Os Descendentes no compasso do tempo inesgotável alentejano foi o mote do segundo dia do festival rústico Sabores no Barro, em Beringel, que recebeu um concerto onde tradição e renovação caminharam lado a lado, num equilíbrio raro e sentido.

Uma viagem pela memória e identidade
Entre pedras e pedrinhas, o grupo apresentou-se como uma “gotinha de água” — daquelas que ousamos beber depois de uma longa viagem por campos de verde a perder de vista. E foi precisamente essa viagem que propuseram ao público: uma travessia pela memória e pela identidade, guiada pelo compasso tão próprio do Alentejo.

Um convite a mergulhar numa experiência onde os lugares não se perdem — antes ganham força e sentido, abrindo-se a novas gerações que entram nesta cápsula do tempo e se deixam envolver pelo oceano que é o modo de vida alentejano.

Entre a utopia e a saudade, nostalgia e esperança
A dimensão poética do concerto fez-se sentir logo nas primeiras interpretações. Canções marcadas por uma espécie de utopia emocional, onde nostalgia e esperança coexistem, como na imagem da “casinha onde lá vive o meu amor”. Vários temas com imaginário alentejano de canivete na mão reforçaram essa ligação entre a dureza da vida e o desejo constante de um lugar melhor.

Do clássico ao contemporâneo, a guitarra acompanhou os novos talentos numa fusão de tons que encheu o casão. Em “Menina estás à janela”, o romance entrou no universo do cante e das casas alentejanas, ao mesmo tempo que o sol se despedia e a lua começava a marcar presença, cenário perfeito para a inspiração dos intérpretes.

Já “Rosa à Janela” trouxe uma energia contagiante, com o público a responder com palmas, pés a marcar o ritmo e vozes que se juntaram em coro num espontâneo “la ra la ra”. A interação intensificou-se com o desafio lançado em palco, “Vocês conseguem melhor, vá lá Beringel”, prontamente correspondido, com Beja a quilómetros a fazer-se.

Uma surpresa fora da tradição
Num momento inesperado, o grupo anunciou um tema “que não era moda”, mas que interpretariam como se fosse: “É o que é”, dos D.A.M.A. A escolha trouxe uma nova energia ao recinto, numa espécie de balada coletiva que uniu gerações. “Fizemos tudo sem lei” ecoou como memória dos gestos corajosos que marcam o quotidiano, agora transformados em fragmentos de uma intensidade vivida em Beringel.

Seguiram-se versos como “Quero ir ver a lua, quero ir ver o sol”, numa evocação do tempo — esse mesmo tempo que no Alentejo se vive devagar, mas profundamente. Ao som da guitarra clássica, o concerto foi ganhando um tom mais íntimo, quase confessional.

Histórias que mudam vidas e transformam tradições
Um dos momentos mais marcantes surgiu com a partilha pessoal: “Há três anos atrás conheci estes dois rapazes e a minha vida mudou completamente”. Foi a ponte para “Madrugada Louca”, tema original do grupo que olha para o nascer de um novo dia como oportunidade de recomeço. Uma canção que, à semelhança do próprio Alentejo, se constrói na paciência e na aprendizagem do ontem.

Também houve espaço para revisitar e reinterpretar referências profundamente enraizadas no imaginário alentejano. Antes de “Rosa Albardeira”, o palco recebeu um convidado especial: Buba Espinho juntou-se ao grupo, reforçando a ligação entre diferentes gerações de intérpretes e trazendo ainda mais densidade emocional ao momento.
“Castelo de Beja” evocou a imponência histórica e simbólica da cidade, funcionando quase como um ponto de ancoragem identitária no meio da viagem musical. Mais do que um lugar físico, tornou-se metáfora de resistência e permanência.

Já “Rosa Albardeira” trouxe consigo a delicadeza e a tradição oral, numa celebração das figuras e imagens que atravessam gerações. A interpretação sublinhou a importância de preservar estas narrativas, mantendo-as vivas através de novas vozes.
Vozes que se unem e promessa do regresso do coração alentejano
Por sua vez, antes de “Um dia hei de voltar”, juntou-se ao grupo Duarte Farias, elemento dos Bandidos do Cante, acrescentando uma nova camada de autenticidade e força coletiva ao espetáculo.

“Um dia hei de voltar” carregou então um sentimento de partida e regresso profundamente alentejano. Entre a saudade e a promessa, a canção tocou numa dimensão quase universal: a ligação a uma terra que nunca se abandona verdadeiramente. E pessoas ligadas a essa terra que até já não podem estar entre nós, mas vivem através dos seus. Através da abertura de uma garrafa para ser partilhada em família, de risos de amigos que não se esquecem, das lágrimas da família que de certeza que não se esquece, através do cante a entoar em casões e cafés típicos, do som de um carro parecido. Através da alma do povo e terra que caracterizava essa pessoa.
O concerto terminou com “Carta de despedida”, tema original, onde versos como “Passei à tua janela para te poder ver” e “A chorar à tua ida” encerraram a noite com emoção contida, mas intensa.

Herdeiros de uma herança viva
À saída, pelo portão do casão, a paisagem abria-se em toda a sua imensidão. E ali, de braço dado com o Alentejo, percebia-se melhor a dimensão do que tinha sido vivido: beleza, trabalho, resiliência e luta, condensados num espetáculo que foi mais do que música.
Os Descendentes afirmaram-se, nesta noite, como verdadeiros herdeiros da tradição do cante, capazes de o respeitar sem o cristalizar, de o transformar sem o trair. Herdeiros de uma herança viva, que continua a crescer sempre que encontra quem a saiba escutar.






