O país arde e nós fazemos scroll, dia-a-dia, hora-a-hora, momento após momento, quase num ritmo frenético e cheios de pressa.
Não sei em que momento é que nos habituámos a isto. E nem estou a falar apenas dos incêndios, embora julho volte a trazer-nos aquele cheiro a fumo que já quase faz parte do calendário português. Triste calendário, diga-se. Falo de tudo, da velocidade, da forma como saltamos de uma coisa para outra sem sequer darmos tempo à primeira para assentar. Acordamos, pegamos no telemóvel e começa o desfile. Há fogo, há futebol, há uma guerra, há alguém que se separou, há uma expulsão num reality show, há um festival, há um escândalo, há um restaurante novo que toda a gente parece já conhecer menos nós. Tudo isto antes do café. No meu caso, um café duplo e sem açúcar. E o mais estranho é que já nem é estranho.
Fazemos scroll. Um bombeiro está de costas para uma parede de fogo, depois surge um jogador que marcou um grande golo, logo a seguir alguém publica um texto muito emocionado sobre a importância de desligarmos das redes sociais, publicado, evidentemente, nas redes sociais. Um casal acabou, outro começou, uma casa ardeu, uma celebridade mudou de visual. E eu não sei se o problema está no telemóvel, em nós ou neste estranho acordo coletivo de que tudo tem de ser rápido, consumível e, de preferência, substituído dentro de cinco minutos.
Também eu faço scroll
Sei, isso sim, que estou metido nisto até ao pescoço. Não vou fazer o papel do homem que observa o mundo de uma varanda, com um livro numa mão e um copo de vinho na outra, enquanto lamenta a decadência da civilização. Também faço scroll, também quero saber, também abro notícias que provavelmente não precisava de abrir. E, pior ainda para qualquer tentativa de superioridade moral, dirijo um meio de comunicação social. Portanto, não estou propriamente em posição de fingir que esta realidade me é alheia.
No Infocul.pt by ARDglobal escrevemos sobre aquilo que acontece. Televisão, música, cultura, gastronomia, turismo, futebol, pessoas. Tudo aquilo que faz parte da vida, para o bem e para o mal. E não vejo qualquer pecado nisso. Nunca entendi essa ideia de que a cultura é séria, o futebol é menor e a televisão popular deve ser vista às escondidas, como quem come chocolate depois da meia-noite. Gosto de música, gosto de televisão, gosto de futebol, gosto de uma boa mesa e de conversas que não resolvem absolutamente nada. A vida também é isso.
E, naturalmente, gosto do oposto: de conversas profundas, de pessoas capazes de emocionarem e emocionar-se e momentos que nos marcam para sempre. “Sempre” é daquelas palavras que por mim deixavam de existir.
O problema é outro. O problema é quando uma casa a arder e uma fotografia de férias começam a ter exatamente o mesmo peso dentro de nós. Dura um segundo, talvez dois, e segue.
Portugal voltou a arder. E já conhecemos demasiado bem as imagens
Portugal voltou a arder. Esta frase já nem impressiona e é esse o pior. Escrevemos isto tantas vezes que quase parece uma rubrica de verão. Há o Algarve cheio, os festivais, os aeroportos, as noites quentes e os incêndios. Não devia ser assim. Não pode ser normal olhar para uma estrada cercada de fogo e pensar apenas: outra vez. Mas pensamos. Eu penso. E custa-me admitir isso.
As imagens chegam e já conhecemos a sequência. Os carros de bombeiros, os populares aflitos, as mangueiras que parecem pequenas demais, os animais retirados à pressa, o rosto de quem não dorme há demasiado tempo. Depois começam as perguntas. O que falhou? Quem falhou? Havia meios? Não havia? A prevenção foi feita? Quem devia ter feito? E, durante alguns dias, parece que o país inteiro descobriu novamente que no verão há incêndios. Depois passa, até deixar de passar, até ser connosco.
Essa é outra verdade pouco simpática. As tragédias dos outros comovem-nos, claro, mas têm uma distância confortável. Acompanhamos, lamentamos, partilhamos uma imagem, escrevemos “força” e continuamos o dia. Quando o fogo entra na nossa rua, a teoria acaba. Aí já não há algoritmos. Há medo. E o medo é muito mais honesto do que grande parte das coisas que dizemos.
O futebol, a festa e o direito a continuar a viver
Ao mesmo tempo que o fogo ocupa o país, há um Mundial de futebol a ocupar o mundo. E ainda bem. Sim, ainda bem. Não vejo contradição nenhuma em sofrermos por aquilo que merece sofrimento e gritarmos por um golo meia hora depois. A vida nunca foi organizada por departamentos. Quem está de luto ri-se, quem está feliz chora, quem passou um dia horrível pode chegar a casa e ver um programa absurdo na televisão. E talvez seja precisamente disso que precisa.
Nunca gostei da polícia da tristeza, daqueles que decidem quanto tempo cada um deve sofrer e com que expressão deve aparecer em público. A minha inquietação não é essa. Não quero um país em silêncio porque há incêndios. Também não quero festivais cancelados por culpa coletiva. Não quero que ninguém peça desculpa por ir à praia, rir, cantar ou ver futebol. Quero apenas que não nos tornemos indiferentes. Parece pouco, mas talvez já seja pedir bastante.
