Florence + The Machine deu ao NOS Alive o melhor concerto da edição de 2026, no terceiro e último dia do festival.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: NOS Alive.
Florence + The Machine apresentou, no último dia do NOS Alive, o melhor concerto desta edição. Não foi apenas uma questão de potência vocal, repertório ou dimensão cénica, embora tudo isso tenha estado muito acima da média. A diferença encontrou-se na forma como Florence Welch tomou conta do Palco NOS sem esmagar as canções, conseguindo aproximar-se de uma multidão enorme sem fingir que estava numa pequena sala.
Depois das atuações de Don West, Teddy Swims e Lorde, o recinto recebeu uma das artistas mais aguardadas do cartaz. Quando Florence surgiu, descalça e acompanhada pelas bailarinas, já se percebia que o palco seria tratado como um espaço de movimento, representação e entrega física. Porém, nada apareceu como um adereço colocado em redor da música. A dança, os gestos e a cenografia acompanharam aquilo que as canções pediam, em vez de tentarem compensar alguma ausência.
“Everybody Scream” abriu a atuação e estabeleceu imediatamente a linguagem da noite. Florence não ficou presa ao centro, atravessou o palco, procurou diferentes zonas do recinto e cantou como se o corpo inteiro participasse na interpretação. Logo depois, “Shake It Out” mostrou a dimensão da receção portuguesa, com milhares de pessoas a assumirem os versos e uma vocalista visivelmente tocada pelo volume da resposta.
A voz nunca ficou dependente da imobilidade
Uma das coisas mais impressionantes num concerto de Florence Welch é a forma como a voz resiste ao movimento. Correu, dançou, ajoelhou-se, percorreu o palco e manteve sempre uma segurança vocal difícil de encontrar, sobretudo num espetáculo daquela exigência física.
Em “Which Witch”, essa combinação tornou-se ainda mais evidente. A intensidade do tema encontrou uma intérprete completamente entregue, mas sem perder controlo sobre a respiração, a articulação ou a força necessária para fazer a voz atravessar o recinto.
A potência, contudo, não explica tudo. Florence Welch é uma grande cantora porque sabe onde colocar essa força e percebe que nem todas as palavras precisam de chegar ao público da mesma maneira. Consegue sustentar uma nota e impressionar pela técnica, como aconteceu em “King”, mas também sabe retirar peso à interpretação quando a fragilidade é mais importante do que o volume.
Essa gestão atravessou todo o concerto. “You’ve Got the Love” e “Hunger” foram recebidas como canções já profundamente inscritas na vida do público, enquanto “Howl” e “What Kind of Man” recuperaram fases anteriores da carreira sem qualquer sensação de obrigação nostálgica.
As músicas mais antigas continuam vivas porque Florence não as canta como relíquias. Volta a entrar nelas.
“Spectrum” abriu o concerto ao recinto inteiro
O desenvolvimento inicial de “Spectrum” deu à banda espaço para construir uma das passagens mais fortes da noite. Enquanto o tema crescia, Florence dirigiu-se a quem estava junto ao palco, mas não esqueceu as laterais nem as zonas mais afastadas, procurando envolver toda a extensão do Passeio Marítimo de Algés.
Quando o público começou a gritar o seu nome, respondeu apenas:
“Obrigada.”
A simplicidade da palavra contrastou com a dimensão da reação. Florence não precisou de prolongar a conversa porque a ligação já estava estabelecida e o concerto continuou a avançar sem perder fluidez.
Mais tarde, falou sobre o solstício e convidou o público a participar numa espécie de oferenda coletiva:
“É incrível estar de volta aqui. Passámos o ponto mais alto do solstício, quando fazemos oferendas para boa fortuna e bom tempo. Alguém gostaria de fazer uma oferenda comigo? Alguém gostaria de ser uma oferenda? Se sim, vão ter de se pôr aos ombros de alguém.”
O discurso poderia parecer deslocado noutro concerto, mas encaixou perfeitamente no universo que Florence Welch tem construído. A natureza, o corpo, a espiritualidade e uma certa simbologia pagã fazem parte da sua linguagem artística, não surgindo apenas como elementos visuais concebidos para impressionar.
O público percebeu o convite e entrou no jogo sem resistência.
A teatralidade teve sempre uma razão
“Heaven Is Here” foi o momento em que o trabalho das bailarinas ganhou maior peso. A coreografia transformou o palco sem o sobrecarregar, criando uma imagem densa em redor de Florence, que permaneceu imóvel durante parte do tema e deixou que o movimento acontecesse à sua volta.
Foi uma escolha inteligente porque a cantora passou grande parte da atuação em permanente deslocação. Ao parar, obrigou também o público a olhar de outra maneira. A tensão nasceu dessa imobilidade e do contraste com tudo aquilo que acontecera antes.
Florence Welch tem uma presença que facilmente poderia conduzir o espetáculo para o excesso. A indumentária, os movimentos, o cabelo, a relação com as bailarinas e a forma como percorre o palco dão-lhe uma imagem imediatamente reconhecível. No entanto, o concerto nunca ficou refém dessa estética.
A teatralidade teve função. Ajudou a contar as canções, a acentuar determinados estados e a criar transições entre momentos de maior violência e passagens mais delicadas. Não houve aquela sensação de estarmos diante de uma sucessão de imagens bonitas sem ligação ao repertório.
“One of the Greats” manteve essa coerência, enquanto Florence encontrou espaço para falar sobre uma das canções mais recentes, admitindo, com humor, que quase a deixou fora do álbum por estar cansada de escrever sobre alguém que não respondia às mensagens.
