Gosto dos Monda desde o primeiro disco. A ligação que conseguiram estabelecer entre o cante alentejano e a world music conquistou-me logo nessa altura e continua a ser uma das razões pelas quais acompanho o seu percurso com particular atenção. Há uma identidade neste projeto que reconheço e valorizo, uma maneira de trabalhar a tradição que lhe permite circular por outros lugares sem perder o sentido de pertença.
“Talvez Amanhã” confirma essa admiração, embora não venha substituir o lugar que a estreia ocupa em mim. Continuo a considerar o primeiro disco o mais visceral emocionalmente. Foi aquele que mais me atingiu, que estabeleceu uma relação mais imediata e funda com a minha sensibilidade. Este novo trabalho encontra-me de outra maneira: pela maturidade, pela forma como o conjunto respira, pela confiança de quem conhece o caminho percorrido e consegue dar-lhe continuidade sem precisar de repetir o primeiro impacto.
Interessa-me essa diferença. Acompanhar um grupo ao longo dos anos também implica aceitar que a emoção muda de forma, que aquilo que nos conquista num primeiro encontro pode dar lugar a outras razões para ficar. Nos Monda, essas razões continuam presentes. Jorge Roque, Pedro Zagalo e Herlander Medinas têm construído um percurso que merece ser ouvido com atenção, sobretudo num tempo em que tanta música parece chegar já preparada para ser rapidamente substituída.
A maturidade está na forma como o conjunto respira
Quando digo que “Talvez Amanhã” é um disco maduro, penso sobretudo na relação entre as suas partes. Na forma como o conjunto respira e como essa respiração sustenta a escuta. É aí que encontro o seu principal mérito, nessa sensação de um trabalho que tem consciência de si e que ganha quando lhe damos tempo.
Há uma diferença entre reunir boas canções e construir um disco ao qual apetece regressar. Os Monda continuam a dar-me essa vontade de voltar. Mesmo quando tenho preferências muito claras dentro do alinhamento, interessa-me ouvi-las no espaço a que pertencem, em relação com aquilo que as antecede e lhes sucede.
A produção assumida pelo trio, com a participação de Dinis Mateus na produção de “Tanta Culpa”, acompanha um repertório onde convivem diferentes autorias e proveniências. O popular encontra lugar ao lado da criação própria e de canções de outros autores. Essa convivência é parte importante da identidade dos Monda e ajuda a explicar por que motivo a sua música nunca me parece fechada numa ideia demasiado estreita de tradição.
O que mais valorizo nesta ligação entre o cante alentejano e a world music é precisamente a possibilidade de reconhecer uma origem e, ao mesmo tempo, sentir espaço para a descoberta. Há uma liberdade nesse encontro que me interessa muito mais do que a preocupação de encaixar o grupo numa prateleira.
“Quem Me Dera”, “Três Passos” e “Litania para um Amor Ausente”
As minhas preferências neste disco são claras: “Quem Me Dera”, a versão acústica de “Três Passos” e “Litania para um Amor Ausente”. São os três temas que mais me dizem e aqueles que destaco dentro de um trabalho cuja força encontro, antes de tudo, no conjunto.
“Quem Me Dera” parte do repertório popular, com arranjos dos Monda. “Três Passos” tem letra e música do próprio grupo e surge aqui em versão acústica. Já “Litania para um Amor Ausente” reúne uma letra de Luigi Pignatelli e música de Vitorino, também com arranjos dos Monda. Três proveniências distintas que cabem naturalmente no universo que o trio tem vindo a construir.
Não preciso de transformar estas escolhas numa classificação definitiva das melhores canções do álbum. São as minhas, aquelas em que a relação com o disco se torna mais próxima. Numa crítica assinada, essa distinção importa: há o trabalho que procuramos compreender e há aquilo que, por razões nem sempre inteiramente explicáveis, nos toca mais.
Estas três escolhas também mostram a amplitude do projeto. A relação com a memória popular convive com a vontade de escrever e com a capacidade de acolher outras vozes autorais. É uma das qualidades que reconheço aos Monda desde o início: conseguir que diferentes caminhos musicais encontrem uma casa comum, sem que a identidade do grupo se dilua nesse encontro.
