Lisboa tremeu com os 5 Seconds of Summer: receção sísmica das gerações que cresceram com a banda 

Lisboa tremeu com os 5 Seconds of Summer: receção sísmica das gerações que cresceram com a banda, de fazer o chão e paredes do MEO Arena tremerem, num concerto que ficou para a história. 

Texto: André Nunes
Fotografias: MEO Arena

Romper os padrões

Na noite de 3 de maio, o MEO Arena recebeu muito mais do que um concerto. Os 5 Seconds of Summer trouxeram a Everyone’s a Star! World Tour com um conceito claro: isto não é só música, é narrativa, ironia e auto-consciência.

Com um palco que só se pode descrever como espetacular, a banda ocupou praticamente toda a primeira metade da plateia com uma espécie de passerelle musical. Ao centro, um dos momentos visuais mais marcantes: a bateria colocada em cima de um muscle car, envolvida por um grande ecrã LED que dominava o espaço.

Logo desde o início, percebeu-se que isto não ia ser um concerto convencional.

Um concerto em forma de mockumentary

O espetáculo foi dividido em vários atos, estruturados como um falso documentário. No arranque, é dito ao público que esta seria a última prestação da banda, mas rapidamente se percebe o tom: estamos perante uma sátira e bom humor.

Ao longo do concerto, os próprios membros constroem uma narrativa em que se comparam, com ironia, a figuras como os Beatles ou até Jesus, enquanto encenam uma separação fictícia descoberta através de um site de fofocas de celebridades. A crítica é clara, e eficaz, ao sensacionalismo mediático e à forma como estas bandas são muitas vezes retratadas.

Mas não fica por aí.

Há também espaço para gozar com a própria imagem:
— o clássico “you are so perfect” adaptado ao público;
— as fitas no cabelo;
— os saltos com guitarra;
— toda a estética associada às boybands/pop-rock da década passada.

Os 5SOS não fogem ao estereótipo, desmontam-no em palco e com muitos risos.

A nova era: mais do que nostalgia

A digressão Everyone’s a Star! marca uma fase mais madura da banda, tanto na sonoridade como na mensagem. Se os primeiros anos foram marcados por uma energia pop-punk direta e quase despreocupada, hoje há espaço para temas mais introspectivos: ansiedade, identidade, a pressão da exposição constante.

Ainda assim, o concerto não abdica da nostalgia. Temas como She Looks So Perfect ou Youngblood continuam a funcionar como pontos de catarse coletiva, enquanto as músicas mais recentes introduzem uma camada emocional mais densa.

O equilíbrio é claro: não renegam o passado, mas também não ficam presos a ele.

Um espetáculo feito de proximidade

Se há algo que distingue os 5 Seconds of Summer ao vivo é a forma como constroem relação com o público. Mais do que um espetáculo altamente coreografado, o concerto vive da interação.

Entre músicas, os momentos de conversa são constantes, espontâneos, descontraídos, muitas vezes caóticos, e ajudam a criar uma sensação de proximidade rara numa sala desta dimensão.

Visualmente, a produção acompanha a escala da digressão: jogo de luzes dinâmico, ecrãs que amplificam emoções e uma energia constante que nunca deixa o ritmo cair. Ainda assim, o foco mantém-se na banda e na ligação direta com quem está à frente.

O público como protagonista

Talvez o elemento mais interessante da noite não esteja no palco, mas na plateia.

O público dos 5SOS é um caso de estudo: uma base de fãs que nasceu nas redes sociais, que se organizou digitalmente e que agora ocupa fisicamente espaços como o MEO Arena com uma intensidade difícil de replicar.

Há cartazes com referências a álbuns antigos, há coreografias improvisadas, há letras gritadas em uníssono e há, acima de tudo, uma sensação de pertença.

Aqui, todos são estrelas. Não apenas por força do nome da digressão, mas porque o concerto é, em grande parte, construído por quem o vive cá em baixo.

Guia turístico à moda dos 5SOS conquista Lisboa com humor e cumplicidade

Neste momento do concerto, os 5 Seconds of Summer mostraram um lado descontraído e cúmplice, ao brincarem com o público português através de um “Lisbon Takeover” projetado no ecrã. 

Entre sugestões caricatas como observar pássaros na Praça do Comércio, passear por Alfama ou “hidratar” com várias ginjinhas, a banda criou uma espécie de guia turístico humorístico, claramente pensado para arrancar gargalhadas. 

O tom irónico, especialmente na parte em que pedem para o público “ficar triste por ser o último concerto na Europa, mas lembrar-se do poder das estrelas”, reforçou a ligação emocional com os fãs, mostrando que, mais do que um espetáculo musical, havia ali um jogo constante de proximidade e cumplicidade com quem estava na plateia.

Quando a nostalgia explode

Se o conceito é sofisticado, a resposta do público é visceral.

“I’m Not Okay” levou o MEO Arena a níveis de decibéis difíceis de medir, um daqueles momentos em que a banda praticamente desaparece e a sala toma conta do concerto.

E depois há o momento de maior cumplicidade irónica da noite.

Em “She’s Kind of Hot”, a banda admite em tom de brincadeira aquilo que todos sabem:
o público quer “merda velha”. E eles vão dar. Sem rodeios. E dão mesmo.

Porque, no fim, há uma regra simples: dão ao público aquilo que ele quer, e fazem disso parte do espetáculo.

Entre a sátira e a emoção

Apesar do tom humorístico e meta, há momentos em que o concerto abranda e deixa espaço para algo mais honesto. No final do mockumentary, antes do encore, surge uma das frases mais fortes da noite:

“Bandas reais salvam fãs. Fãs reais salvam bandas.”

É um momento inesperadamente melancólico e talvez o mais verdadeiro de todo o espetáculo.

Logo a seguir, o ambiente volta a subir. O público, já completamente entregue, transforma o espaço num coro coletivo com direito a momentos espontâneos como o grito em português “esta merda é que é boa”, que antecede o encore (“Everyone’s a Star” e “Youngblood”). 

Uma banda que ficou

De todas as bandas que surgiram na década passada, os 5 Seconds of Summer são dos poucos que se mantêm. Sobreviveram à vaga inicial, à saturação do género, e até à concorrência direta de nomes como os One Direction ou os Jonas Brothers, estes últimos presos num ciclo constante de separações e regressos.

Mas o que distingue os 5SOS não é apenas resistência.

É a capacidade de se reinventarem sem perderem identidade. De olharem para o que foram, e fazerem disso matéria-prima para o que são agora e ainda conseguirem fazer pouco de si próprios.

Mais do que um concerto

O concerto em Lisboa foi, acima de tudo, um exercício de consciência, artística e geracional.

Mais do que qualidade musical, os 5 Seconds of Summer afirmam-se como uma espécie de referência emocional para quem cresceu com eles. Um lembrete de que podemos revisitar as caixas onde fomos colocados, e decidir o que fazer com elas. Tirando partido delas ou sair delas completamente. 

Ficar dentro. Sair. Ou, como a banda parece sugerir, levar o melhor de ambos os lados.

Mesmo quando o fim é anunciado.

Porque, naquela noite no MEO Arena, o fim nunca foi realmente o ponto. Eles estão apenas a começar, e foram inspiração para todos nós olharmos para os dias como o primeiro dia das nossas vidas. Primeiro passo para tudo o resto, e que seja épico pois “todos somos estrelas”. 

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