Pedro Chagas Freitas reúne reflexões sobre paternidade, dor e relações, nas redes sociais, nos últimos dias.
Pedro Chagas Freitas tem usado as redes sociais para partilhar várias reflexões sobre diferentes dimensões da vida. Ao longo de seis publicações, divulgadas nos últimos dias, o escritor abordou a paternidade, a dor provocada por quem está próximo, as relações emocionalmente desgastantes, a aprendizagem que nasce do sofrimento e a necessidade de viver com maior verdade.
Embora tenham sido publicadas separadamente, as mensagens seguem um fio comum: a tentativa de compreender o que permanece quando desaparecem as distrações, as expectativas e as versões idealizadas da vida.
As saudades do filho que ainda está presente
Numa das publicações mais recentes, Pedro Chagas Freitas refletiu sobre o crescimento do filho e sobre a estranha sensação de já sentir falta de momentos que ainda está a viver.
“Tenho saudades de ver o meu filho a querer estar sempre comigo. Tenho saudades do que ainda tenho, do que ainda me procura, do que ainda me chama para ver desenhos animados com a cabeça encostada no meu ombro. É absurdo, eu sei. Ter saudades do presente é uma espécie de pré-despedida, e é também isso ser pai.
Aproveito tudo, cada milímetro de espaço, cada fragmento de segundo. O cheiro do cabelo depois do banho, as perguntas que não esperam resposta, o riso a meio do jantar, as danças patetas em cima do sofá, a cama cheia de peluches, os saltos a caminho da escola, o aconchego dos medos no meio do peito, a casa em pantanas e mais linda do que nunca. Aproveito. Tudo isto é uma visita que se ama tanto que dói antes de acabar. Não sou muitas coisas. Quis ser mais. Tentei caber noutros nomes. Sei quem sou: sou o pai dele.
Nasci para amar o meu filho. Isso não me diminui; salva-me. O resto existe. É bom, é importante. Mas amar é a única forma de identidade verdadeira. É assim que sei tudo: não é pelo que li, não é pelo que fiz, muito menos é pelo que publiquei. É pelo que sinto quando lhe seguro a mão.
Tenho saudades disto. Estou a vivê-lo agora. Pode muito bem ser essa a maior forma de amor: sentir falta do que ainda se tem.”
“Raramente é o mundo que nos destrói”
Noutra partilha, o autor estabeleceu uma diferença entre a dor física e as feridas deixadas pelas pessoas que conhecem as fragilidades de quem têm ao lado.
“A dor física passa. O corpo adapta-se, cicatriza. Esquece. Mas há dores que não se apagam. O problema não é o golpe; é a mão que o deu. Não é a ofensa; é a boca de onde saiu. Não é o abandono; é quem decidiu partir. Passamos a vida a proteger-nos do mundo, a evitar estranhos, a desconfiar do desconhecido.
Raramente é o mundo que nos destrói; são os que nos conhecem.
Os que deveriam saber melhor. Os que, um dia, seguraram as nossas fraquezas e depois as usaram contra nós.”
Alerta contra a romantização de pessoas difíceis
Pedro Chagas Freitas dedicou outra publicação às relações marcadas pela instabilidade e pelo desgaste emocional. O escritor admitiu ter confundido, no passado, comportamentos dolorosos com profundidade.
“Não romantizes pessoas difíceis. Já o fiz. Disfarcei frieza com profundidade, vendi-me a ideia de que quem fere muito é porque sente demais.
Patetices.
Há uma cultura inteira construída à exaltação dos emocionalmente impraticáveis, dos temperamentais, dos instáveis, dos que gritam e desaparecem e voltam e magoam e exigem que compreendas tudo, dos que te acusam de não os saber amar enquanto te desconstroem com cuidado quase cirúrgico.
Tu romantizas.
Julgas que estás a viver algo raro, puro, que só poucos conseguem suportar. E suportas.
Não é.
Não é raro, não é puro; é violento. É egoísmo vestido de complexidade. Pessoas difíceis não são artistas torturados; são, muitas vezes, pessoas que nunca aprenderam a cuidar do outro. Não tens de ser o laboratório emocional de ninguém. O amor não precisa de ser um enigma.
Quem gosta cuida.
Quem ama não te põe constantemente à prova. Quem quer ficar não te mede todos os dias. Não há beleza nenhuma na dúvida constante, no castigo emocional camuflado de autenticidade.
