Foo Fighters no NOS Alive: Dave Grohl regressou a Portugal para celebrar 31 anos de sobrevivência, amizade e rock, com lotação esgotada.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Nove anos depois, os Foo Fighters voltaram a encontrar o público português e fizeram-no sem qualquer vontade de poupar energia. Na noite de sexta-feira, 10 de julho, o Passeio Marítimo de Algés recebeu o concerto mais aguardado do segundo dia do NOS Alive, com o recinto esgotado há meses e milhares de pessoas concentradas diante do Palco NOS muito antes da hora marcada.
A entrada foi pontual e imediata. Dave Grohl correu para o palco com a Gibson ao ombro, munhequeiras pretas, ténis Vans e a atitude de quem continua a olhar para cada concerto como se a carreira ainda dependesse daquela noite. Bastaram os primeiros acordes para perceber que a saudade era recíproca e que a longa espera não seria resolvida com uma atuação protocolar.

Durante cerca de duas horas e meia, os Foo Fighters regressaram à história que construíram desde 1995, privilegiando canções que atravessam gerações e ajudaram a transformá-los numa das últimas grandes bandas de rock capazes de encher recintos desta dimensão. Não houve qualquer tema de My Favorite Toy, o álbum lançado em abril, mas ninguém pareceu sentir falta do material mais recente. A noite pertencia à memória, sem que isso significasse viver apenas do passado.
Os primeiros minutos não deixaram espaço para recuperar o fôlego
“All My Life” abriu o concerto com a violência certa, seguida por “The Pretender”, “Times Like These”, “Rope” e “Stacked Actors”. O alinhamento foi construído para atacar cedo e manter o público dentro da atuação, sem pausas desnecessárias ou longas mudanças de ambiente.

Dave Grohl percorreu o palco, provocou a plateia, sorriu e gritou como se o tempo não tivesse passado. A voz mantém a rouquidão reconhecível, a guitarra continua a ser extensão do corpo e a relação com o público preserva aquela informalidade que faz um recinto gigantesco parecer, por momentos, um encontro entre amigos antigos.
Mesmo com um irritante vento que de quando em vez teimava em soprar forte.

“My Hero” confirmou essa ligação. O refrão foi devolvido por milhares de vozes, num daqueles momentos em que a canção já não pertence apenas à banda. “Learn to Fly” e “These Days” prolongaram a comunhão, com o público a acompanhar cada palavra e a provar que os Foo Fighters não precisavam de novidades para justificar o regresso.
A força do concerto esteve precisamente aí. Não houve grandes cenários a tentar competir com as músicas, nem efeitos concebidos para esconder qualquer fragilidade. Havia guitarras, suor, distorção e um repertório suficientemente forte para sustentar tudo o resto.

A nostalgia apareceu sem transformar a banda numa peça de museu
A escolha de um alinhamento centrado nos primeiros anos poderia ter empurrado a noite para uma simples celebração nostálgica, mas os Foo Fighters continuam demasiado vivos em palco para aceitarem esse lugar. A banda divertiu-se com as próprias canções, prolongou passagens, alterou dinâmicas e encontrou novas formas de tocar temas que já interpretou centenas de vezes.
“Wheels” trouxe uma das mudanças mais bonitas da noite. Dave Grohl trocou de guitarra e pegou na Gibson DG-335 azul, o seu modelo de assinatura, conduzindo o concerto para um momento mais íntimo, tanto quanto isso é possível perante dezenas de milhares de pessoas.

A canção, uma das favoritas do músico e do público, permitiu aliviar a intensidade sem quebrar a ligação. A voz surgiu mais exposta, enquanto a plateia acompanhava com uma atenção diferente daquela que dominara os primeiros minutos.
Pouco depois, “No Son of Mine” devolveu a violência ao palco e abriu caminho para um excerto de “Ace of Spades”, dos Motörhead. A homenagem trouxe também um dos momentos de maior destaque para Ilan Rubin, que respondeu ao desafio com um solo de bateria vigoroso e tecnicamente seguro.

Dave Grohl elogiou-o diante do público. Rubin sorriu com uma timidez quase inesperada, como alguém que acabara de receber um elogio do chefe e não sabia bem onde esconder o embaraço.
Ilan Rubin não ocupa o lugar de Taylor Hawkins, mas encontrou o seu espaço
A entrada de Ilan Rubin nos Foo Fighters será sempre observada à luz da ausência de Taylor Hawkins. É inevitável, porque há lugares que uma banda pode preencher tecnicamente sem conseguir substituir emocionalmente.

Rubin, de 38 anos, é o segundo baterista a assumir essa responsabilidade desde a morte de Hawkins, em março de 2022. No NOS Alive, mostrou que a escolha parece consolidada, não por tentar reproduzir o antigo companheiro, mas por encontrar uma linguagem própria dentro da banda.
A sintonia com Dave Grohl foi evidente. Houve força, precisão e atenção às mudanças de intensidade, mas também uma capacidade para entrar na dinâmica de um grupo que vive muito da energia coletiva e da liberdade em palco.

O momento das apresentações reforçou essa integração. Grohl chamou aos músicos “os meus melhores amigos” e recusou a habitual ronda de solos vazios de contexto. Em vez disso, recordou os projetos por onde cada elemento passou antes dos Foo Fighters, enquanto imagens desses anos eram projetadas no ecrã gigante.
A história individual de cada músico foi tratada como parte da história da banda. Dave sentou-se à bateria, Rubin pegou na guitarra e os papéis inverteram-se por alguns minutos. Houve até uma ameaça do início de “Smells Like Teen Spirit”, mas o clássico dos Nirvana ficou apenas sugerido.

