximo: Dean.
«Mais do que uma passagem específica, houve uma personagem que acabou por me tocar particularmente. Ao ler algumas passagens que envolviam Dean, senti que tínhamos alguns pontos em comum, tanto pelas situações por que ele passava como pela forma como reagia perante elas.»
Não é por acaso que foi precisamente Dean a dar o primeiro passo musical para dentro da história.
Um relógio industrial mostrou-lhe o caminho
A primeira melodia de «Uma Verdade Tecida em Sombras» nasceu no home studio de Toni Peres.
O compositor tinha terminado a leitura da primeira parte do manuscrito. Tinha um teclado à frente e, na parede, um enorme relógio industrial com engrenagens visíveis.
Foi desse encontro entre uma personagem, um manuscrito e um mecanismo em movimento que começou a nascer o disco.
«O primeiro som a ser criado foi a melodia dedicada a Dean, uma personagem central da história. Era essencial começar por esta melodia, pois seria ela a definir o rumo desta banda sonora, funcionando não só como ponto de partida, mas também como eixo central.»
Toni começou a tocar livremente enquanto olhava para o relógio.
«Lembro-me de estar no meu home studio, com o teclado ligado, a tocar livremente enquanto observava um enorme relógio industrial que tenho na parede da sala, com as suas engrenagens visíveis em movimento. Procurava algo que se adequasse àquilo que estava a contemplar.»
A referência visual fazia sentido num universo steampunk.
«Tinha acabado de ler a primeira parte do manuscrito do livro e sabia que precisava de ir beber um pouco ao estilo steampunk. Por isso, nada melhor do que aquele relógio industrial como referência para definir a atmosfera que pretendia criar.»
A melodia acabaria por viver sobretudo em «Distinguir um Sonho de uma Memória».
«Quando a melodia começou a surgir, pareceu encaixar na perfeição com o movimento do mecanismo do relógio. Foi nesse momento que pensei: “É este o caminho.”»
O caminho estava encontrado. Isso não significava, contudo, que todas as personagens se deixassem compreender com a mesma facilidade.
Compor para alguém que, enquanto leitor, tinha condenado
A música pode fazer uma coisa curiosa a quem a escreve: obrigá-lo a permanecer durante mais tempo dentro de uma emoção que, de outra forma, talvez rejeitasse rapidamente.
Foi o que aconteceu com Allen, uma das sete personagens centrais da história.
«Creio que isso tenha acontecido com Allen. Houve, de facto, várias ocasiões em que condenei as suas atitudes — ou, melhor dizendo, a falta delas. No entanto, foi ao compor a música para um momento-chave protagonizado por Allen que acabei por me colocar no seu lugar, compreendê-lo melhor e ter uma maior empatia por ele.»
Era precisamente esse tipo de interpretação que Toni queria levar ao mundo criado por Pedro Subtil.
Não pretendia limitar-se a traduzir steampunk em sons previsvisíveis.
«O Pedro criou um mundo inspirado na fantasia steampunk, pelo que seria expectável que a música seguisse o mesmo rumo. No entanto, sei que o meu papel é contar a história através da música, mas de uma forma que o escritor nunca imaginaria.»
Nas primeiras reuniões, deixou clara essa intenção.
«Disse-lhe que gostaria de tocar na fantasia steampunk, mas sem mergulhar totalmente nela, procurando fugir ao esperado e criar algo menos óbvio, cruzando esse universo com a minha identidade musical. O Pedro deu-me sempre luz verde para seguir esta abordagem.»
Há uma fronteira que Toni não quis ultrapassar: respeitar a obra não poderia significar desaparecer dentro dela.
«É importante que o compositor seja fiel à história que vai musicar, mas é igualmente importante que mantenha um cunho próprio.»
Houve temas em que esse cruzamento devolveu ao próprio autor uma imagem do seu mundo que não tinha previsto.
Foi o caso de «Greenal».
«Alguns temas surpreenderam o Pedro por lhe apresentarem uma nova perspetiva. Foi o caso de “Greenal”, que não só o transportou para a pacata vila da história com o mesmo nome, como também lhe evocou os videojogos de RPG, uma das suas fontes de inspiração para a criação deste vasto mundo. Esta última associação não estava planeada.»
Nem todos os silêncios precisavam de música
Criar uma banda sonora para um livro levantava um problema que o cinema resolve de outra forma: cada leitor tem o seu próprio tempo.
Há quem atravesse um capítulo rapidamente. Há quem pare numa frase, volte atrás ou feche o livro durante alguns minutos.
Toni Peres e Pedro Subtil tiveram, por isso, de perceber onde a música deveria entrar sem ocupar o espaço que pertence à imaginação.