A tradição merece continuar a ter futuro
Tenho pouca paciência para a ideia de que respeitar a tradição implica limitar-lhe os movimentos. Uma herança musical desta riqueza merece continuar a encontrar intérpretes que a trabalhem, que lhe façam perguntas, que a aproximem de novas sensibilidades. O respeito também se manifesta através dessa disponibilidade para criar.
Os Monda interessam-me muito por isso. A ligação ao Alentejo tem profundidade suficiente para permitir outras aproximações. O encontro com a world music faz parte da forma como entendo e aprecio o grupo, dessa capacidade de levar uma identidade consigo enquanto se abre a outras possibilidades.
Neste disco, o repertório popular de “Pombinha”, “Quem Me Dera” e “Aurora” convive com contributos como os de Dinis Mateus, Carlos Godinho e Francisco Melo, além da composição dos próprios Monda e da presença autoral de Luigi Pignatelli e Vitorino. Essa diversidade oferece matéria para um trabalho de continuidade e criação que me parece particularmente valioso.
É também por aí que passa a maturidade de “Talvez Amanhã”. Pela confiança com que diferentes materiais são acolhidos dentro de um projeto com personalidade. Ao terceiro disco, interessa-me perceber que essa personalidade continua a ter espaço para crescer.
Música com personalidade num tempo de tanta imitação
Os Monda representam, para mim, uma musicalidade qualitativamente superior à de muita produção que hoje conquista exposição. Assumo essa opinião sem dificuldade. Reconheço-lhes uma consistência artística que me faz falta em propostas demasiado ocupadas a reproduzir aquilo que acabou de funcionar para outra pessoa.
Não conheço as decisões comerciais do grupo, nem preciso de lhes atribuir uma guerra declarada aos algoritmos. Falo do que a sua música me transmite: a liberdade de existir com identidade própria, sem a ansiedade de parecer igual ao que está a resultar naquele momento.
Há excelente música pop, evidentemente. O que me cansa é a carneirada pop, essa sucessão de fórmulas, poses e soluções tão semelhantes que, por vezes, a novidade se resume ao nome de quem as apresenta. Cansa-me a ideia de que tudo deve ser imediatamente reconhecível, facilmente recortável e suficientemente familiar para não exigir grande atenção.
É nesse contexto que valorizo ainda mais os Monda. Gosto de encontrar música que me dê razões para permanecer, que tenha personalidade e que não esgote o seu interesse no primeiro contacto. “Talvez Amanhã” oferece-me essa possibilidade.
O alcance de uma canção pode dizer-nos muito sobre a sua circulação. Sobre o seu valor, diz bastante menos do que tantas vezes se pretende fazer crer. E continuo a preferir formar o meu gosto através da escuta, mesmo quando isso me coloca longe do entusiasmo coletivo do momento.
O primeiro disco continua a ser o mais visceral
Seria fácil terminar a dizer que este é o melhor disco dos Monda. Mas não seria inteiramente fiel àquilo que sinto. O primeiro continua a ocupar um lugar emocional que “Talvez Amanhã” não veio retirar-lhe. Há uma força visceral naquela estreia que permanece comigo e que faz parte da minha relação com o grupo.
Isso não diminui o novo trabalho. Permite-me, aliás, apreciá-lo pelo que me oferece agora. A maturidade com que o conjunto respira, a coexistência de diferentes autorias e a continuidade de uma identidade que admiro são razões suficientes para o considerar um disco importante no seu percurso.
“Quem Me Dera”, “Três Passos”, na sua versão acústica, e “Litania para um Amor Ausente” ficam como as minhas escolhas. O álbum fica pela vontade de o voltar a ouvir. E os Monda continuam entre os projetos portugueses cuja qualidade musical faço questão de defender.
Num tempo em que tanta gente parece querer chegar ao mesmo sítio pelo mesmo caminho, sabe-me bem ouvir um grupo que continua a justificar a atenção pela sua própria personalidade. Foi isso que me conquistou no primeiro disco. É isso que me mantém aqui.
