Val Kilmer, que interpretou Batman e Jim Morrison, morre aos 65 anos, nesta terça-feira em Los Angeles, dia 1 de abril. Ele tinha 65 anos. A causa da morte foi pneumonia, segundo a sua filha, Mercedes Kilmer. O ator foi diagnosticado com cancro da garganta em 2014, mas posteriormente recuperou, afirmou a mesma.
Em Hollywood que alcançou o estrelato ao interpretar Jim Morrison e Batman, mas cujos talentos versáteis e personalidade enigmática também o tornaram um destacado ator secundário. Alto e carismático, com um ar de estrela de rock, Kilmer foi, de facto, escolhido para papéis de músicos várias vezes no início da sua carreira, quando parecia destinado ao sucesso nos grandes blockbusters. Ele fez a sua estreia no cinema na paródia de espionagem da Guerra Fria “Top Secret!” (1984), onde interpretou um cantor americano carismático em Berlim, involuntariamente envolvido numa conspiração da Alemanha Oriental para reunificar o país.
O invencível Iceman de “Top Gun”
Em 1986, Tony Scott escalou-o para o seu primeiro grande filme, “Top Gun” (1986), um drama cheio de testosterona sobre pilotos da Marinha dos EUA, onde interpretou o rival frio e arrogante de Tom Cruise. Ele regessou ao papel brevemente em “Top Gun: Maverick” (2022), onde as suas falas eram ditas por um computador quando a personagem escrevia, por incapacidade de falar. Um aspeto da personagem e narrativa que foi adaptado devido à condição deteriorada de Kilmer.
Este Batman é para sempre
Kilmer deu uma performance marcante como Jim Morrison, o ícone da música psicadélica, em “The Doors” (1991), de Oliver Stone. Também interpretou um breve papel como Mentor, uma versão imaginada de Elvis Presley — no filme “True Romance” (1993), um thriller policial escrito por Quentin Tarantino e realizado por Tony Scott.
Mas o seu papel mais famoso foi, possivelmente, o de Batman em “Batman Forever” (1995), entre as atuações de Michael Keaton e George Clooney no papel do Cavaleiro das Trevas. No filme, Kilmer enfrentou Duas-Caras (Tommy Lee Jones) e o Riddler (Jim Carrey).

O Pistoleiro imprevisível no ecrã e na vida
Kilmer também brilhou como o pistoleiro carismático Doc Holliday no western sangrento “Tombstone” (1993), ao lado de Kurt Russell, Sam Elliott e Bill Paxton como os irmãos Earp. Fez parte de um grupo de assaltantes em “Heat” (1995), onde contracenou com Robert De Niro e Al Pacino. Co-protagonizou “The Ghost and the Darkness” (1996) com Michael Douglas, um filme sobre a caça a leões na África do século XIX. Em “Pollock” (2000), interpretou o pintor Willem de Kooning ao lado de Ed Harris. Em “Alexander” (2004), de Oliver Stone, deu vida a Filipe da Macedónia, pai de Alexandre, o Grande (Colin Farrell).
Ao longo da carreira, Kilmer deixou sempre uma impressão de imprevisibilidade, tanto para o público como para os cineastas.
“Os atores percebem que há algo no Val que não se capta logo à primeira vista”, disse Oliver Stone numa entrevista de 2007. O dramaturgo e realizador David Mamet, que dirigiu Kilmer no thriller político “Spartan” (2004), acrescentou: “O que o Val tem como ator é algo que apenas os realmente grandes atores possuem — ele faz tudo parecer uma improvisação.”
Oliver Stone e Robert Downey Jr.
No ecrã, Kilmer era carismático e intrigante, um ator que não revelava facilmente as emoções dos seus personagens. Fora do ecrã, teve a sua quota de desentendimentos, especialmente no início da carreira, quando ganhou a reputação de ser difícil e egocêntrico. Um artigo de capa de 1996 da Entertainment Weekly chamou-lhe “O homem que Hollywood adora odiar”.
“Ele irritava as pessoas por ser difícil de entender”, disse Oliver Stone, um dos muitos que inicialmente se desentenderam com Kilmer, mas depois voltaram a trabalhar com ele. Robert Downey Jr., seu colega em “Kiss Kiss Bang Bang” (2005), admitiu que não suportava Kilmer quando o conheceu, mas que mais tarde se tornaram grandes amigos.
O Início
Val Edward Kilmer nasceu em Los Angeles a 31 de dezembro de 1959 e cresceu no bairro de Chatsworth, onde teve como vizinhos Roy Rogers e Dale Evans e como colegas de escola Kevin Spacey e Mare Winningham. O seu pai, Eugene, era um consultor imobiliário, e a sua mãe, Gladys Ekstadt, divorciou-se dele quando Val tinha 9 anos. O seu irmão mais novo, Wesley, morreu afogado numa piscina em 1977, uma tragédia que o assombrou por muitos anos.
Essa perda influenciou profundamente o seu desempenho em “The Salton Sea” (2002), um filme sobre um homem consumido pela culpa após testemunhar o assassinato da esposa sem conseguir salvá-la. “Há vários momentos no filme em que ele simplesmente não consegue continuar”, disse Kilmer ao New York Times em 2002. “Eu próprio não voltei a sentir-me ligado à realidade até uns dois ou três anos depois da morte do meu irmão.”
A Juilliard School
Foi admitido na prestigiada Juilliard School de Nova Iorque aos 17 anos, tornando-se um dos alunos mais jovens de sempre do curso de teatro. Em Juilliard, co-escreveu e atuou numa peça baseada na autobiografia do guerrilheiro alemão Michael Baumann. Depois de se formar, estreou-se na Broadway em 1983 com a peça “The Slab Boys”, ao lado de Sean Penn e Kevin Bacon.
Outros papéis marcantes de Kilmer incluem “The Island of Dr. Moreau” (1996), baseado no clássico de H.G. Wells; “Wonderland” (2003), onde interpretou a estrela porno John Holmes; e “Twixt” (2011), de Francis Ford Coppola, um thriller sobre um escritor que descobre segredos macabros numa pequena cidade.
Mark Twain em “Citizen Twain”
Tal como o ator Hal Holbrook, Kilmer tinha uma longa fascinação por Mark Twain. Em 2010, começou a apresentar pelo país a peça “Citizen Twain”, que ele próprio escreveu e interpretou. Também encarnou Twain no filme “Tom Sawyer & Huckleberry Finn” (2014) e planeava realizar e protagonizar um filme sobre a relação entre Twain e Mary Baker Eddy, fundadora da Ciência Cristã — religião que Kilmer seguia.
Em 2021, foi lançado o documentário “Val”, baseado em décadas de filmagens do próprio ator. O filme, narrado pelo seu filho Jack, venceu vários prémios, incluindo o Critics Choice Award para Melhor Documentário Histórico ou Biográfico.
“Uma vez estrela, és sempre uma estrela”
Em entrevista ao Hollywood Reporter em 2012, Kilmer falou sobre o seu afastamento de Hollywood e reconheceu que teve uma trajetória atípica. “Tenho outros interesses”, disse ele. “Queria passar tempo com os meus filhos.”
“Não tenho arrependimentos”, afirmou. “É um velho ditado, mas é verdade: uma vez estrela, és sempre uma estrela, só depende do nível.”