«Um dos maiores desafios deste projeto foi perceber como integrar a música no livro. Não faria sentido criar uma banda sonora que acompanhasse toda a história, pois isso resultaria numa playlist interminável.»
A resposta foi procurar os momentos essenciais.
«Chegámos à conclusão de que a música deveria surgir nos momentos-chave, um pouco como acontece nos filmes, deixando as restantes partes em aberto para a imaginação do leitor.»
Mesmo nesses pontos, nem todos os temas funcionam da mesma maneira.
«Tendo em conta a extensão de alguns capítulos e a variante “velocidade de leitura de cada pessoa”, alguns temas foram concebidos para criar uma atmosfera, dando uma margem maior para o leitor viajar pela sua imaginação. Outros acompanham a narrativa de forma mais pormenorizada.»
E nem tudo aquilo que se ouve é música.
«Existem ainda momentos em que são introduzidos efeitos sonoros não musicais para acontecimentos descritos no livro, como o som de um vidro a partir-se ou de um portão a fechar-se abruptamente.»
Foi um trabalho de escolha. Mas houve um tema em que o problema não era saber quando entrar.
Era simplesmente conseguir entrar.
«A Torre Acorda»: a composição que se recusava a aparecer
Há trabalhos difíceis porque exigem mais técnica. «A Torre Acorda» tornou-se difícil por outra razão: Toni Peres não conseguia encontrar a emoção.
«Confesso que “A Torre Acorda” foi um dos temas mais difíceis e desesperantes que compus. Sentia um vazio absoluto em relação ao que deveria compor e também não conseguia visualizar a emoção que o Pedro procurava transmitir.»
Vieram as primeiras tentativas.
E os primeiros nãos.
«Criei duas ou três demos e, em todas elas, o Pedro dizia: “Gosto, mas não é nada disso que queria transmitir.” Comecei a sentir alguma frustração, porque, até àquele ponto, todos os temas tinham correspondido ao que pretendíamos. Uns tinham exigido mais ajustes, outros menos, mas a essência estava sempre lá. Depois, tinha aquela pedra no sapato que teimava em não sair.»
As conversas multiplicaram-se sem que a solução aparecesse.
«Aquele tema fazia-me sentir completamente à deriva e, apesar das mil conversas esmiuçadas com o Pedro, continuava a não encontrar uma saída.»
Até que Toni abandonou, por momentos, aquilo que parecia mais lógico fazer.
Deixou a história de lado e agarrou-se apenas a duas palavras do autor: «momento mágico».
«A dada altura, decidi desligar-me completamente da história e concentrar-me apenas numa expressão que o Pedro me tinha dito: “Momento mágico”.»
A partir daí, imaginou um universo próximo da estética de «Harry Potter» e deixou de procurar um destino antes de começar a andar.
«Imaginei um mundo mágico, com uma estética próxima da de “Harry Potter”, e decidi simplesmente seguir sem um rumo definido.»
Quando mostrou a nova demo, Toni acreditava estar perante mais uma tentativa falhada.
Pedro Subtil respondeu de outra forma.
«“Não sei o que fizeste nem como o fizeste, mas é mesmo isto que tinha imaginado.”»
Finalmente, a torre tinha acordado.
«O autor tinha finalmente o tema para a sua torre acordada, e eu tinha encontrado uma luz ao fundo do túnel.»
O episódio também diz alguma coisa sobre a relação entre compositor e autor: Toni sabe exatamente quem pode dizer-lhe que uma composição não funciona sem obrigá-lo a transformar a conversa numa defesa do próprio trabalho.
Pedro.
«No contexto de “Uma Verdade Tecida em Sombras”, sem dúvida, o Pedro. A história do tema “A Torre Acorda” reflete precisamente isso.»
A razão é simples.
«Apesar de ir mostrando alguns temas lá por casa, contextualizando-os um pouco, a verdade é que apenas o autor e eu tínhamos acesso à totalidade da banda sonora e aos respetivos capítulos. Por isso, tinha mesmo de levar a sério um “isto não está a resultar” vindo do Pedro.»
Antes de entregar cada composição, Toni explicava a perspetiva com que tinha trabalhado. Se o resultado não servisse a história, não havia muito mais a defender.
«Antes de lhe entregar cada tema, fazia sempre um breve enquadramento da minha perspetiva ao criar aquela composição, deixando de haver necessidade de defender o que fiz caso o feedback fosse negativo.»
Isso não significa que todos os nãos sejam fáceis.
«Confesso que fiquei um pouco desiludido quando o Pedro reprovou a primeira versão, porque gostava genuinamente do que tinha criado e acreditava que poderia funcionar. No entanto, olhando agora para trás, compreendo perfeitamente essa decisão e sinto que a versão final deu ao capítulo aquilo de que precisava.»
