Vozes Ibéricas demonstram que a música tradicional é um ser vivo sempre em transformação e ação, no terceiro e último dia do Sabores no Barro, e viveram para lá da tradição.
Texto: André Nunes
Fotografias: Diogo Nora

Quando a juventude pega na memória e a faz respirar
Grupo jovem, de vozes ainda em construção, mas já carregadas de identidade, apresentaram-se como um reflexo da jovialidade aplicada aos sons tradicionais da Península Ibérica. Um encontro entre herança e descoberta, onde o respeito pela tradição não impede a reinvenção.

O concerto começou de forma simbólica e intimista. Cada um dos quatro elementos interpretou o primeiro verso de “Um dia hei de voltar”, “fui ao jardim, meu amor, para me despedir de ti”, num exercício de partilha de timbres que prendeu o público desde o primeiro momento. Houve silêncio, atenção e respeito: a plateia escutou cada voz como quem reconhece futuro no presente.

Entre memórias e gerações, o tempo falou em palco
Entre temas, também houve espaço para a palavra. Num registo descontraído e próximo, partilharam-se memórias e reflexões. Buba Espinho subiu a palco com os embaixadores Chaveiro e Caixeiro e revelou: “Quando vim aos Sabores no Barro ainda fumava às escondidas do meu pai. Hoje em dia é a minha filha que já faz malandrices. Há tradições que ficam e outras que vão partindo, como as pessoas.”

O público respondeu com uma salva de palmas, reconhecendo nesse momento o fio invisível entre gerações.
De janelas abertas a tardes de Sevilha
“Boa tarde, somos as Vozes Ibéricas, do distrito de Beja, e esperamos que gostem da nossa atuação” — simples, direto, e suficiente para estabelecer a ligação.
Quando o romance antigo ganha voz jovem

Seguiu-se “Menina estás à janela”, que rapidamente entusiasmou o público. A carga romântica e saudosista do tema ganhou nova vida nas vozes jovens, que lhe atribuíram frescura sem lhe retirar profundidade. Com uma musicalidade que por momentos tocava influências sevilhanas, criou-se um ambiente de festa contida: palmas, pés a marcar o ritmo e cabeças a acompanhar, com o Alentejo como pano de fundo.

“Vamos para uma espanholadazinha agora”
E assim foi. O tema interpretado, identificado pela frase “Siento frío en mi cuerpo por no tener…”, trouxe ao casão o ritmo e a alegria das tardes de Sevilha. Com vozes sincronizadas e um cuidado evidente na construção instrumental, o grupo mostrou versatilidade e domínio de diferentes linguagens musicais ibéricas.

De regresso ao repertório mais conhecido, interpretaram “É o que é”, dos D.A.M.A, surpreendendo pela fusão entre sonoridade alentejana e apontamentos espanhóis. Cada verso foi tratado com detalhe, com as vozes a beberem significado das palavras, criando uma interpretação sentida e tecnicamente exigente — uma junção difícil, mas conseguida.
O campo imaginado e o Alentejo sentido reimaginam um tema
Um dos momentos altos da noite aconteceu com o regresso de Buba Espinho ao palco, para interpretar “Um dia hei de voltar” com o grupo. A canção ganhou uma nova dimensão: entre a maturidade do convidado e a frescura das vozes jovens, nasceu uma versão diferente, inesperada e marcante, com compasso flamenco.

Este é um tema que fica quando se ouve a primeira vez. Em que alguma situação nos remete para ele e ouvimos e ouvimos e repetimos. Um tema que fica, que nos ataca no bom sentido, que fica preso ao coração até porque se fosse traduzido para inglês era uma típica música de country bem americana. Mas evapora-se, pois, voltamos aos temas mais românticos de Buba.
Mas agora com Buba e vozes jovens, foi uma lufada de ar fresco num tema que tem tanto para dar e tanta alegria para transmitir.

Raízes que não se perdem, apenas se redescobrem
Seguiram-se modas que reforçam o ADN alentejano do grupo: “Velho Monte Alentejano”, “É tão grande o Alentejo” e “Rosa Albardeira”, todas interpretadas com respeito pela tradição, mas com uma energia própria de quem a está a redescobrir.
Na reta final, o grupo levantou-se e trouxe o cante em estado mais puro. “Por esses campos fora” ecoou como um manifesto coletivo, com as vozes a projetarem-se em uníssono, preenchendo o espaço com autenticidade.

Um adeus que fica por dentro
O concerto encerrou com “Fui colher uma romã”, apresentado com uma sonoridade próxima da Andaluzia, num registo romântico dedicado “à mulher que eu amo”. Mais uma vez, a ponte ibérica fez-se sentir — natural, fluida, sem esforço.
As Vozes Ibéricas mostraram, em Beringel, que o futuro do cante não está apenas na preservação, mas na capacidade de o viver, transformar e projetar. Vozes jovens, mas já conscientes do peso, e da liberdade, da herança que carregam.





