Moura Caetano, Miguel Moura e António Telles analisam as lides na Moita: entre touros com “teclas”, resposta do público e vontade de afirmação, em entrevistas ao Infocul.
Entrevista e Fotografia: Diogo Nora
Texto: Rui Lavrador
𝗢𝘀 𝘁𝗿ê𝘀 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗲𝗶𝗿𝗼𝘀 𝗳𝗶𝘇𝗲𝗿𝗮𝗺 𝗼 𝗯𝗮𝗹𝗮𝗻ç𝗼 𝗱𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲
Depois da corrida realizada na Moita, integrada na Feira de Maio, João Moura Caetano, Miguel Moura e António Ribeiro Telles falaram ao Infocul sobre as respetivas atuações.
Reportagem da corrida: Um enorme Miguel Moura e um bom Moura Caetano marcaram a corrida da Feira de Maio na Moita
As três entrevistas ajudaram a completar a leitura da corrida. Moura Caetano destacou as dificuldades colocadas pelos dois touros e anunciou uma encerrona no final da temporada. Miguel Moura considerou positiva a sua prestação e sublinhou a resposta do público. Já António Telles assumiu frustração, mas voltou a defender a necessidade de “dar a cara”, mesmo diante de touros duros.
Foi, por isso, uma ronda de balanços diferentes. Cada cavaleiro olhou para a sua tarde a partir do que teve pela frente e daquilo que conseguiu construir em praça.
𝗠𝗼𝘂𝗿𝗮 𝗖𝗮𝗲𝘁𝗮𝗻𝗼: “𝗨𝗺𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝗱𝗼𝗶𝘀 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼𝘀 𝗰𝗼𝗺 𝘁𝗲𝗰𝗹𝗮𝘀”
João Moura Caetano começou por classificar os seus dois touros como animais diferentes e com dificuldades próprias. O cavaleiro explicou que o primeiro touro teve momentos iniciais de interesse, mas acabou por se prender às tábuas.
“Olha, uma tarde com dois touros com teclas, touros diferentes. O primeiro, um touro com muito trapio, que começou ali de bem e depois arrastou-se, foi para tábuas. Teve momentos que me deixou estar a gosto, depois foi para as tábuas e tive que tirar outro tipo de toureio aí para lhe dar a volta.”
Apesar das dificuldades, Moura Caetano reconheceu que esse primeiro touro lhe deu algum prazer do ponto de vista técnico.
“Depois, foi um touro que me deu o gozo andar com ele, em termos técnicos.”
Sobre o segundo, apontou uma complicação concreta: a falta de continuidade depois dos ferros. Segundo explicou, o touro alternava entre arrancar à carga e ficar parado, o que obrigou a uma abordagem mais controlada.
“O segundo era um touro com umas teclas complicadas porque, a seguir ao ferro, não tinha galope. Ou andava à carga ou estava parado.”
O estado do piso também condicionou a gestão das montadas. Moura Caetano referiu que não era possível largar os cavalos por completo, tendo de manter sempre algum apoio.
“E depois, com o piso um bocadinho duro, nós não podemos largar os cavalos completamente. Tinha que ir sempre apoiado e então ele deu-me ali o que fazer a seguir ao ferro.”
Ainda assim, o cavaleiro fez um balanço positivo da atuação, destacando a forma como ele e a quadrilha acabaram por resolver a lide.
“Mas com o cavalo Campo Pequeno, acho que com os dois ou três ferros bons, em seu sítio e reunidos. E no final, pudemos com ele, eu e a quadrilha. Portanto, acho que foi uma tarde positiva.”
𝗢 𝗽𝗮𝗽𝗲𝗹 𝗱𝗲 𝗖𝗮𝗺𝗽𝗼 𝗣𝗲𝗾𝘂𝗲𝗻𝗼 𝗲 𝗚𝗮𝗹𝗹𝗼
Questionado sobre a importância dos cavalos Campo Pequeno e Gallo na segunda lide, João Moura Caetano explicou que cada um teve uma função diferente.
Sobre Campo Pequeno, sublinhou que é uma montada que gosta de tourear com outro ritmo, mais pausado. Ainda assim, respondeu bem no momento da cravagem.
“Olha, o Campo Pequeno é um cavalo que gosta de tourear devagarinho. Portanto, é o contrário deste touro. Mas, no momento do ferro esteve muito bem.”
O cavaleiro acrescentou que o cavalo conseguiu resolver uma situação que não era a mais favorável ao seu registo.
