Vizinhos conquistam Setúbal com concerto revigorante no Fórum Luísa Todi , na noite de ontem, com lotação esgotada.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: André Nunes

Os Vizinhos subiram ontem ao palco do Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, para um concerto que esteve longe de ser apenas mais uma data na agenda. Foi, acima de tudo, um momento de ligação rara entre banda e público, feito de canções que já não pertencem só a quem as escreveu.

Ao longo da noite, a sensação foi clara: ninguém estava ali apenas para ouvir. Estavam para reconhecer. E sentir.
Porém, também para divertir. E não foi pouco.

De Évora para palcos maiores, mas sem perder a raiz
O percurso dos Vizinhos não começou em grandes salas nem em estratégias bem definidas. Começou no Grupo Académico Seistetos da Universidade de Évora, onde tudo se cruzou pela primeira vez.
Esse início continua presente. Nota-se na forma como a banda se posiciona em palco, sem pressa e sem necessidade de provar demasiado. Há uma naturalidade que não se constrói — mantém-se.

Na verdade são 4 bons malandros, anormalmente naturais em palco, para os tempos atuais em que parece tudo fabricado a régua e esquadro. Eles são diferentes, e ainda bem.
E talvez seja isso que explica o crescimento consistente que têm vindo a mostrar, com dois Coliseus já marcados para novembro, em Lisboa e no Porto, sem que isso soe forçado.

Um alinhamento que cruza tradição, humor e identidade
Logo nos primeiros momentos, “Pobre ex-namorado” definiu o tom da noite. Um tema assumidamente leve e divertido, mas que carrega aquele desconforto subtil que transforma humor em identificação imediata.
Depois, “Os guardas bateram” trouxe um contraste claro. Uma moda alentejana que entrou com peso e tradição, lembrando que o repertório dos Vizinhos não vive apenas do contemporâneo. Apenas renovam a tradição para a sua musicalidade.

Essa ligação voltou a surgir em “Não é tarde nem é cedo”, também ela uma moda alentejana, onde o ritmo abranda e o tempo parece alargar-se dentro da sala.
Pelo meio, houve espaço para revisitar “Sentir o sol”, tema de Os Quatro e Meia, numa escolha que reforça o diálogo constante da banda com outras linguagens e influências da música portuguesa.

Canções que já pertencem ao público
Se houve momento de verdadeira comunhão, foi com “Pôr do sol”. O tema confirmou aquilo que já se tem visto noutras salas: não é apenas uma música popular, é um ponto de encontro.
A reação foi imediata e coletiva, sem necessidade de incentivo. O público entrou sozinho, como quem já sabe o caminho.

Também “Já não saio”, originalmente gravada pelos Vizinhos com os Átoa, trouxe esse lado de reconhecimento. Uma canção que se constrói mais pela memória do que pelo impacto imediato.
E é precisamente aí que a banda ganha força — na repetição que não cansa.

Entre histórias pessoais e ligações futuras
“Maria”, tema associado ao universo do grupo Seistetos, trouxe uma dimensão mais emocional, quase nostálgica, funcionando como ponte entre o passado e o presente da banda.
Já “Romance de Balcão” revelou um dos lados mais expostos do repertório. Um retrato de relações imperfeitas, onde não há idealização, mas sim uma proximidade desconfortavelmente real.
Ao longo do concerto, surgiram também referências ao Brasil, onde a banda já estabeleceu ligações com músicos locais. Existem, segundo revelaram, três a quatro temas desenvolvidos nesse contexto, ainda por editar.
Esse detalhe aponta para uma expansão natural, sem ruptura com a identidade construída até aqui.

Uma banda que funciona como coletivo
Em palco, a dinâmica é clara. Parecem um puzzle onde todas as peças encaixam-se sem esforço e isso chega ao público.
Os quatro elementos mantêm uma relação de partilha evidente, sem protagonismos forçados, permitindo que as canções ocupem o espaço central.
Porém, tempo ainda para contarem histórias mais pessoais, mesmo que envolvam discotecas, peculiariedades dos jovens, entre outros assuntos.
Não há pressa em avançar, nem necessidade de preencher todos os momentos. E essa contenção joga a favor da experiência.
“Na próxima vida”, “Casar é para esquecer” foram também duas canções que integraram o alinhamento.

Setúbal confirmou o momento da banda
À medida que o concerto avançava, tornava-se evidente que não se tratava apenas de um bom espetáculo. Era um reflexo de um percurso que tem vindo a consolidar-se sem ruído excessivo.
Os Coliseus, marcados para novembro, surgem como consequência lógica desse caminho. Não como salto, mas como continuação.

Um concerto que ficou para além do palco
O concerto terminou sem necessidade de um grande clímax final. Não houve um momento isolado que resumisse tudo — houve continuidade.
E talvez seja isso que define melhor a noite.
Os Vizinhos não apresentaram apenas um alinhamento de temas. Criaram um espaço onde o público entrou e permaneceu, sem pressa de sair.
No final, ficou uma sensação difícil de traduzir em palavras, mas fácil de reconhecer: durante aquelas quase duas horas, ninguém esteve sozinho.
E saímos todos de lá mais leves. Porque as boas almas quando se juntam tornam os momentos especiais. E ontem foi especial, com uma vizinhança do caraças!
A música – tal como o amor – podem ser duas das terapias mais eficientes na vida. É abrir o coração e seguir viagem. Haverá sempre um pôr-do-sol por apreciar e um lugar à mesa para quem amamos.