Porque o Mundial ainda consegue uma coisa curiosa: parar-nos. Durante noventa minutos, ficamos ali. Discutimos um passe como se dele dependesse o futuro da Pátria, insultamos um árbitro que, provavelmente, não tem culpa de metade do que lhe atribuímos e tornamo-nos treinadores, fisioterapeutas e especialistas em pressão alta. Mas estamos ali, a ver a mesma coisa. Num tempo em que cada pessoa recebe um mundo feito à medida das suas preferências, ainda há acontecimentos que nos obrigam a partilhar o mesmo ecrã.
Depois o jogo acaba e voltamos ao polegar. É aí que tudo se mistura. O fogo, o golo, o concorrente que discutiu, o cantor que emocionou um festival inteiro, a família que perdeu uma casa, a influencer que está em Santorini. Tudo no mesmo quadrado luminoso. Às vezes pergunto-me se estamos informados ou simplesmente cansados.
Sabemos tudo sobre toda a gente. Ou achamos que sabemos
Sabemos tanta coisa. É espantoso. Sabemos onde as pessoas jantam, com quem namoram, para onde viajam, quanto emagreceram, quem deixaram de seguir e quem voltaram a seguir. Nesse sentido, também sabemos os casais antes dos casais saberem que são casais e sabemos das separações antes da última discussão acabar. Sabemos tudo. Ou achamos que sabemos. Depois sentamo-nos à mesa com alguém que conhecemos há vinte anos e perguntamos “então, novidades?”, enquanto espreitamos uma notificação. Há qualquer coisa de profundamente cómico nisto. E também triste.
Não vou fingir que antigamente era tudo melhor. Não era. Também não tenho paciência para essa nostalgia em promoção permanente. Antigamente havia outras formas de indiferença, outras crueldades, outros silêncios. A diferença é que hoje temos o mundo inteiro na mão e, mesmo assim, às vezes parece que não agarramos nada. Talvez seja excesso. Comemos imagens o dia inteiro. Já nem mastigamos.
E aqui entra também a responsabilidade de quem faz informação. A nossa. A minha. Há dias em que abrimos uma redação digital e parece uma sala de máquinas. Números, cliques, alcance, tempo de leitura, Google, Facebook, Instagram. Descobrir o que interessa ao público, antecipar o que pode funcionar, perceber onde está a atenção. Não vou ser hipócrita: tudo isso importa. O Infocul.pt by ARDglobal não existe para falar sozinho. Queremos leitores, queremos crescer, queremos que o nosso trabalho chegue mais longe.
Crescer, sim. Mas chegar a mais pessoas para quê?
Há uma pergunta que me tem surgido mais vezes: chegar a mais pessoas para quê? Não é uma pergunta contra o crescimento. É uma pergunta a favor do sentido. Podemos ter milhares de visualizações e não tocar verdadeiramente em ninguém. Podemos publicar vinte notícias num dia e, no fim, não deixar uma única ideia para o dia seguinte. E podemos também, de vez em quando, escrever alguma coisa que faça alguém pousar o telemóvel durante um minuto.
Um minuto chega. Já não sou ambicioso.
Há uns anos talvez quisesse mudar o mundo. Hoje ficava satisfeito se conseguíssemos interromper o scroll. Olhe, pare, veja isto, pense nisto, não concorde comigo, até. Mas fique aqui um instante.
É por isso que me incomoda a facilidade com que o fogo se torna paisagem. O fogo não pode ser paisagem. Uma casa não é um número, uma aldeia não é um rodapé de televisão, um bombeiro não é apenas aquela figura heroica que partilhamos durante agosto e esquecemos quando chega outubro. Há vidas depois das imagens. Esse é talvez o maior problema do ecrã: a imagem acaba, mas a vida de quem ficou lá continua. Nós é que já estamos noutra.
Num resultado, numa polémica, num concerto. E volto a dizer: não há mal nenhum no concerto, nem no futebol, nem sequer no reality show, por muito que algumas pessoas gostem de dizer que nunca veem enquanto sabem perfeitamente o nome de todos os concorrentes. A vida precisa de distração, precisa de leveza. Eu preciso. Todos precisamos. Só não sei quando é que a leveza passou a ser pressa. E são coisas diferentes.
Talvez nos tenhamos habituado demasiado à palavra «seguinte»
Este julho está cheio. Cheio de música, futebol, televisão, viagens, calor, festas e fogo. Muito fogo. Talvez o retrato do nosso tempo esteja precisamente aí. Somos capazes de ver tudo ao mesmo tempo. O que ainda não percebi é se continuamos capazes de sentir cada coisa no seu devido lugar.
Não tenho resposta. E ainda bem. Os editoriais que trazem respostas para tudo sempre me pareceram ligeiramente suspeitos. Tenho apenas esta sensação incómoda de que nos habituámos demasiado à palavra “seguinte”.
Seguinte notícia, seguinte vídeo, seguinte tragédia.
O país arde e nós continuamos a deslizar o dedo. Eu também. E talvez seja precisamente por isso que escrevo isto: para ver se, pelo menos hoje, o paro durante um bocado.
Cuidem-se, cuidem dos vossos e não transformem um amigo num estranho. Até Agosto, meus caros.
