The Weeknd tomou conta do Restelo com fogo, luz e uma sucessão de êxitos, no primeiro de dois concertos, este fim-de-semana.
Fotos: Sebastien Nagy
O artista canadiano regressou a Portugal três anos depois para apresentar a «After Hours Til Dawn Tour». Num Estádio do Restelo transformado numa cidade em ruínas, Abel Tesfaye conduziu mais de duas horas de concerto sem dar grande descanso ao público.
Ainda havia alguma luz sobre Lisboa quando se percebeu que o Estádio do Restelo já não parecia um estádio. No relvado estava montada uma cidade em ruínas, atravessada por uma longa passagem e dominada por uma enorme figura dourada. Ao fundo, do outro lado do Tejo, via-se o Cristo Rei. Cá dentro, porém, toda a atenção estava concentrada no palco.
The Weeknd regressou a Portugal para dois concertos, nos dias 5 e 6 de setembro, depois de ter atuado no Passeio Marítimo de Algés em 2023. Foi precisamente em Lisboa que começou, há três anos, a primeira etapa europeia da «After Hours Til Dawn Tour». Agora, a capital portuguesa recebeu as últimas noites desta passagem pela Europa.
A mudança para o Estádio do Restelo fez sentido. A produção é demasiado grande para viver apenas num palco convencional e as bancadas permitiram observar melhor tudo o que estava montado. Mesmo quem se encontrava longe conseguia acompanhar a movimentação do artista, das bailarinas e dos vários elementos cénicos.

Playboi Carti agitou, mas nem sempre convenceu
Prince 85, DJ e produtor francês que trabalha há vários anos com The Weeknd, abriu a noite enquanto o estádio continuava a encher.
Pouco antes das 20h00, Playboi Carti encontrou um recinto praticamente lotado. «FE!N» provocou a primeira grande agitação no público, sobretudo junto ao palco, seguindo-se temas como «Sky», «Type Shit», «CARNIVAL», «Timeless», «TOXIC», «Popular» e «ILoveUIHateU».
A atuação foi curta e barulhenta, mas nem sempre clara. Entre corridas pela estrutura, muitos gritos e uma base sonora que se sobrepunha constantemente à sua voz, ficou a sensação de que Playboi Carti podia ter dado mais. Houve energia, sem dúvida, embora parte dela tenha vindo mais do público e do volume do que propriamente do que aconteceu em palco.
O rapper voltaria a aparecer durante o concerto de The Weeknd. Aí, acompanhado pelo verdadeiro dono da noite, a sua presença resultou melhor.

Uma entrada pensada ao pormenor
Pouco depois das 21h00, as luzes apagaram-se e o Restelo ficou entregue ao fumo, aos tons vermelhos e aos olhos iluminados da enorme figura dourada colocada no centro da cenografia.
The Weeknd apareceu de máscara, também com os olhos iluminados, rodeado por dezenas de bailarinas vestidas de vermelho e com o rosto tapado. «Baptized in Fear» abriu o concerto, seguida por «Open Hearts» e «Wake Me Up».
A entrada foi imponente sem precisar de grandes apresentações. Aliás, durante os primeiros minutos, Abel Tesfaye quase não falou. Deixou que as imagens e a música explicassem o universo da digressão.
As 32 bailarinas distribuíram-se pelos diferentes pontos do palco, surgindo e desaparecendo entre o fumo, os arcos e os edifícios destruídos. No centro permanecia a escultura dourada de Hajime Sorayama, com cerca de 12 metros, difícil de ignorar mesmo quando The Weeknd percorria a longa passagem sobre o relvado.
Tudo tinha sido pensado para funcionar em grande escala. Por vezes, até em escala demasiado grande. Havia tanto para observar que o próprio artista corria o risco de se perder dentro do cenário. Ainda assim, Abel Tesfaye soube ocupar o espaço e chegar às várias zonas do estádio.

