2 Pares de Botas: Nena e Joana Almeirante encontram-se na estrada das canções country, ontem e hoje, no Teatro Maria Matos. Trazendo um estilo musical que, inovadoramente, começa a ser explorado no nosso país.
Texto: André Nunes
Fotografias: Carlos Pedroso

Um género que é território de histórias, onde cada canção é uma vida contada
No projeto “2 Pares de Botas”, as duas cantoras saem do seu registo mais pop e mergulham de corpo inteiro no universo do country, um género onde descobriram um amor em comum.

O country é, por excelência, um território de histórias e storytelling: canções que pintam paisagens, que seguem personagens, que contam vidas inteiras em poucos minutos. É música impregnada de narrativa, de detalhe, de emoção dita sem pressa. Como disse Joana Almeirante no concerto, “conta uma vida toda numa só canção”.
Talvez seja mesmo um dos géneros onde o storytelling mais vive e respira, a par de outros como o heavy metal, tantas vezes inspirado por universos mitológicos nomeadamente o nórdico, ou até Cante Alentejano, onde a tradição também se constrói em forma de história cantada e conto de histórias do quotidiano do trabalho e das tascas/tabernas (os saloons do Alentejo).

Há uma imagética muito forte neste cenário country, porta de saloon, como nos filmes, por onde entram histórias de pancadaria, de confronto, mas também de nostalgia. Uma nostalgia de um tempo que imaginamos mais simples, mais livre, quase sem regras. Somos convidados a entrar e a sair, como quem atravessa um horizonte, e os convidados entram e saem por essa linha do horizonte western face a duelos épicos musicais.

Origens de um western: entre Fleetwood Mac e salões de cabeleireiro
Há canções que unem, como “Landslide” dos Fleetwood Mac, que nasceu quase por acaso numa conversa entre as duas, quando descobriram este gosto comum pelo country, inesperado para a idade segundo as próprias.

São canções de coração aberto, feitas de saudade, de recomeços, de coisas que se partem mas também se refazem. O country é isso mesmo.
E depois há a personagem que só se ouve neste espetáculo, a Tânia, que foi crescendo, descobrindo quem é, quem quer ser. Porque a vida é mesmo isso: quedas e reergueres. E talvez seja por isso que é tão bonita.

O espetáculo, quase dividido por capítulos, vai dando este impulso à narrativa de Tânia como se fosse uma letra country transversal ao espetáculo, mas em prosa e sobre amores e desamores que surgem desde a pré-adolescência. Na fase dos 22 anos, Tânia tem um desgosto e diz: “Aos 22 anos, às vezes parece que a vida se desfaz mas, na verdade, isso também faz parte do caminho”.
O concerto constrói-se como uma viagem narrativa, dividida em capítulos como se fosse um filme ou um diário partilhado, e sabemos mais sobre Tânia e sobre o salão onde mudava o cabelo face às adversidades, apenas para se encontrar a ela própria. Para saber quem é, bem ao gosto do country que ouvimos.

Capítulo 1: Arranque ao Pôr do Sol
Os primeiros temas trazem uma energia leve e curiosa. Há um lado de procura, com relações, dúvidas e passos pequenos (“Passo a Passo”).
Para iniciar, ficamos com o primeiro de dois temas exclusivos do grupo: “Diz-se aí”. Em que com musicalidade americana, contam a história de um encontro de duas personagens: ele, que já armou tantos fogos, e ela, recheada de balas. Mas tudo serviu para os destino os juntar ali, naquele momento, ao olfato e paladar de copos de vinho.

“Redneck Woman” introduz esse mergulho assumido no imaginário country, com atitude e algum humor. É o início da estrada. Ao pôr do sol.
Capítulo 2: No Saloon das Confissões
Aqui o concerto ganha profundidade emocional. “Jolene” e “Landslide” puxam pela herança clássica do country/folk, são canções de fragilidade, ciúmes, crescimento.
“Dois Corações Partidos” junta-se a essa dor bonita: fala de perda, mas também de memória. É o momento mais despido, onde o público se reconhece.

“Lembras-te de Mim?” vive de uma matéria muito simples, mas profundamente humana: a memória, a distância e as perguntas que ficam por fazer. A canção parte de um detalhe concreto, uma amiga de infância, um encontro inesperado com o passado, para abrir um espaço emocional mais vasto, onde cabem todas as versões de nós que já fomos e todas as pessoas que deixámos pelo caminho.
É precisamente aqui que a canção se aproxima do universo do country. Tal como nas grandes narrativas do género, há um ponto de partida real e reconhecível que se transforma em emoção universal. No fundo, “Lembras-te de Mim?” funciona como uma canção country disfarçada: uma reflexão sobre o que ficou para trás e sobre a distância entre quem fomos e quem somos, onde a estrada continua sempre, mesmo depois da última nota.

