Editorial: Antes do projeto, estão as pessoas

Editorial: Antes do projeto, estão as pessoas, pelo menos é isso que tento praticar ao longo de quase 11 anos.

Durante muito tempo, acreditei que um projeto se construía sobretudo com trabalho, exigência e uma dose pouco saudável de teimosia. Continuo a acreditar na importância de todas essas coisas, mas os anos ensinaram-me algo mais difícil de aceitar: nenhuma obra permanece verdadeiramente de pé apenas por causa de quem a fundou. Permanece porque algumas pessoas decidem ficar, crescer e tornar-se importantes muito para além da função que desempenham.

Agosto costuma trazer uma certa suspensão à vida. As cidades esvaziam-se, os ritmos mudam e até quem continua a trabalhar parece fazê-lo com uma parte da cabeça noutro lugar. Talvez seja precisamente por isso que este mês nos dá espaço para pensar naquilo que, durante o resto do ano, fica escondido debaixo da urgência.

Num projeto editorial, quase tudo é urgente.

Há notícias que não esperam, decisões que precisam de ser tomadas, textos que chegam tarde, erros que surgem quando menos convém e dias em que a energia desaparece antes de o trabalho terminar. No meio desse movimento constante, torna-se fácil olhar para as pessoas apenas através daquilo que fazem.

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Quem escreve, quem fotografa,quem coordena, quem resolve, quem chega a tempo, quem falha e quem aparece quando alguma coisa corre mal.

É uma leitura útil, mas incompleta.

As pessoas não começam nem terminam no trabalho que entregam. Carregam histórias, medos, qualidades, contradições e formas diferentes de estar no mundo. Quando permanecem connosco durante tempo suficiente, deixam de ser apenas parte de uma equipa e começam a ocupar um lugar muito mais difícil de definir.

Este editorial é sobre quatro pessoas que ajudaram o Infocul.pt a atravessar diferentes fases, embora o nome de nenhuma delas precise de aparecer para que o reconhecimento seja verdadeiro.

É também sobre aquilo que representam fora do projeto, porque seria profundamente injusto reduzi-las às funções que desempenham.

Aqueles que conhecem quase toda a história

Duas dessas pessoas são, simultaneamente, as mais velhas e das que há mais tempo caminham ao lado deste projeto.

Estiveram presentes em diferentes fases, algumas mais felizes, outras marcadas pelo desgaste, pela incerteza e pela sensação de que talvez já não existisse muito mais para construir. Viram mudanças, entradas, saídas, entusiasmos que duraram pouco e decisões que obrigaram a recomeçar quando seria mais confortável desistir.

A permanência, por si só, não transforma ninguém numa pessoa essencial. Há quem permaneça durante anos sem deixar verdadeiramente nada.

Neste caso, aconteceu o contrário. A experiência que trouxeram, a maturidade acumulada e a capacidade de compreender o projeto para além do momento imediato foram importantes profissionalmente, mas o impacto pessoal acabou por ser ainda maior.

Existem pessoas que nos ajudam através de grandes gestos. Outras fazem-no simplesmente porque continuam ali, com uma presença que oferece estabilidade quando tudo à volta parece demasiado incerto.

Ao longo destes anos, houve conversas que ultrapassaram largamente o trabalho, preocupações que não cabiam num alinhamento editorial e momentos em que a companhia foi mais importante do que qualquer resultado alcançado.

Talvez nunca lhes tenha dito isso da forma mais direta. Tenho alguma dificuldade em transformar determinados afetos em discursos, sobretudo quando receio que as palavras façam parecer artificial aquilo que sempre foi natural.

Ainda assim, é importante reconhecer que parte da minha própria evolução, pessoal e profissional, foi acompanhada por essas duas presenças.

Conheceram versões diferentes de mim. A mais impulsiva, a mais confiante, a mais cansada e aquela que, por vezes, fingiu saber exatamente para onde estava a conduzir tudo isto quando, na realidade, apenas tentava ganhar tempo até encontrar uma resposta.