Um coro, uma oportunidade e nenhum plano B
«Uma Verdade Tecida em Sombras» não ficou fechado entre Toni Peres e Pedro Subtil.
O projeto contou com a participação especial do Coro da Orquestra Nova de Guitarras e das vozes de João Valentim e Florbela Lourenço.
No caso do coro, havia um problema muito concreto: o tempo.
«Felizmente, tive o privilégio de trabalhar com pessoas fantásticas, que compreenderam e concretizaram a minha visão musical de forma bastante assertiva.»
O Coro da Orquestra Nova de Guitarras preparava nessa altura um grande concerto no Coliseu dos Recreios. A margem disponível para gravar era reduzida.
Muito reduzida.
«A primeira vez que os ouvi interpretar o tema “Nova Arnica” foi apenas um instante antes de começar a gravá-los.»
Toni não esconde que entrou naquela sessão com alguma inquietação.
«Sentia algum nervosismo e preocupação, pois nunca tinha trabalhado com eles e não sabia bem o que esperar nem o que poderia correr mal. Para piorar a situação, tinha apenas aquele dia para realizar a gravação: uma única oportunidade. Se algo falhasse ou não funcionasse, não teria qualquer plano B.»
Não foi preciso.
«Não só o resultado assentou que nem uma luva, como a sessão de gravação foi bastante mais curta do que tinha previsto. Foi, provavelmente, uma das melhores surpresas que tive ao longo deste projeto.»
Com João Valentim e Florbela Lourenço, o ponto de partida também foi mínimo.
«Com apenas um breve briefing e sem terem acesso ao livro, conseguiram dar voz às personagens e criar dois momentos musicais que, creio, poucos esperariam.»
No final, não houve necessidade de desmontar aquilo que tinha imaginado.
«Todas as peças se encaixaram, formando o puzzle que tinha imaginado. Por isso, diria que não houve nenhum momento que me fizesse mudar de ideias ou hesitar.»
A pequena festa no meio das sombras
Num disco construído em torno de tensão, mistério, fantasia e dimensão cinematográfica, talvez um dos momentos de que Toni fala com maior prazer seja precisamente aquele que menos se parece com tudo isso.
«Sesquicentenário».
«Sem dúvida o “Sesquicentenário”! É daqueles temas que se resume a uma versão filarmónica e festiva do Hino do Império de Arnica, discreto comparativamente com os outros temas e que de épico e cinematográfico não tem nada.»
A intenção narrativa era muito específica: havia um império a celebrar 150 anos e uma festa a funcionar também como forma de esconder aquilo que não deveria estar no centro das atenções.
Toni encontrou a resposta numa linguagem popular.
«Quando o tema foi colocado na lista de momentos-chave, a primeira coisa que me ocorreu foi: “Este tema tem o objetivo muito específico de entreter a população com o marco dos 150 anos do império, de forma a camuflar toda a tirania e opressão… qual é o povo que não gosta de uma boa festa com muita fanfarra?! Nada melhor do que um tema interpretado num tom popular e divertido, e só faz sentido se esse tema for o hino, a música que vive no coração de todos que habitam naquele mundo.”»
Quando o mostrou ao escritor, fê-lo com algumas dúvidas.
A ideia de Pedro tinha sido outra.
«Mostrei o tema ao Pedro, reticente com a sua reação, já que o que ele tinha sugerido não era nada daquilo. Ouviu, riu-se bastante e disse: “Parece-me ótimo”.»
Compor sem transformar a música num diário
Há compositores que escrevem a partir das próprias perdas, amores ou memórias.
Toni Peres não trabalha habitualmente dessa forma.
A reserva que assume na vida pessoal prolonga-se, de certa maneira, na composição.
«Sempre fui uma pessoa reservada no plano pessoal e creio que isso acaba por se refletir um pouco na minha composição musical. Não costumo recorrer às minhas próprias memórias, perdas ou sentimentos pessoais para os transpor para a música.»
Prefere fazer o movimento contrário: sair de si.
«Procuro imaginar os sentimentos dos outros, talvez partindo de temperamentos humanos comuns ou de determinadas atitudes.»
Chama-lhe uma espécie de jogo psicológico.
«É, de certa forma, um jogo psicológico em que me coloco no lugar de outra pessoa e tento, através da sua perspetiva, traduzi-la musicalmente. No caso desta banda sonora, segui a mesma abordagem, mas tendo como ponto de partida cada uma das personagens e, também, o próprio autor.»
Talvez por isso consiga desligar-se da história quando fecha uma sessão.
Ou quase.