A confissão, dita entre risos, aproximou a figura quase etérea da mulher real que continua a transformar desencontros em música.
“Never Let Me Go” mostrou quem realmente mandava no concerto
Florence agradeceu repetidamente a receção e chegou a considerar aquele o público mais ruidoso que a banda tinha encontrado num festival.
“Muito obrigada. Vocês são um público incrível.”
Pouco depois, acrescentou:
“Este é o público mais barulhento que já tivemos num festival.”
Esse tipo de elogio é habitual nos grandes concertos e nem sempre deve ser recebido como verdade absoluta. Em “Never Let Me Go”, porém, a afirmação deixou de parecer apenas uma frase simpática dirigida à cidade onde se toca naquela noite.
Florence parou para ouvir a resposta do recinto. A música ficou suspensa durante alguns segundos, mas os gritos e os aplausos preencheram imediatamente o espaço. No final do tema, o público continuou a cantar e prolongou o momento muito depois de a banda ter terminado.
A cantora não tentou recuperar depressa o controlo, nem cortar aquela manifestação para avançar no alinhamento. Ficou a ouvir e deixou que a canção passasse inteiramente para o outro lado da barreira.
Essa capacidade para conceder espaço ao público sem perder a autoridade sobre o espetáculo é rara. Florence Welch comandou o concerto, mas não o quis possuir sozinha.
A aproximação física não foi um gesto para as câmaras
Durante “Sympathy Magic”, Florence abandonou o palco e aproximou-se dos fãs, atravessando parte da multidão enquanto cantava praticamente sem apoio instrumental. A voz manteve-se firme e chegou a todo o recinto, mesmo quando a produção recuou.
O momento não pareceu ter sido construído apenas para garantir boas imagens nos ecrãs gigantes. Florence tocou nas mãos, procurou rostos e reduziu a distância de uma forma que combinava com a relação estabelecida desde o início.
Existia uma verdadeira disponibilidade para estar junto das pessoas, embora sem transformar o concerto numa sequência de contactos rápidos destinados a provocar gritos. A aproximação surgiu dentro da música e regressou a ela.
Essa é uma das razões pelas quais Florence + The Machine funciona tão bem em espaços enormes. A banda tem repertório e produção para preencher o maior dos palcos, mas a vocalista conserva uma forma de comunicação que impede o espetáculo de se tornar distante.
Não canta como se estivesse acima da multidão. Também não finge que conhece individualmente cada pessoa. Encontra uma medida mais honesta, onde a grandeza da produção convive com uma atenção genuína a quem está presente.
“Dog Days Are Over” obrigou o público a regressar ao momento
Os primeiros sinais de “Dog Days Are Over” provocaram uma reação que quase abafou a entrada da banda. Era uma das canções mais aguardadas e Florence sabia que milhares de telemóveis se levantariam assim que o tema começasse.
Antes disso, pediu o contrário:
“Eu sei que é difícil, especialmente porque querem gravar esta canção. Mas estou aqui para vos dizer que gravar impede-vos de viver esta experiência. E vocês estão aqui para viver tudo, certo?”
O pedido não foi moralista, nem pretendeu censurar quem gosta de guardar imagens dos concertos. Florence tentou apenas recuperar durante alguns minutos aquilo que os grandes espetáculos têm vindo a perder: a presença completa de quem está a assistir.
Muitos telemóveis baixaram. Os olhos regressaram ao palco e o público recebeu uma segunda instrução: saltar quando o refrão chegasse.
A resposta foi física, imediata e impressionante. O recinto inteiro pareceu mover-se ao mesmo tempo, com milhares de vozes a cantarem uma música que continua a provocar euforia desde o seu lançamento.
Foi o grande momento da atuação, não por ser a canção mais conhecida, mas porque resumiu o que Florence tinha construído desde o início. O público não estava apenas a registar o concerto. Estava dentro dele.
“Free” encerrou uma atuação sem pontos fracos
“Free” ficou responsável pela despedida e levou a noite até ao fim com a mesma entrega que Florence tinha demonstrado desde a entrada. Não houve quebra vocal, perda de intensidade ou sinal de que o espetáculo se estava apenas a aproximar do horário limite.
Ao longo de cerca de hora e meia, Florence + The Machine apresentou um alinhamento capaz de cruzar o álbum mais recente, Everybody Scream, com alguns dos temas fundamentais da carreira. As novas canções não pareceram interrupções entre os êxitos, enquanto os clássicos não foram tratados como uma obrigação destinada a satisfazer quem continua preso aos primeiros discos.
Tudo fez parte do mesmo concerto.
A banda esteve irrepreensível, as bailarinas ampliaram a componente cénica e Florence Welch deu uma das grandes demonstrações vocais e interpretativas que passaram pelo festival. Ainda assim, o que separou esta atuação das restantes foi a ausência de momentos dispensáveis.
Não houve uma fase morna, uma passagem que parecesse arrastar-se ou um tema colocado apenas para cumprir alinhamento. A atenção manteve-se até ao fim, tanto nos grandes refrões como nas canções que exigiram maior silêncio.
O NOS Alive recebeu grandes concertos ao longo dos três dias. Nick Cave levou Algés para um lugar espiritual e profundamente emocional. Foo Fighters celebraram três décadas de resistência. Teddy Swims conquistou um público que nem todo tinha chegado para o ouvir. Buraka Som Sistema fechou o festival com uma festa avassaladora.
Florence + The Machine reuniu quase tudo aquilo que um grande concerto precisa e acrescentou-lhe uma intérprete num momento extraordinário.
Foi o melhor concerto do NOS Alive 2026.
