Ana Bispo Ramires analisa caso Ronaldo: “É muito menos natural aprender a perder o protagonismo”, afirmou sobre o caso.
A forma como for resolvida a situação de Cristiano Ronaldo terá consequências para todo o balneário da Seleção Nacional, considera Ana Bispo Ramires. No “Diário da Manhã”, da TVI, a psicóloga do desporto defendeu que a gestão das transições de carreira deve ser planeada e acompanhada por uma comunicação clara entre treinador e atleta.
A especialista salientou que os detalhes do episódio que levou Ronaldo a abandonar o estágio não são conhecidos publicamente. Por isso, admitiu que “várias coisas podem estar a acontecer ao mesmo tempo”.
Na sua leitura, a dimensão da decisão sugere que o jogador terá ponderado o que estava em causa: “É uma decisão que não é provavelmente tomada a quente, foi pensada, é percetível pelo atleta garantidamente que tem consequências, e consequências inclusivamente de viabilidade”, afirmou.
Ana Bispo Ramires enquadrou a reflexão nas exigências do desporto de elite, onde considera que atletas, treinadores e estruturas apresentam, por “seleção natural”, “competências psicoemocionais mais elevadas” para lidar com situações de pressão.
Clareza sobre o papel de cada jogador
Questionada sobre o significado de ficar no banco para um atleta com o percurso de Ronaldo, a psicóloga explicou que a interpretação de uma decisão técnica “depende sempre da articulação da relação treinador-atleta”.
O essencial, defendeu, é que o jogador saiba o que se espera dele e qual será o seu contributo para a equipa.
“O que é importante é que, e não é com este atleta, é com qualquer atleta, que haja um entendimento claro de qual é que é o seu papel, a sua responsabilidade, o que é que é expectável dele”, explicou.
Se a utilização prevista se situar “na casa dos 10 minutos, 20 minutos, 30 minutos”, essa informação deve ser comunicada para “que haja imediatamente uma regulação das expectativas do atleta”.
Segundo a especialista, a distância entre o que um jogador espera e aquilo que acaba por acontecer pode traduzir-se numa “frustração elevada”.
A dificuldade de perder protagonismo
Ana Bispo Ramires alargou a análise às pessoas cuja identidade está fortemente ligada ao desempenho profissional, incluindo atletas e gestores.
“Quando a nossa identidade está muito colada a uma parte grande daquilo que é a nossa concretização profissional, esta transição deve ser acautelada para que eu possa de facto fazer aqui uma passagem fluida”, afirmou.
A preparação desse momento exige acompanhamento: “Deve ser acautelado, deve ser planeado e deve ser facilitado e ser conduzido para que, de facto, estes processos de transição possam acontecer da forma mais facilitada possível.”
A psicóloga referiu ainda que a investigação aponta para a possibilidade de voltar a encontrar realização e sucesso noutras atividades, quando essa passagem é bem trabalhada.
Entre aprender a ganhar e aprender a viver com menos protagonismo, identificou a segunda tarefa como particularmente exigente. “Eu diria que é muito menos natural aprender a perder o protagonismo”, considerou.
Para alguém que foi valorizado e idolatrado por um país, o desafio passa também por “conseguir perceber como é que eu vou na minha vida conseguir integrar outro espaço onde eu possa sentir este tipo de retorno, este tipo de afeto”.
Uma resolução com impacto no balneário
Sobre eventuais contactos entre as partes, Ana Bispo Ramires reconheceu os limites da informação disponível: “Nós não sabemos o que é que está a acontecer em bastidores.”
Ainda assim, defendeu que a situação “deve ter necessariamente uma resolução feliz e uma resolução que seja planeada e que seja bem orquestrada”.
A forma de conduzir o processo, explicou, será observada pelos restantes internacionais e poderá influenciar a perceção que têm do seu próprio futuro na equipa.
“Não estamos a falar só do processo de transição deste atleta, estamos a falar do que todo o lote de atletas estão a ver, do que é que pode ser um processo de transição”, alertou, considerando que o desfecho terá “um impacto direto dentro do próprio balneário”.