Trinta e um anos depois, a banda continua a saber de onde veio
A apresentação dos músicos teve um peso especial porque os Foo Fighters sempre foram mais do que o projeto de Dave Grohl. Naturalmente, ele continua a ser o rosto, a voz e o motor da banda, mas o concerto mostrou também uma estrutura coletiva construída ao longo de décadas.
Pat Smear liga diretamente a história dos Nirvana ao início dos Foo Fighters. Nate Mendel permanece como uma das presenças mais antigas do grupo, Chris Shiflett dá consistência e músculo às guitarras, enquanto Rami Jaffee acrescenta outras texturas sem retirar ao conjunto a identidade rock.

“Breakout” e “Big Me” recuperaram os primeiros anos da banda e encontraram uma receção que provou como essas canções continuam a passar de geração em geração. A primeira pertence a 1999, enquanto a segunda remonta ao álbum de estreia, lançado em 1995, quando os Foo Fighters ainda eram vistos por muitos como a consequência natural do fim dos Nirvana.
A história mostrou outra coisa. Dave Grohl não criou apenas uma banda para continuar depois da morte de Kurt Cobain. Construiu um projeto com identidade própria, capaz de atravessar três décadas, sofrer novas perdas e voltar a perguntar-se como seria possível prosseguir.

Talvez seja essa uma das razões para estes concertos terem hoje um peso diferente. Já não são apenas celebrações de carreira. São também provas de resistência.
“Aurora” levou Taylor Hawkins novamente ao centro da noite
A ausência de Taylor Hawkins atravessou o concerto sem o dominar. Não houve uma tentativa permanente de transformar a atuação num memorial, mas também não existiu qualquer vontade de fingir que o antigo baterista não continua presente.
“Aurora” foi o lugar escolhido para essa memória.
A canção, uma das preferidas de Hawkins, recebeu uma interpretação emocional e contida, sem necessidade de discursos excessivos. O tema falou por si e encontrou um público consciente daquilo que representava.

Foi um dos momentos mais marcantes da noite porque não surgiu como interrupção. A homenagem fazia parte da própria história dos Foo Fighters e do modo como a banda aprendeu a continuar depois de perder alguém central na sua identidade.
A relação entre Dave Grohl e Taylor Hawkins ultrapassava a música. Eram amigos, cúmplices de palco e duas forças complementares dentro do grupo. Essa ligação não pode ser recriada, nem precisa de ser.

Ilan Rubin tem agora outro papel. Não substituir o insubstituível, mas ajudar a banda a escrever o capítulo seguinte.
Quando “Aurora” terminou, a emoção não desapareceu. Foi transformada em energia para a reta final, confirmando que os Foo Fighters continuam a fazer do rock uma forma de lidar com aquilo que a vida retira.
Os grandes hinos fecharam um concerto sem vontade de terminar
“The Sky Is a Neighborhood” e “Run”, ambas de Concrete and Gold, foram as canções mais recentes do alinhamento e prepararam a chegada dos temas que todos esperavam.

“Monkey Wrench” encontrou um público ainda com força para cantar, saltar e formar pequenas zonas de maior agitação na plateia. “Best of You” prolongou-se numa massa de vozes e braços levantados, com Dave Grohl a conduzir o refrão como quem conhece exatamente o momento em que deve recuar e deixar o público assumir o concerto.
“Everlong” ficou para o fim, como tantas vezes acontece. É uma canção que já ultrapassou o estatuto de clássico e se tornou uma espécie de despedida inevitável, capaz de reunir tudo aquilo que os Foo Fighters representam: urgência, melodia, entrega e uma emoção que nunca precisa de ser excessivamente explicada.
A banda tocou até ao limite do horário permitido e mostrou pouca vontade de abandonar o palco. Antes da despedida, deixou um agradecimento que resumiu o peso da noite:

“Muito obrigado por esta noite e por estes 31 anos.”
Houve ainda uma promessa de regresso a Portugal no próximo ano. Depois de uma ausência de nove anos, será prudente esperar pela confirmação, mas o desejo pareceu sincero.
Os Foo Fighters sobreviveram duas vezes à própria história
Os Foo Fighters nasceram depois de Dave Grohl perder os Nirvana e precisar de encontrar uma forma de continuar a fazer música. Décadas depois, a morte de Taylor Hawkins obrigou a banda a enfrentar novamente a mesma pergunta.
Continuar não significava apagar quem partiu. Também não podia significar ficar preso à ausência.

No NOS Alive, a resposta apareceu em palco. Está na forma como Dave Grohl ainda corre para diante do público, no modo como os músicos celebram o percurso comum e na segurança com que Ilan Rubin começa a construir o seu lugar.
O concerto foi uma celebração de 31 anos, mas não teve o peso de uma retrospetiva. A nostalgia esteve presente porque aquelas canções fazem parte da vida de milhares de pessoas, não porque a banda tenha deixado de ter futuro.

Durante duas horas e meia, os Foo Fighters mostraram que ainda sabem transformar guitarras no volume máximo, refrões conhecidos e amizade em algo maior do que a soma dessas partes.
Não regressaram apenas para recordar o que foram. Regressaram para provar que ainda estão aqui.