Nunca exigiram que eu estivesse sempre certo para continuarem por perto. Essa tolerância, quando não se confunde com submissão, é uma forma rara de lealdade.

A importância de quem não precisa de ocupar o centro

Num projeto, tende a ser mais visível quem chega com ideias novas, assume decisões ou aparece associado aos momentos de maior exposição. Contudo, existe um tipo de presença que trabalha noutra frequência.

É a presença de quem conhece a história, respeita o que foi construído e não precisa de provar diariamente a própria importância.

Os dois elementos representam essa continuidade. São a memória viva de um caminho que já atravessou mais mudanças do que muitas pessoas imaginam e ajudam-me a perceber que nem tudo precisa de ser reinventado apenas porque o presente exige velocidade.

Num tempo em que quase toda a gente parece procurar reconhecimento imediato, há um valor imenso em quem sabe permanecer sem exigir aplausos permanentes.

A experiência não resolve todos os problemas e a idade, por si só, não garante sabedoria. Porém, ambas podem oferecer perspetiva, desde que a pessoa esteja disponível para continuar a aprender.

Foi isso que encontrei neles. Não um apego cego ao passado, mas a capacidade de recordar de onde viemos sem impedir que o projeto se transforme.

Profissionalmente, essa estabilidade deu-me confiança. No plano pessoal, deu-me uma sensação de continuidade que nem sempre soube valorizar como deveria.

Há pessoas que nos ajudam a avançar. Outras ajudam-nos a não perder completamente o lugar de onde partimos. Precisamos das duas.

Crescer sem perder a força

Uma terceira pessoa entrou na minha vida há quase uma década, ainda muito nova, com uma rebeldia evidente e uma forma dura de enfrentar quase tudo.

Havia uma intensidade que, por vezes, parecia dificultar qualquer aproximação mais simples. As respostas chegavam depressa, a defesa aparecia antes de existir ataque e a sensibilidade permanecia escondida atrás de uma postura pouco disponível para interpretações delicadas.

Com o tempo, percebi que a dureza não era ausência de sentimentos. Era precisamente o contrário. Quem sente muito nem sempre aprende cedo a lidar com aquilo que sente. Há quem transforme a fragilidade em distância e quem prefira ser visto como difícil a correr o risco de ser visto como vulnerável.

Ao longo destes anos, assisti a um crescimento que não eliminou a personalidade, mas lhe acrescentou humanidade.

Continua a existir a rebeldia, a firmeza e uma capacidade muito própria de reagir perante aquilo que considera injusto. Contudo, hoje existe também uma atenção muito maior aos outros, uma preocupação genuína e uma sensibilidade que já não precisa de ficar permanentemente escondida.

Não foi uma transformação perfeita, porque nenhuma transformação humana o é.

Houve avanços, recuos e momentos em que a versão antiga regressou com toda a força. Ainda assim, o caminho tornou-se claro.

A pessoa que hoje está no projeto percebe melhor os silêncios, repara no que antes lhe passaria ao lado e compreendeu que cuidar dos outros não diminui a sua força. Pelo contrário, dá-lhe uma utilidade que a simples dureza nunca conseguiria ter.

É uma evolução que me orgulha, embora não pretenda apropriar-me dela. As pessoas mudam porque decidem mudar. Quem está por perto pode ajudar, provocar ou oferecer espaço, mas a escolha final pertence sempre a quem faz o caminho.

A inteligência que encontra saídas

A quarta pessoa chegou muito mais tarde e não precisou de demasiado tempo para revelar uma capacidade invulgar.

Existem pessoas inteligentes que precisam de silêncio, preparação e segurança para mostrar aquilo que valem. Depois, existem aquelas que parecem ganhar outra clareza precisamente quando tudo se complica.

Neste caso, a inteligência manifesta-se através da rapidez, da criatividade e de uma capacidade de improviso que já resolveu situações nas quais o plano inicial deixara simplesmente de existir.

Não se limita a executar aquilo que lhe é pedido. Questiona, adapta, reorganiza e encontra caminhos que nem sempre seriam os mais evidentes.

