Pedro Abrunhosa critica intervenção policial no Porto: “Não ter casa é um drama inominável”, afirmou o artista.
O músico defendeu que a Câmara do Porto, as polícias e os manifestantes deveriam ter procurado uma solução através do diálogo. Numa publicação no Facebook, relacionou o protesto pelo direito à habitação com décadas de respostas insuficientes e questionou a justificação para a intervenção na Praça D. João I.
Pedro Abrunhosa pronunciou-se esta quinta-feira, 15 de outubro, num texto organizado em sete pontos, que apresentou como uma tomada de posição “sobre a carga policial na Praça D João I, Porto, contra manifestantes pelo Direito à Habitação”.
A crítica começou pela atuação dos sucessivos governos. Para o músico, o descontentamento que leva as pessoas a manifestarem-se não pode ser separado das dificuldades de acesso a uma casa.
“Décadas de negligência dos sucessivos governos no cumprimento da Constituição sobre o Direito a uma Habitação condigna não poderiam deixar de resultar num massivo e legítimo descontentamento social”, escreveu.
“O espaço público é o local para reivindicar que a Lei se cumpra”
Na publicação, Pedro Abrunhosa defendeu a legitimidade da ocupação do espaço público como forma de reivindicação, enquadrando-a naquilo que considera ser o incumprimento das responsabilidades do Estado.
“Quando o Estado não cumpre os seus deveres perante a população, e a esta nada mais sobra como forma reivindicativa, o espaço público é o local para reivindicar que a Lei se cumpra”, afirmou.
O músico contestou também uma leitura do episódio centrada exclusivamente na ordem pública.
“Alegar o incumprimento da Lei para justificar a carga policial desta madrugada no Porto é abrir o flanco sobre o longo incumprimento constitucional e reduzir o assunto à mera escola da ordem pública”, declarou.
Estas considerações integram a posição pública do artista sobre a intervenção e sobre a resposta política à crise da habitação.
Abrunhosa defende diálogo entre Câmara, polícias e manifestantes
Como alternativa à intervenção, Pedro Abrunhosa apontou uma negociação visível entre os diferentes envolvidos. Na sua perspetiva, esse caminho não resolveria o problema da habitação, mas permitiria encontrar uma resposta para a ocupação da praça.
“Estabelecer um caminho de diálogo entre representantes da CMP, das Polícias e dos manifestantes, tornando-o bem visível aos olhos de todos, teria sido, a meu ver, muito mais significativo para a comunidade, para a cidade e um sinal muito mais positivo para o país. Não se resolveria ali a crise instalada na habitação mas resolver-se-ia a crise da ocupação do espaço público, evitando-se a escalada”, defendeu.
O cantor destacou ainda as consequências da falta de habitação para diferentes grupos da população, pedindo que o assunto seja tratado com seriedade.
“Não ter casa é um drama inominável que afecta sobretudo os mais jovens, os vulneráveis e os idosos e que merece ser tratado com toda a seriedade na esfera pública”, escreveu.
“Um acampamento não resolve a coisa, apenas a nomeia”
Nos últimos pontos da publicação, o músico reconheceu que um acampamento urbano pode causar incómodo, mas sustentou que essa perturbação faz parte da sua capacidade de chamar a atenção para o problema.
“Um acampamento urbano pode ser um incómodo, um acontecimento indesejado, mas é precisamente esse o poder simbólico do mesmo”, considerou.
Pedro Abrunhosa terminou estabelecendo uma distinção entre dar visibilidade à crise e encontrar uma solução para ela, questionando o contributo da resposta policial.
“Um acampamento não resolve a coisa, apenas a nomeia. Nem uma coisa nem outra faz uma carga policial”, concluiu.
