10 de Junho: Portugal também se mede no país que fica depois das cerimónias que hoje são levadas a cabo.
O Dia de Portugal devia servir para mais do que discursos bonitos
Hoje é 10 de Junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Um dia que, todos os anos, nos coloca diante da mesma pergunta: que país estamos afinal a celebrar?
Celebramos a história, naturalmente. Celebramos a língua, que atravessou mares, fronteiras, impérios, despedidas e regressos. Celebramos Camões, esse nome maior que o calendário transformou em símbolo nacional. Celebramos também os portugueses que partiram, os que ficaram e os que, mesmo longe, continuam a chamar Portugal de casa.
Ainda assim, há qualquer coisa no 10 de Junho que não devia ficar presa à cerimónia, à bandeira, ao hino e ao discurso bem alinhado. Portugal não é apenas o país que se exibe nas tribunas oficiais. É também o país que acorda cedo, trabalha muito, ganha pouco, espera demasiado e, mesmo assim, continua a acreditar que amanhã pode ser melhor.
A pátria não é uma palavra antiga
Durante muito tempo, falar de pátria pareceu coisa pesada. Quase desconfortável. Como se amar um país fosse, obrigatoriamente, fechar os olhos aos seus defeitos. Não é.
Amar Portugal também é dizer que falhamos. Que tratamos mal quem cuida. Que esquecemos o interior. Que deixamos os jovens sair, muitas vezes sem lhes dar sequer uma hipótese decente de ficar. Que temos talento, mas nem sempre temos estrutura. Que temos memória, mas por vezes falta-nos ambição.
Por isso, o Dia de Portugal devia ser menos postal ilustrado e mais espelho. Não para nos diminuirmos. Pelo contrário. Um país que se olha de frente é um país que ainda acredita em si.
Portugal tem essa estranha capacidade de resistir. Às crises, aos governos, às promessas adiadas, à emigração forçada, à burocracia, ao desencanto. Resistimos com uma teimosia quase poética. Às vezes irritante, é certo. Mas profundamente nossa.
O país real também merece homenagem
Neste 10 de Junho, talvez fosse justo lembrar que Portugal não vive apenas nos grandes nomes da cultura, da política ou da história. Vive também na senhora que abre o café antes do sol nascer. No enfermeiro que dobra turnos. No professor que continua, apesar do cansaço. No artista que cria sem apoios. No agricultor que insiste. No emigrante que envia dinheiro para casa e saudades pelo telefone.
Vive nos bairros, nas aldeias, nas ilhas, nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Vive no sotaque que muda, mas não corta a raiz. Vive nos filhos de portugueses que talvez já não escrevam a língua sem erros, mas ainda se emocionam quando ouvem falar do país dos pais e dos avós.
Esse Portugal também é bandeira. Talvez até mais. Porque é o Portugal que não aparece sempre na fotografia, mas segura muita coisa em silêncio.
Camões, hoje, talvez nos pedisse menos pose
Invocar Camões neste dia faz sentido. Mas talvez devêssemos fazê-lo com menos solenidade automática e mais inquietação. Camões não pertence apenas às frases feitas. Pertence à ideia de um país que se narra, que se procura e que se contradiz.
A grandeza de Portugal nunca esteve apenas no passado. Está, sobretudo, na forma como conseguimos transformar esse passado numa responsabilidade. Não basta dizer que fomos grandes. É preciso perguntar que grandeza queremos agora.
Queremos um país que valorize quem cria? Que cuide melhor dos seus velhos? Que não obrigue os jovens a escolher entre ficar mal ou partir bem? Que respeite a cultura sem a tratar como enfeite? Que olhe para a diáspora sem a usar apenas em dias de festa?
São perguntas simples. Talvez por isso sejam tão difíceis.
Celebrar Portugal é exigir mais de Portugal
Há quem ache que o 10 de Junho deve ser apenas celebração. Eu acho que deve ser celebração, sim, mas também exigência. Porque só se exige de quem se ama. E Portugal merece ser amado sem cegueira.
Merece orgulho, mas não vaidade vazia. Merece memória, mas não nostalgia parada. Merece futuro, mas não discursos repetidos todos os anos com palavras diferentes e consequências parecidas.
Hoje, a bandeira pode estar à janela. O hino pode tocar. As cerimónias podem cumprir o seu papel. Mas, depois disso, fica o país real. O país das rendas altas, dos salários curtos, da cultura resistente, da saúde em esforço, das famílias divididas entre cá e lá fora, dos que ainda acreditam.
E talvez seja aí que o Dia de Portugal ganha verdadeiro sentido.
Não no orgulho fácil de dizer que somos portugueses. Mas na coragem mais difícil de perguntar que Portugal estamos a construir.
Porque Portugal não é apenas aquilo que herdámos. É aquilo que fazemos com essa herança.
E, hoje, 10 de Junho, talvez a melhor forma de celebrar o país seja esta: amá-lo o suficiente para não desistir dele.