Há momentos em que essa forma de pensar se aproxima da genialidade, não por uma ideia romantizada de talento, mas pela capacidade concreta de ligar pontos, antecipar problemas e transformar limitações em soluções.

É uma qualidade rara e que reconheci cedo. Também percebi, com a mesma rapidez, que uma capacidade tão grande precisa de tempo para encontrar a estrutura pessoal que a permita crescer de forma sustentável.

Não escrevo isto como crítica, mas como confiança.

Há muito para amadurecer, como acontece com qualquer pessoa que ainda está a descobrir a dimensão daquilo que pode fazer. O talento, quando aparece com facilidade, pode criar a ilusão de que tudo se resolverá sempre através do instinto.

A vida acaba por ensinar que não. A inteligência precisa de consistência, o improviso precisa de responsabilidade e a criatividade torna-se muito mais poderosa quando encontra disciplina, serenidade e consciência do impacto que provoca nos outros.

Reconhecer aquilo que ainda falta não diminui o que já existe. Pelo contrário, significa que vejo uma capacidade suficientemente grande para esperar muito mais.

Não quero que ninguém seja reduzido a uma função

Ao escrever sobre estas quatro pessoas, seria fácil limitá-las ao papel que têm dentro do Infocul.pt. Seria também um erro. E eu detesto errar, embora obviamente o faça e continuarei a fazê-lo, mesmo que nem sempre conscientemente.

Nenhuma delas é importante apenas porque escreve, fotografa, coordena, acompanha ou resolve problemas. O valor profissional é real, mas não explica tudo aquilo que representam.

Fora do projeto, são pessoas com as suas próprias vidas, preocupações, dificuldades e ambições. Pessoas com quem partilhei conversas que não tinham qualquer relação com notícias, visitas, redes sociais ou decisões editoriais.

Em momentos diferentes, foram companhia, apoio, confronto e espelho. Ajudaram-me a perceber defeitos que eu preferia ignorar, ficaram quando a minha forma de estar não facilitava a permanência e mostraram-me, cada uma à sua maneira, que a lealdade não consiste em concordar sempre.

Por vezes, ser leal é contrariar. Noutras, é dar espaço. Também pode ser simplesmente continuar presente sem exigir que cada gesto seja reconhecido.

O Infocul.pt aproximou-nos, mas não esgota as relações que fomos criando. Quando desligamos os computadores, quando o telefone deixa de tocar e quando já não existe nenhuma publicação pendente, continuam a existir quatro pessoas que fazem parte da minha vida de maneiras diferentes.

É talvez essa a maior conquista. Um projeto pode terminar, mudar de nome, de formato ou de rumo. Aquilo que foi construído entre pessoas tem a possibilidade de permanecer, desde que nunca tenha dependido exclusivamente de uma função.

O que aprendi com os quatro

Com os dois mais velhos, aprendi o valor da permanência e da maturidade. Aprendi que não é necessário ocupar sempre o centro para ser essencial e que algumas das relações mais importantes são construídas longe dos momentos de maior visibilidade.

Com aquele que vi crescer durante quase dez anos, percebi que a dureza não é uma identidade definitiva. Uma pessoa pode continuar firme, intensa e rebelde, enquanto aprende a mostrar cuidado, preocupação e uma sensibilidade que sempre existiu, mesmo quando ainda não sabia como a expressar.

Com quem chegou há pouco mais de ano e meio, recordei que a inteligência pode transformar um projeto quando encontra liberdade para criar. Também percebi que reconhecer talento implica dar-lhe tempo para amadurecer, sem exigir uma versão final de alguém que ainda está a construir-se.

Nenhuma destas aprendizagens aconteceu através de grandes discursos. Aconteceu nos dias normais, nas discussões, nos imprevistos e nos momentos em que cada um mostrou quem era sem ter tempo para preparar uma personagem.

É aí que conhecemos verdadeiramente as pessoas. Não quando tudo corre bem, mas quando a pressão retira os filtros e deixa à vista aquilo que existe por baixo deles.