Entra Bárbara Tinoca com coldre musical repleto de munições
“Estamos profundamente felizes, e gratas, por todas as pessoas que têm feito parte destas partilhas ao longo do caminho.
Este é um capítulo final. São os dois últimos concertos desta tour, e despedimo-nos da melhor forma, aqui em Lisboa, convosco. Obrigada por estarem desse lado, mais uma vez.

E para fechar como merece, vamos partilhar o palco com uma artista que ambas admiramos muito, uma das maiores vozes que temos em Portugal. Lançámos-lhe o desafio de cantar uma canção de Dolly Parton.
Para quem não conhece tão bem: a Dolly Parton é uma das maiores compositoras de sempre, com mais de três mil canções escritas. E há um detalhe incrível, no mesmo dia escreveu dois clássicos absolutos: “Jolene” e “I Will Always Love You”.
Por isso, não podíamos deixar de vos apresentar, incrível, maravilhosa, uma das melhores artistas que temos, recebam connosco: Bárbara Tinoco”, introduz Joana Almeirante. E entra Bárbara Tinoco. Tinoco aparece de chapéu, num gesto simples que diz tudo. No final, levanta-o em respeito, quase como um aceno de cowboy, em forma de agradecimento e admiração.

Capítulo 3: Casa no Fim da Viagem
O último bloco é de libertação e celebração em que o público não conteve o bater dos pés e palmas mais fortes ainda. “Por Meu Pé” e “Mulher dos Teus Sonhos” trazem afirmação pessoal, identidade construída depois da queda tal como a Tânia.
Com a surpresa de João Só, o concerto abre-se ao coletivo, ao jogo e à cumplicidade em palco. Só também estaria no concerto de dia 29 mas não pode pois irá substituir Joana Almeirante como guitarrista num concerto de Miguel Araújo. E Almeirante brincou com a situação: “o Miguel Araújo precisava de uma rapariga gira que tocasse guitarra então pediu ao João. Não tem patrocínio da Zara por isso vai ser complicado”. Ao que Só respondeu: “e alguém com voz fina também”.

Levem-me para casa, estradas do e no country
“Country Roads” transforma a sala inteira numa só voz, pertença, casa, nostalgia partilhada. O “hino da música country” como as artistas disseram.
Porque o country, no fundo, fala sempre de regresso. porque depois de tudo, das histórias contadas, das feridas abertas, das memórias revisitadas, o country oferece um lugar onde pousar. Um sítio emocional onde tudo pode ser dito sem pressa e sem filtro.
E há outra coisa: o country transforma experiências muito específicas em algo universal. Aquilo que parece só de quem canta passa a ser de quem ouve. E nesse momento, essa “casa” deixa de ser individual, passa a ser partilhada.

E o fecho, “Highlight of My Life”, deixa essa sensação de memória boa, quase como um postal emocional: estivemos aqui, juntos, e isto ficou. Sente-se a melancolia e a memória boa também. Num concerto como “2 Pares de Botas”, isso sente-se ainda mais: o caminho faz-se a duas vozes, mas o destino é coletivo. A “casa” é ali, naquele instante, com toda a gente dentro da mesma canção.

Um final sempre em festa que nos deixa a pensar em algo mais: gostaríamos de ver este projeto em salas de espetáculo com plateia em pé ou festividades locais com grande público, para que o espirito do country flutue ainda mais facilmente pelo nosso imaginário, comunidade, comunhão e corpos a abanar ao som do estilo musical que transforma vidas.
Alinhamento — “2 Pares de Botas” – Teatro Maria Matos
Capítulo 1
1. Diz-se Aí
2. Mera Ilusão
3. Passo a Passo
4. Redneck Woman
Capítulo 2
5. Croquetes
6. Jolene (ft. Bárbara Tinoco)
7. Sei Lá (ft. Bárbara Tinoco)
8. Landslide
9. Dois Corações Partidos + Lembras-te de Mim
Capítulo 3
10. Mulher dos Teus Sonhos
11. Por Meu Pé
12. You’re Só Vain (ft. João Só)
13. Sorte Grande (ft. João Só)
14. Take Me Home, Country Roads
15. Portas do Sol
16. Highlight of My Life





