Gonçalo Salgueiro escolheu ser feliz e deu ao Caixa Alfama um concerto avassalador

Gonçalo Salgueiro escolheu ser feliz e deu ao Caixa Alfama um concerto avassalador, ao final da tarde deste sábado.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Nuno Tátá

Gonçalo Salgueiro entrou em palco com Grito. O título não podia ser mais adequado ao artista que tínhamos diante de nós. Há vozes que cantam e há vozes que parecem abrir uma ferida no ar. A de Gonçalo pertence às segundas.

No segundo dia da 14.ª edição do Caixa Alfama, o fadista actuou no rooftop do Terminal de Cruzeiros de Lisboa, no Palco Ermelinda de Freitas. E, fazendo a analogia inevitável com o vinho, apresentou-se na fase certa da maturação: mais seguro, mais solto, feliz por estar ali e empenhado em fazer com que o público saísse igualmente feliz.

Esta última parte é importante.

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Gonçalo construiu o alinhamento a partir de muitas das canções que lhe são pedidas nas redes sociais e nos encontros com quem o acompanha. Não foi uma cedência fácil nem uma sucessão de temas escolhidos apenas para garantir aplausos. Foi uma forma de retribuição. O público disse-lhe o que queria ouvir e o fadista decidiu escutá-lo.

Durante muito tempo, a obra de Gonçalo Salgueiro mergulhou no amor, no desamor, na fé, na relação com Deus e nos abismos que existem entre tudo isso. Desta vez, sem renegar nenhuma dessas dores, escolheu ser feliz.

E essa escolha mudou o concerto inteiro.

A versão fénix de Gonçalo Salgueiro

Já muito se escreveu sobre os talentos de Gonçalo Salgueiro. Da voz, evidentemente, mas também da escrita, da representação e da capacidade para habitar universos artísticos muito diferentes sem se perder dentro deles.

Foi o grande rosto de Jesus Cristo Superstar, sob a direcção de Filipe La Féria, e há qualquer coisa dessa memória que ainda o acompanha. Não apenas na imponência vocal ou na teatralidade natural do corpo. Existe nele uma espécie de magnetismo que leva alguns dos seus seguidores a acompanhá-lo quase como se acompanha um artista de culto.

Não se trata de adoração cega. Trata-se da forma como Gonçalo se entrega e do modo como essa entrega atinge quem o escuta.

No Caixa Alfama, apareceu uma versão fénix do fadista. Não a figura caída que regressa entre cinzas, mas o artista que já passou por tudo isso e agora sobe ao palco sem carregar o sofrimento como uma obrigação. A dor continua no repertório, porque faz parte dele. Contudo, já não manda sozinha.

Gonçalo mostrou-se mais leve, comunicativo e disponível. Falou com o público, recebeu as reacções, brincou e deixou que a felicidade lhe atravessasse o rosto. Não perdeu intensidade por isso. Pelo contrário. A leveza permitiu-lhe cantar com uma liberdade ainda maior.

O corpo inteiro participou no espectáculo. Os braços, o rosto, a postura e a forma como se deslocava davam outra dimensão às palavras. Não havia gestos colocados para parecer intenso. Gonçalo vive fisicamente aquilo que canta. A voz começa dentro dele, mas não termina na garganta.

Em palco, é impossível separá-lo dos poemas.

Uma das grandes vozes deste país

Dizer que Gonçalo Salgueiro é uma das melhores vozes de sempre da música portuguesa não resulta do entusiasmo de uma noite. É reconhecer um instrumento vocal fora do comum, trabalhado por um artista que sabe exactamente o que possui e, mais importante, sabe o que fazer com isso.

A extensão impressiona. A potência arrasta. Mas o verdadeiro domínio revela-se quando controla, contém e recusa a facilidade de mostrar tudo apenas porque pode.

Gonçalo tanto consegue levantar uma interpretação até um lugar quase operático como recolher a voz e deixá-la próxima da fragilidade. Essa passagem entre força e contenção dá profundidade ao que canta. A nota grande nunca aparece só para exibir capacidade. Chega porque o poema a pediu.

Em Grito, abriu imediatamente o manancial vocal e avisou ao que vinha. Não perdeu tempo a aquecer o concerto diante do público. Entrou inteiro, sem medo de estabelecer logo uma fasquia difícil de manter.