Eles também conheceram várias versões de mim

Seria confortável escrever este texto apenas a partir daquilo que observei nos outros, como se eu tivesse permanecido igual enquanto todos à minha volta cresciam.

Não permaneci. Também fui obrigado a mudar, a reconhecer erros e a aceitar que a exigência, quando não é acompanhada por humanidade, pode transformar-se numa forma de afastar pessoas.

Durante demasiado tempo, confundi controlo com proteção e acreditei que confiar significava perder autoridade. O resultado foi, muitas vezes, carregar sozinho responsabilidades que já poderiam ter sido partilhadas e dificultar a aproximação de quem demonstrava vontade de ajudar.

Estas quatro pessoas conheceram isso. Conheceram a minha impaciência, a necessidade de ter sempre uma resposta e a dificuldade em admitir cansaço. Viram-me defender o projeto com uma intensidade que, por vezes, ultrapassava o razoável e tiveram de aprender a distinguir o diretor da pessoa que existia por detrás dele.

Nem sempre lhes facilitei o trabalho. Também não lhes facilitei necessariamente a amizade. Talvez por isso valorize tanto o facto de ainda estarem presentes.

Não porque a permanência deva ser usada para desculpar tudo, mas porque significa que, apesar dos defeitos de cada um, existiu sempre alguma coisa suficientemente verdadeira para justificar a continuidade.

Um projeto feito de diferenças

Estas quatro pessoas não são iguais, nem seria desejável que fossem. Duas trazem a experiência de quem conhece quase toda a história. Uma representa uma transformação humana que me foi permitido acompanhar de perto. Outra transporta uma rapidez de pensamento e uma capacidade de criação que ainda têm muito espaço para crescer.

Há diferenças de idade, de temperamento, de percurso e de forma de encarar o trabalho. É precisamente por isso que podem ser importantes.

Uma equipa construída apenas com pessoas semelhantes torna-se previsível e, mais cedo ou mais tarde, incapaz de se confrontar consigo própria. As diferenças provocam tensão, mas também evitam que todos cometam o mesmo erro ao mesmo tempo.

O desafio está em garantir que essas diferenças não se transformam em competição permanente.

A experiência não deve olhar para a juventude com superioridade. A juventude não pode confundir velocidade com razão absoluta. A sensibilidade não pode tornar-se fragilidade constante e a inteligência não deve ser utilizada como atalho para fugir à responsabilidade.

Quando existe respeito, cada virtude consegue compensar uma limitação do outro. É assim que uma equipa se torna maior do que a soma das funções.

Agosto serve também para olhar para dentro

Há sempre temas importantes sobre os quais escrever. O país, a cultura, a televisão e os comportamentos públicos oferecem matéria suficiente para vários editoriais.

Desta vez, escolhi olhar para dentro. Não para fazer uma homenagem excessiva, nem para transformar quatro pessoas reais em figuras perfeitas. Todas têm defeitos, falham e continuarão a falhar. Eu também.

Escolhi escrever porque, por vezes, adiamos o reconhecimento como se houvesse sempre outro mês, outra oportunidade ou um momento mais apropriado. Depois, as equipas mudam, as pessoas afastam-se e aquilo que deveria ter sido dito enquanto ainda fazia diferença transforma-se numa frase tardia.

Estas quatro pessoas foram, são e serão importantes para o Infocul.pt. Mais do que isso, foram e continuam a ser importantes para mim fora dele.

Duas trouxeram anos de presença, experiência e uma estabilidade que me acompanhou profissional e pessoalmente. Uma mostrou que é possível trocar parte da dureza por cuidado sem perder identidade. A outra trouxe uma inteligência rara, uma criatividade imediata e a promessa de algo ainda maior à medida que crescer. Nenhuma delas precisa de ser nomeada para saber que está neste texto.

Talvez porque as relações verdadeiramente importantes não vivem apenas no nome que lhes damos, mas na marca que deixam.

Antes das funções, das responsabilidades e de tudo aquilo que cada um representa dentro de uma equipa, estão as pessoas. São essas que espero que permaneçam, mesmo quando um dia o projeto já não precisar de nós.

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