“Acho que bateu no sítio certo e arqueou-se com os três ferros bons. Eu, por trás, gosto de lidar e de ladear e de fazer coisas bonitas aos touros. E este não permitia esse tipo de toureio aí.”
Ainda assim, valorizou a qualidade da montada.
“Mas ele, como é tão bom, conseguiu resolver a papeleta na mesma.”
Já Gallo foi descrito como um cavalo mais adequado a momentos de luta e de imposição diante de touros difíceis.
“O Gallo é um cavalo mais de luta, mais de poder contra os difíceis. E depois, quando entrou, o touro também já estava no bolso. E teve uma vida mais facilitada.”
𝗠𝗼𝘂𝗿𝗮 𝗖𝗮𝗲𝘁𝗮𝗻𝗼 𝗮𝗻𝘂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗲𝗻𝗰𝗲𝗿𝗿𝗼𝗻𝗮 𝗻𝗼 𝗳𝗶𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗮 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼𝗿𝗮𝗱𝗮
A conversa com João Moura Caetano terminou com uma novidade relevante. No ano em que assinala 20 anos de alternativa, o cavaleiro fez um balanço feliz do percurso e agradeceu o apoio do público.
“Olha, o balanço é muito feliz pelo que tenho conseguido. E agradecido a todo o público pelo apoio que me tem dado nos momentos bons e maus.”
Sobre a temporada, revelou que tem já um número significativo de corridas contratadas e que pretende aproximar-se das 50 atuações.
“Esta é uma temporada em que já temos 40 e muitas corridas contratadas. Vamos tentar. É muito difícil hoje em dia, mas vamos tentar chegar às 50.”
Depois, deixou a notícia em primeira mão ao Infocul.
“E posso adiantar, em primeira mão, que vai haver uma encerrona no final da temporada de 6 touros. Depois, a seu tempo, saberemos onde.”
A revelação coloca mais um ponto de interesse na temporada de Moura Caetano, que prepara um final de ano com desafio maior.
𝗠𝗶𝗴𝘂𝗲𝗹 𝗠𝗼𝘂𝗿𝗮 𝗳𝗮𝘇 𝗯𝗮𝗹𝗮𝗻ç𝗼 𝗽𝗼𝘀𝗶𝘁𝗶𝘃𝗼
Miguel Moura também saiu da Moita com uma leitura favorável da sua tarde. O cavaleiro reconheceu que as duas atuações foram diferentes e que a segunda terá chegado mais ao público.
“Eu penso que foi uma tarde positiva para mim. Há duas atuações diferentes. A primeira atuação talvez tenha chegado menos ao público, mas nesta penso que o público respondeu e viu a minha entrega, viu a minha forma de tourear e pronto, dois touros diferentes também.”
O cavaleiro não alongou demasiado a análise, mas deixou clara a satisfação com o resultado global.
“Estou muito bem, gostei muito e pronto, acho que foi uma tarde positiva.”
A forma como falou da segunda atuação mostra que sentiu maior ligação à bancada nesse momento. Para Miguel Moura, a resposta do público foi um sinal importante, sobretudo numa fase ainda inicial da temporada.
𝗨𝗺𝗮 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼𝗿𝗮𝗱𝗮 𝗲𝘅𝗶𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗠𝗶𝗴𝘂𝗲𝗹 𝗠𝗼𝘂𝗿𝗮
Quando questionado sobre o balanço da temporada até ao momento, Miguel Moura foi prudente. Sublinhou que o ano está ainda no início, mas antevê uma temporada com muitas corridas.
“Sim, a temporada está agora no começo. Penso que vai ser uma temporada com muitas corridas, exigente para mim.”
O cavaleiro falou também da relação com o público, reconhecendo que sente respeito e expectativa por parte dos aficionados.
“E pronto, o público penso que me respeita, que espera ver triunfos meus e pronto, vou trabalhar para isso. Espero que seja uma temporada boa.”
A resposta é simples, mas define bem o momento. Miguel Moura sabe que há expectativa à sua volta e assume que terá de trabalhar para corresponder.
𝗔𝗻𝘁ó𝗻𝗶𝗼 𝗧𝗲𝗹𝗹𝗲𝘀: “𝗡ã𝗼 𝘃𝗼𝘂 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗰𝗮𝘀𝗮”
António Ribeiro Telles fez a análise mais dura da tarde. O cavaleiro assumiu que os dois touros que lhe saíram em sorte eram os que mais o preocupavam no sorteio. No entanto, acabou por sentir que a expectativa não correspondeu totalmente ao que aconteceu em praça.