«Starboy» chegou quando a noite ainda estava a aquecer
«After Hours» trouxe o primeiro grande coro. A música cresceu com a produção visual e encontrou no público uma resposta forte, antes de «Starboy» aparecer bastante cedo no alinhamento.
É uma das maiores canções da carreira de The Weeknd e podia perfeitamente ter sido guardada para o final. Surgiu nos primeiros momentos do concerto e mostrou a quantidade de êxitos que o artista tinha ainda disponíveis.
«Heartless» e «Faith» mantiveram a intensidade, mas a primeira mudança importante aconteceu antes de «Cry for Me». The Weeknd retirou a máscara e mostrou o rosto pela primeira vez. A reação foi imediata e prolongou-se durante vários segundos.
Até ali, tínhamos visto sobretudo a personagem. A partir desse momento, Abel Tesfaye mostrou-se mais próximo, sorriu, falou com o público e recordou a ligação de Lisboa à digressão.
Essa proximidade ajudou o concerto. Com uma produção tão rigorosa, é fácil tudo parecer excessivamente ensaiado. Foram precisamente os momentos em que Abel parou, olhou à sua volta e reagiu ao público que deram alguma espontaneidade à noite.
De «São Paulo» às chamas de «The Hills»
A ligação ao universo de língua portuguesa chegou com «São Paulo», colaboração com Anitta. Mesmo sem a cantora brasileira em palco, a parte final em português ouviu-se com força nas bancadas e no relvado.
Seguiram-se «Until We’re Skin & Bones» e uma versão prolongada de «Take My Breath». Em «Sacrifice», a pirotecnia voltou a ganhar destaque, enquanto «How Do I Make You Love Me?» levou The Weeknd a percorrer sozinho a longa passagem no centro do público.
«Can’t Feel My Face» foi recebida como seria de esperar: com quase todo o estádio a cantar. Em «Lost in the Fire», as pulseiras luminosas distribuídas à entrada sincronizaram-se com as luzes do espetáculo e transformaram as bancadas numa extensão do palco.
Depois de «Often», «Given Up on Me» e «I Was Never There», chegaram os primeiros acordes de «The Hills». O fogo voltou a subir junto ao palco e acompanhou uma das canções mais importantes na passagem de The Weeknd do circuito alternativo para os grandes estádios.
A voz esteve segura durante toda esta sequência, embora a produção e as bases gravadas tenham assumido bastante peso. Não foi um concerto construído para mostrar apenas capacidade vocal. Foi pensado como um espetáculo completo, no qual música e imagem caminham sempre juntas.

Quarenta temas quase sem espaço para respirar
The Weeknd apresentou cerca de 40 temas em pouco mais de duas horas. Para conseguir atravessar tantos momentos da carreira, optou por versões encurtadas e por transições praticamente sem pausas.
O ritmo funcionou na maior parte do tempo, mas algumas canções mereciam ter ficado mais um pouco. Mal o público entrava por completo num tema, já o concerto estava a avançar para o seguinte. Em contrapartida, nunca houve um verdadeiro quebra de energia.
Playboi Carti regressou para «Timeless» e «Rather Lie». Desta vez, a participação teve outro impacto, beneficiando da presença de The Weeknd e de uma produção mais bem enquadrada.
Depois vieram «Creepin’», «Niagara Falls» e «One of the Girls». Esta última foi cantada com especial entusiasmo e confirmou a dimensão que alcançou para lá da série «The Idol».
«Stargirl Interlude», com a voz gravada de Lana Del Rey, alterou o ambiente e preparou uma fase mais próxima do público. Em «Out of Time», uma fã das primeiras filas cantou parte do tema e recebeu um abraço de Abel Tesfaye.
Foi um momento simples, mas necessário. Durante alguns segundos, o cenário deixou de comandar tudo.
Quando o público tomou conta das canções
«I Feel It Coming» manteve The Weeknd junto às primeiras filas, antes de «Die for You» voltar a reunir as bailarinas. Seguiram-se «Is There Someone Else?», «Wicked Games» e «Call Out My Name».
Nestes temas percebeu-se melhor que Abel Tesfaye não precisa sempre de estar rodeado por fogo, lasers ou dezenas de pessoas. Quando a produção lhe deu espaço, a voz e as melodias foram suficientes para prender o estádio.
Já perto das 23h00, «The Abyss» trouxe novamente a voz de Lana Del Rey. «Save Your Tears» e «Less Than Zero» prepararam o caminho para «Blinding Lights», inevitavelmente um dos pontos mais altos da noite.
Bastaram os primeiros segundos para levantar quem ainda se encontrava sentado. As pulseiras iluminaram todo o recinto e a voz do público sobrepôs-se várias vezes à de The Weeknd. Foi o momento em que o Restelo pareceu funcionar como um só espaço, sem grandes diferenças entre o palco, o relvado e as bancadas.
Ainda houve tempo para «House of Balloons», acompanhada por grandes balões lançados sobre o público, e «Moth to a Flame». A despedida fez-se com mais fogo e pirotecnia, mantendo até ao último instante a dimensão visual apresentada desde o início.
Um espetáculo maior do que um simples alinhamento
A «After Hours Til Dawn Tour» percorre vários períodos da carreira de The Weeknd, com destaque para os álbuns «After Hours», «Dawn FM» e «Hurry Up Tomorrow». Há também regressos a trabalhos anteriores e às músicas que transformaram Abel Tesfaye numa das figuras mais populares da música mundial.
Nem tudo precisou de ser gigantesco e algumas canções teriam beneficiado de maior tempo. A produção chegou mesmo a disputar protagonismo com o artista em certos momentos. Contudo, seria injusto reduzir o que aconteceu no Restelo a uma sucessão de efeitos.
Houve uma narrativa, uma identidade visual muito própria e, acima de tudo, um catálogo capaz de manter milhares de pessoas ligadas ao concerto durante mais de duas horas.
The Weeknd trouxe muita coisa ao Restelo. Trouxe uma cidade destruída, uma figura dourada, dezenas de bailarinas, fogo, lasers e pulseiras luminosas. Mas, quando tudo terminou, foram as canções que ficaram.