Quando alguém me diz que é ‘uma pessoa difícil’, eu não fico curioso; fico assustado, cansado.
Não romantizes pessoas difíceis; romantiza quem te dá paz sem te cobrar dor.”
A aprendizagem provocada pelo sofrimento
A dor voltou a estar no centro de outra reflexão. Desta vez, Pedro Chagas Freitas abordou aquilo que descobriu sobre si próprio através do sofrimento.
“A puta da dor ensina tão bem.
É o maior paradoxo, a maior crueldade, desta vida toda: temos de sofrer como nunca para aprender como nunca. Poderia, sem esta dor sem igual (nunca pensei sofrer tanto, nunca, nunca), passar pela vida sem saber nada sobre ela. Sobre quem somos, sobretudo sobre quem sou. Tenho inveja, tenho tanta tanta inveja, de quem não vai chegar a saber bem quem é porque nunca vai sofrer assim. Mas porra: chegar a esta dimensão de mim também tem um sabor a vitória, ai tem tem.
A dor maior faz-nos maiores.
Odeio-a com todas as minhas forças, mais ainda com todas as minhas fraquezas, mas devo-lhe ter-me feito olhar para mim até às vísceras, osso a osso, fantasma a fantasma, demónio a demónio.
Às vezes temos de ir ao meio do túnel para saber de onde vem a luz.”
“Não vai nada ficar tudo bem”
Numa reflexão sobre a ideia de felicidade permanente, o escritor rejeitou as promessas de uma vida sem problemas. Pedro Chagas Freitas defendeu que são precisamente as falhas e as perdas que ajudam cada pessoa a compreender quem é.
“Não vai nada ficar tudo bem.
Vai haver sempre problemas, vai haver sempre o que não corre como querias que corresse, o que vai doer mais do que esperavas que doesse (e basta doer um pouco que já é dor a mais), vai haver sempre pedras, calhaus, pelo caminho, quedas de que vais demorar mais a levantar, medos que vais demorar mais a superar.
Não vai nada ficar tudo bem.
Não vás em cantigas, em palavras que só querem vender o que não existe, a banha de uma cobra cruel que é a da alegria empacotada. Não queiras a felicidade permanente, até porque isso não existe; não queiras a vida perfeita, o trabalho perfeito, o amor perfeito, até porque isso não existe, e se existisse seria uma perfeita seca, um perfeito tédio, um perfeito, e oco, vazio.
Não vai nada ficar tudo bem.
Vais falhar, vais falhar muito; vais perder, vais perder muito. Mas também é no meio da falha e da derrota, e da perda, que vais entender melhor quem és, de onde vens, para onde sentes. É no meio da falha, da derrota, da perda, que ganhas a beleza que interessa, a que chega do começo de ti, do que não tem pele, do que não sabemos definir. Adapta-te, habitua-te, encontra a poesia na lista do supermercado, na roupa a estender na varanda, no mau tempo que por vezes te assola. Resiste, caminha, treme porque é humano tremer. E desfruta. Sobretudo isso. Desfruta do que te aparece pelo caminho. Seja o dia fácil cheio de sol, seja o dia cinzento cheio de nuvens. Desfruta de tudo. Em dias de sol qualquer um tem luz.
Não vai nada ficar tudo bem.
E é assim que está tudo certo.”
Uma vida preenchida para fugir ao silêncio
Na publicação mais antiga deste conjunto, Pedro Chagas Freitas refletiu sobre o ruído usado para esconder o vazio e sobre a procura de aprovação por parte dos outros.
“Inventamos tanta merda para nos esquecermos de nós.
Para não sabermos quem somos. Enchemos a vida de ruído para que o silêncio, o espaço vazio, não magoe tanto. A vida existe quando a verdade existe, a verdade do fundo, a que pode doer mas que liberta. A liberdade existe quando a verdade existe. Inventamos tanta merda para nos esquecermos de nós.
Não queiras a liberdade artificial, a vida artificial. Não queiras a felicidade enlatada. Prefere a tua, a que vem de ti. Não queiras a aprovação do outro, o conforto da validação do outro. Antes ser criticado pelo que és do que aplaudido pelo que não és.
Inventamos tanta merda para nos esquecermos de nós.”