“Bem, hoje… por acaso eram os dois touros que mais me assustavam no sorteio, e olha… Enganámo-nos. Eu e o meu bandarilheiro.”
Sobre o segundo touro, foi bastante direto. António Telles considerou-o ingrato e sem transmissão.
“Este segundo touro não dava sentido nenhum, não transmitia, não vinha para a sorte, era muito ingrato.”
Ainda assim, explicou que lhe colocou os ferros por entender que esse é o dever do toureiro, mesmo quando o touro não colabora.
“Meti-lhe os ferros, porque eu, como disse a semana passada, acho que foi para o Infocul também, que o toureiro tem que dar a cara e tem que ir meter os ferros, mesmo que o touro não preste, foi o que aconteceu.”
A ideia de “dar a cara” voltou a aparecer como eixo central do discurso de António Telles. Mais do que justificar a atuação, o cavaleiro procurou deixar claro que não se escondeu da dificuldade.
𝗢 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 𝘁𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗱𝗲𝘂 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗼𝗽çõ𝗲𝘀 𝗮 𝗧𝗲𝗹𝗹𝗲𝘀
Apesar da insatisfação geral, António Telles destacou aspetos positivos na primeira lide. O cavaleiro considerou que o primeiro touro tinha qualidade e que lhe permitiu momentos de valor.
“O primeiro touro era um touro maravilhoso, um touro que incomodava, um touro que vinha com força.”
Entre os momentos que destacou, apontou um ferro de saída e a valorização dos compridos.
“Penso que o terceiro de saída foi do outro mundo, penso que dei muito valor aos compridos, já deixava ir o toureiro a atacá-lo, e depois penso que meti dois curtos muito bons.”
Mesmo com esses apontamentos, António Telles não saiu satisfeito.
“E pronto, não vou contente para casa, quero mais, quero muito mais.”
A frase é importante porque revela exigência pessoal. Telles reconhece momentos positivos, mas não os considera suficientes para o patamar que pretende atingir.
𝗧𝗲𝗹𝗹𝗲𝘀 𝗾𝘂𝗲𝗿 𝗼𝗰𝘂𝗽𝗮𝗿 𝘂𝗺 𝗲𝘀𝗽𝗮ç𝗼 𝗻𝗮 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼𝗿𝗮𝗱𝗮
António Telles apontou ainda ao trabalho que pretende fazer nos próximos dias. O cavaleiro deixou claro que quer melhorar e chegar a outro nível.
“Vou trabalhar esta semana muito duro para as coisas irem assim.”
Sobre a temporada, foi ainda mais objetivo. O cavaleiro quer afirmar-se e ocupar o seu espaço.
“Esta temporada penso que quero estar bem, quero ocupar um espaço, quero dar um passo grande e dizer que estou cá.”
Telles reconheceu que, até agora, não tem tido sorte nos touros que lhe saem em sorte. Ainda assim, não usou isso como desculpa para fugir à responsabilidade.
“E a verdade é que não tenho tido sorte nenhuma nos touros desta época, têm-me saído touros duros, mas tenho de dar a cara.”
A fechar, deixou uma leitura quase de desafio pessoal.
“E se calhar é Deus, Nosso Senhor, a mandar vir esses touros para eu dar a cara e para dizer que estou capaz.”
𝗧𝗿ê𝘀 𝗹𝗲𝗶𝘁𝘂𝗿𝗮𝘀 𝗱𝗶𝗳𝗲𝗿𝗲𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗶𝗱𝗮
As entrevistas deixaram três leituras distintas da tarde.
João Moura Caetano falou de touros com dificuldades técnicas, valorizou o papel dos cavalos Campo Pequeno e Gallo e anunciou uma encerrona de seis touros no final da temporada.
Miguel Moura considerou a sua tarde positiva, admitiu que a primeira atuação terá chegado menos ao público e destacou a resposta da bancada na segunda lide.
António Ribeiro Telles assumiu uma análise mais inconformada. Gostou de momentos da primeira atuação, criticou a falta de transmissão do segundo touro e insistiu na ideia de que o toureiro tem de dar a cara, mesmo quando os touros são duros.
No conjunto, as declarações ajudam a perceber melhor a corrida da Moita. Não substituem o que se viu em praça, mas explicam o que cada toureiro sentiu, corrigiu e projecta para a temporada.