«A porta fica sempre entreaberta»
Toni diz que regressa ao mundo real com relativa facilidade depois de longas horas de composição.
Mas o estúdio pode fechar sem que a história feche com ele.
«Apesar de conseguir sair da história e regressar ao mundo real com alguma facilidade, a verdade é que a porta fica sempre entreaberta.»
Por vezes, basta o silêncio das horas seguintes para uma ideia reaparecer.
«Dei por mim, algumas vezes, já depois de longas sessões em estúdio, a pegar no telemóvel e a cantarolar uma ideia que ninguém pediu naquele momento, simplesmente porque o meu subconsciente continuava a navegar silenciosamente pela história.»
Quem está próximo já conhece o ritual.
«Acho que as pessoas que me são próximas já se habituaram a esta coisa de: “Pára tudo, que recebi uma ideia divina e sinto que vai funcionar!”»
Há apenas um pequeno problema com essas iluminações tardias.
«O pior é que, em 50% dos casos, essas ideias nunca chegam a concretização nenhuma!»
Toni ri-se da própria compulsão criativa, mas garante que ainda consegue estabelecer uma fronteira.
«Apesar de tudo, acho que me tenho portado minimamente bem: quando é para fechar a sessão, é mesmo para fechar a sessão.»
Um toque de telemóvel e duas crianças no carro
A relação de um compositor com a própria música termina, em grande medida, quando a obra passa para o lado de quem a ouve.
A partir daí, pode acontecer qualquer coisa.
Depois do lançamento de «O Silêncio dos Lugares Comuns», Toni recebeu uma mensagem que não estava à espera.
«Recebi uma mensagem no Instagram de um rapaz, julgo que alemão, que me felicitou pelo trabalho e me disse que tinha gostado tanto do tema “Segurança dos Tempos Felizes” que o tinha colocado como toque de telemóvel.»
Pode parecer pequeno. Para quem escreve música imaginando diferentes formas de ela entrar na vida dos outros, aquela nunca lhe tinha ocorrido.
«Imagino as pessoas a ouvir e a utilizar a minha música em variados contextos, mas nunca me tinha ocorrido que alguém a pudesse usar como toque de telemóvel.»
Outra surpresa viria de um público ainda menos previsível.
«Outro momento inesperado aconteceu quando duas irmãs, em que a mais velha não deveria ter mais de sete anos, vieram pedir-me um autógrafo.»
Os pais explicaram-lhe depois que aquela relação não tinha nascido naquele momento.
«Os pais contaram-me que, a pedido das filhas, as minhas músicas tocavam religiosamente todas as manhãs no carro, tanto no caminho para a escola como no regresso a casa.»
Toni nunca tinha pensado nas crianças como público natural das suas composições.
«Nunca imaginei que a minha música pudesse ser apreciada pelos mais pequenos. No entanto, depois desse episódio, recebi outros relatos de pais que me diziam que os filhos gostavam muito de ouvir a minha música. Para mim, continua a ser surpreendente perceber que as minhas composições chegam também a esse público.»
Três dias sem dormir e uma história que ainda não terminou
Depois de 15 temas, de entrar na cabeça das personagens, discutir demos, gravar vozes, acordar uma torre e procurar espaço entre aquilo que o livro diz e aquilo que o leitor deve poder imaginar, «Uma Verdade Tecida em Sombras» poderia ter deixado Toni Peres com alguma grande revelação sobre si próprio.
Não deixou.
Ou, pelo menos, não exatamente.
«Apesar de ter sido um trabalho intenso em todos os sentidos, creio que não me revelou nada de novo sobre mim que já não soubesse.»
Existe uma exceção.
«A única exceção foi ter descoberto que ainda consigo passar três dias seguidos sem dormir para cumprir os objetivos a que me proponho!»
O projeto exigiu-lhe um mergulho num mundo que não lhe pertencia, mas que acabou por encontrar terreno familiar na sua forma de criar.
«“Uma Verdade Tecida em Sombras” exigiu muito de mim e levou-me a mergulhar num mundo que não era o meu. Ainda assim, esse universo estava alinhado com a minha sensibilidade criativa.»
No fim, Toni prefere falar em reconhecimento, não em descoberta.
«Não senti que estivesse a descobrir algo novo sobre mim, mas sim a reconhecer uma compatibilidade.»
E talvez a melhor forma de terminar esta conversa seja precisamente aquela que impede que ela fique realmente fechada.
Porque o universo criado por Pedro Subtil não terminou neste primeiro encontro entre literatura e música.
Nem Toni Peres terminou de o ouvir.
«A história não ficou por aqui, nem a banda sonora. Por isso, ainda temos espaço para descobrir coisas novas.»