Manteve-a.

Quatro músicos, um só corpo em palco

Rafael Pacheco e Diogo Ferreira, ambos na guitarra portuguesa, Ginestal Martins, na viola de fado, e Manel Vaz da Silva, no baixo, acompanharam Gonçalo Salgueiro numa actuação absolutamente magistral.

São quatro jovens músicos, mas o destaque não lhes é dado por benevolência geracional. Mereceram-no pela qualidade. Estiveram imaculados na execução, atentos às mudanças de intensidade e sempre ligados àquilo que o fadista fazia.

Não houve uma voz à frente e quatro músicos atrás.

Houve cinco artistas a respirarem o mesmo concerto.

Essa comunhão percebeu-se na segurança com que Gonçalo arriscou, prolongou frases, mudou intensidades e entregou partes das canções à resposta dos instrumentos. Os músicos seguiram-no sem submissão e também o desafiaram, criando uma relação viva que nunca pareceu automática.

Quando chegou o momento da guitarrada, com Variações em Ré, de Fontes Rocha, receberam finalmente o espaço inteiro. E aproveitaram-no. A interpretação foi brilhante, tecnicamente irrepreensível e suficientemente livre para não parecer apenas uma demonstração académica de virtuosismo.

A juventude estava nas mãos. A maturidade ouviu-se na forma como tocaram.

Fernanda Maria, um pinheiro e a chuva de Agosto

Através Daquela Porta trouxe a homenagem a Fernanda Maria. Gonçalo respeitou o peso do tema sem ficar refém de uma versão anterior. Levou-o para dentro da sua voz e encontrou-lhe um lugar próprio, com a reverência necessária, mas sem imitação.

Seguiu-se Ó Pinheiro, Meu Irmão, numa interpretação soberba. A canção ganhou dimensão através daquela voz enorme, mas foi sobretudo a entrega que a tornou especial. Gonçalo não cantou para cumprir mais um ponto do alinhamento. Agigantou o tema e levou consigo os músicos e o público.

Depois chegou Como Chuva em Agosto, dedicado a uma pessoa que se encontrava na assistência.

Foi um dos momentos vocalmente mais exigentes e mais conseguidos do concerto. O poema obriga a domínio, respiração e controlo das intensidades. Gonçalo soube crescer sem precipitação, segurou a voz nos lugares certos e soltou-a quando a emoção já não podia ficar contida.

A dedicatória tornou tudo mais próximo, mas a interpretação ultrapassou o destinatário. O que começou por ser dirigido a uma pessoa acabou entregue a toda a plateia.

A tristeza também sabe rir

Em Dar de Beber à Dor, Gonçalo soltou o lado mais divertido e colocou o público ainda mais dentro do espectáculo. A canção, profundamente ligada à memória de Amália Rodrigues, tem essa capacidade rara de vestir a tristeza com uma energia popular que quase nos faz esquecer aquilo que está a dizer.

Gonçalo percebeu-lhe o jogo.

Não transformou o tema numa brincadeira vazia, mas também não o carregou com uma solenidade que nunca lhe pertenceu. Divertiu-se, puxou pela assistência e deixou que o rooftop ganhasse uma atmosfera mais descontraída.

Era já evidente que o público não estava apenas a assistir. Fazia parte do concerto.

Essa relação não nasceu de frases ensaiadas entre as canções. Foi sendo construída através da maneira como Gonçalo olhava, respondia e recebia aquilo que vinha da plateia. Estava disponível para o momento e não apenas concentrado na actuação que tinha planeado.

Depois de Dar de Beber à Dor, entregou o palco aos quatro instrumentistas para Variações em Ré. A guitarrada funcionou como mais do que um intervalo vocal. Confirmou que aquela noite tinha uma formação musical de grande categoria e que cada elemento merecia ser escutado por inteiro.

Fado servido sem poupar na qualidade

Ao Cair da Noite abriu uma fase particularmente intensa do concerto. Gonçalo regressou da guitarrada com a voz fresca e a mesma fome com que tinha começado.

Dois Fados sem Voz voltou a colocá-lo no território onde é mais perigoso: aquele em que a intensidade do texto encontra uma interpretação capaz de a ampliar sem lhe retirar humanidade. Não houve sofrimento de exposição, fabricado para impressionar. Houve um artista a conhecer os cantos mais escuros daquilo que estava a dizer.

