Filipa Cardoso levou a alma do bairro para o Palco Caixa e Alfama reconheceu-se nela

Filipa Cardoso levou a alma do bairro para o Palco Caixa e Alfama reconheceu-se nela, na noite deste sábado.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Nuno Tátá

Filipa Cardoso chegou ao Palco Caixa com a noite ainda quente. Lisboa tinha atravessado um sábado de temperaturas altas, mas o ar não arrefeceu quando o sol desapareceu. Em parte, a culpa foi dela.

No segundo dia da 14.ª edição do Caixa Alfama, a fadista percorreu diferentes lugares do seu universo musical. Cantou fado tradicional, entrou nos fados musicados e passou, inevitavelmente, pelas marchas populares, outra das grandes paixões da sua vida.

Não houve uma Filipa para cada género. Houve a mesma mulher em todos eles: frontal, inteira e com aquela alma de bairro que não se representa porque já faz parte da sua identidade.

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Alfama acolheu-a com carinho. Filipa devolveu-o por inteiro.

O bairro não é um cenário

Filipa Cardoso traz Lisboa na maneira de cantar. Não apenas a cidade dos grandes poemas, das fachadas antigas ou das imagens cuidadosamente preparadas para quem chega de fora. Traz sobretudo a Lisboa das pessoas, das conversas à janela, das marchas, das rivalidades entre bairros e de uma vida que continua a acontecer mesmo quando já não há turistas a fotografá-la.

Essa ligação dá-lhe uma verdade muito própria.

No Caixa Alfama, não precisou de explicar ao público de onde vinha artisticamente. Bastou-lhe cantar. A voz tem garra, mas não vive apenas da força. Há nela sentido de palavra, experiência de palco e uma personalidade que não se dilui quando muda de repertório.

Filipa pode estar diante de um fado tradicional, entrar num tema musicado ou entregar-se a uma marcha sem parecer deslocada em nenhum desses lugares. São linguagens diferentes, mas todas lhe pertencem.

As marchas, em particular, não aparecem nos seus concertos como um número simpático colocado para animar o público. Fazem parte da sua vida e da sua relação cultural com Lisboa. Quando Filipa as canta, conhece o orgulho, o bairrismo e aquela dose saudável de provocação que lhes dá sabor.

No Palco Caixa, essa passagem entre o fado e a marcha aconteceu sem rupturas. O concerto mudou de cor algumas vezes, mas nunca perdeu identidade.

A voz de uma mulher que não canta pela metade

Filipa Cardoso não é uma fadista de meios-termos. Mesmo quando controla a voz, há uma intensidade que permanece por baixo das palavras. Sente-se que a interpretação pode crescer a qualquer momento, mas também se percebe a experiência de quem já não precisa de provar tudo em cada canção.

Essa maturidade esteve presente ao longo do espectáculo.

Filipa sabe ocupar o palco e comunicar com quem está diante dela. Não cria uma parede de solenidade à volta do fado, nem transforma cada canção numa prova de resistência vocal. Canta com a força necessária, mas deixa espaço para o poema e para os músicos.

A voz chega primeiro pelo impacto. Depois ficam os pormenores: a forma como marca uma palavra, o modo como segura determinada frase e a mudança de expressão quando o tema lhe toca num lugar mais fundo.

É aí que Filipa se torna mais do que uma grande voz. Torna-se uma intérprete.

A “Tia Natália” e uma ausência que Alfama compreendeu

Um dos momentos mais profundos da noite chegou com A Fala da Mulher Sozinha, numa homenagem à “Tia Natália”, figura muito conhecida no meio fadista de Alfama, falecida recentemente.

O tema ganhou naquele contexto uma carga diferente. Não foi apenas mais uma canção do alinhamento. Tornou-se uma forma de dizer o nome de alguém que já não estava, diante de muitas pessoas que sabiam exactamente de quem Filipa falava.