Em O Que É que Eu Digo à Saudade, brilhou novamente. A pergunta do título ficou a pairar sobre um concerto que tinha escolhido a felicidade sem fingir que a saudade deixara de existir.

Talvez tenha sido essa a maior conquista da noite. Gonçalo não precisou de expulsar a dor para parecer feliz. Cantou-a, enfrentou-a e recusou entregar-lhe o comando.

Durante esses temas, foi fado servido em bandeja de ouro. Não por qualquer luxo artificial, mas pela riqueza interpretativa, pela qualidade dos músicos e pela verdade colocada em cada palavra.

O cálice de um artista quase divino

Cálice de Perdão levou o espectáculo a outro lugar.

A fé e a relação com Deus atravessam uma parte importante da escrita e do repertório de Gonçalo Salgueiro. Na sua voz, essa dimensão não surge como ornamento nem como tentativa de criar solenidade. É uma inquietação verdadeira, feita de perguntas, culpa, entrega e procura.

Se existe nele alguma coisa de divino, não está numa figura distante ou intocável. Está na capacidade de transformar fragilidade em voz e fazer com que um poema pareça maior depois de passar por si.

Em Cálice de Perdão, Gonçalo reuniu tudo aquilo que o torna irrepetível. A força, o controlo, a teatralidade, a fé e um corpo que não consegue ficar de fora daquilo que canta. O tema cresceu até ocupar o espaço inteiro, sem que o fadista perdesse o domínio por um único instante.

Foi um daqueles momentos em que a plateia deixa de ouvir apenas uma canção e passa a assistir a alguma coisa que está realmente a acontecer diante dela.

Não se representa uma entrega assim. Ou se tem ou não se tem.

Gonçalo tem.

Lisboa ficou-lhe na voz

O remate começou com Boca Encarnada, também conhecida como Joaquina. Depois de uma noite atravessada por diferentes intensidades, Gonçalo manteve a comunicação directa e a alegria que tinham marcado o concerto desde o início.

O último tema foi Lisboa, Menina e Moça, numa homenagem a Carlos do Carmo, a pedido de uma familiar do fadista.

Escolher esta canção para fechar um espectáculo no Caixa Alfama poderia parecer previsível. Nas mãos erradas, seria apenas a imagem obrigatória de Lisboa colocada no final do alinhamento. Com Gonçalo Salgueiro, ganhou outra dimensão.

Cantou-a com respeito por Carlos do Carmo, mas sem procurar vestir uma voz que não é a sua. Lisboa apareceu através do olhar de Gonçalo, sobre um rooftop do Terminal de Cruzeiros, com a cidade e o fado unidos no mesmo final de tarde.

Foi um final à altura de tudo o que tinha acontecido antes.

Gonçalo Salgueiro venceu a própria sombra

O público pediu muitas daquelas canções. Gonçalo ouviu, escolheu-as e devolveu-as com mais do que esperavam receber.

Podia ter feito um concerto apoiado apenas na dimensão extraordinária da sua voz. Seria suficiente para impressionar quase qualquer plateia. Preferiu dar mais. Entregou comunicação, corpo, alegria e uma proximidade que retirou qualquer distância entre o artista e quem o escutava.

Mostrou-se maduro sem estar acomodado. Feliz sem perder profundidade. Mais leve, mas nunca menor.

Rafael Pacheco, Diogo Ferreira, Ginestal Martins e Manel Vaz da Silva foram decisivos nessa construção. Tocaram como um quarteto e respiraram como parte do mesmo organismo artístico. Gonçalo confiou neles. Eles sustentaram-no, desafiaram-no e cresceram com ele.

No Palco Ermelinda de Freitas, vimos um fadista renascido. Não porque aquilo que existia antes tivesse desaparecido, mas porque Gonçalo parece ter encontrado uma nova forma de carregar tudo o que viveu. A dor continua lá. A fé também. O amor, o desamor e as perguntas a Deus permanecem dentro da obra.

A diferença é que, desta vez, Gonçalo Salgueiro não subiu ao palco para sofrer diante do público.

Subiu para ser feliz com ele. E foi absolutamente avassalador.

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