Nestes momentos, o excesso estraga quase tudo. Filipa percebeu-o. A emoção esteve na voz e na intenção, sem necessidade de fabricar uma cerimónia em redor da ausência.

A Fala da Mulher Sozinha foi cantada como quem deixa uma conversa por terminar.

Para parte da plateia, tratou-se de uma interpretação sentida. Para Alfama, foi mais do que isso. O bairro conhecia a pessoa, a história e o espaço que ficou vazio. E quando uma homenagem encontra memória do outro lado, a canção deixa de pertencer apenas a quem a canta.

Filipa entregou-a. Alfama recebeu-a em silêncio. Aplaudindo fortemente após a interpretação.

Quatro músicos dentro do mesmo concerto

Mike11, na guitarra portuguesa, Manel Vaz da Silva, na viola, Vasco Sousa, no baixo, e Sadik Afonso, na bateria, acompanharam a fadista e deram ao espectáculo a amplitude necessária para atravessar os diferentes territórios do alinhamento.

A formação permitiu manter o recorte do fado, mas também abrir o som quando chegaram os temas musicados e as marchas. Essa versatilidade foi importante para que o concerto não parecesse dividido em várias partes sem relação entre si.

Os músicos mantiveram-se atentos à voz, deram-lhe apoio sem a prender e perceberam quando deveriam avançar. Filipa teve espaço para se soltar porque havia segurança por detrás dela.

O resultado foi uma formação coesa, capaz de respeitar o lado mais íntimo do fado e, pouco depois, acompanhar a energia popular das marchas sem tornar a mudança artificial.

Uma história antiga com o Caixa Alfama

Filipa Cardoso não chegou agora ao Caixa Alfama. Ao longo dos anos, passou por diferentes palcos do festival e deixou concertos que ajudaram a firmar a relação com este público.

Essa história também aumenta a exigência. Regressar a um lugar onde já se foi feliz pode ser mais difícil do que uma estreia. Há memória, comparação e uma expectativa criada por tudo aquilo que aconteceu antes.

Filipa voltou a estar à altura.

Não repetiu simplesmente uma fórmula nem viveu dos concertos anteriores. Levou ao festival a artista que é hoje: mais madura, conhecedora dos seus recursos e confortável na pele que veste.

Há um orgulho evidente na forma como representa o fado, mas existe também prazer. E foi particularmente importante vê-la divertir-se dentro de um espectáculo que teve espaço para a profundidade, para a homenagem e para o lado mais popular da sua identidade.

Filipa não tratou a felicidade como se fosse um pecado menor dentro do fado.

A temperatura da noite não baixou

O concerto terminou com a sensação de que Filipa Cardoso continua a encontrar no Caixa Alfama um lugar que lhe assenta bem. Não apenas pela proximidade geográfica e cultural com o bairro, mas porque este festival permite que todas as suas dimensões convivam no mesmo palco.

O fado tradicional não expulsou os temas musicados. As marchas não diminuíram a solenidade dos poemas. A homenagem à “Tia Natália” não precisou de transformar toda a noite em luto. Houve espaço para cada coisa no seu tempo.

Filipa foi intensa sem passar o espectáculo inteiro a tentar demonstrar intensidade. Foi bairrista sem transformar Lisboa num postal. Foi popular sem diminuir o rigor. E foi fadista em todos os momentos, mesmo quando o alinhamento a levou para lá da estrutura mais tradicional do género.

Depois de um dia de muito calor, esperava-se que a temperatura finalmente baixasse com a chegada da noite.

Filipa Cardoso não deixou.

Saiu do Palco Caixa com mais um concerto muito bem conseguido na sua história com o festival. Alfama recebeu uma das suas vozes mais reconhecíveis e ouviu nela qualquer coisa de si própria.

A fadista levou o bairro na voz. O bairro respondeu-lhe como se responde a quem é da casa. Mesmo que o seu coração bata mais forte pelo Alto do Pina, ontem entregou-o por inteiro a Alfama.

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