“Derek vs Derek”, de James Dawson, conquistou o Grande Prémio Ambiente do CineEco 2026, numa edição que levou a Seia histórias sobre diferentes formas de trabalhar a terra, enfrentar catástrofes e preservar a relação com a natureza. O documentário britânico acompanha dois agricultores vizinhos com o mesmo nome, mas com ideias muito diferentes sobre o futuro das suas propriedades.
Segundo o comunicado de imprensa da organização, a 32.ª edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela registou mais de 3000 espectadores, a participação de 1120 alunos de escolas do concelho de Seia e arredores e a presença de 45 cineastas de 15 países.
Os prémios foram entregues no sábado, 17 de outubro, no auditório da Casa Municipal da Cultura de Seia. A organização anunciou também as datas da próxima edição: o CineEco regressará de 8 a 16 de outubro de 2027.
Dois vizinhos e uma disputa sobre o futuro da terra
Vencedor da competição internacional de longas-metragens, “Derek vs Derek” situa-se em Devon, no Reino Unido. De um lado está Derek Banbury, produtor de leite que vê com preocupação a transformação da quinta vizinha. Do outro, Derek Gow, antigo criador de gado que decidiu converter as suas terras num refúgio para a natureza.
A relação entre ambos permite ao filme abordar as resistências à mudança e as dificuldades de conciliar diferentes perspetivas sobre o uso do território.
Na fundamentação divulgada no comunicado, o júri do Grande Prémio Ambiente, oferecido pelo Município de Seia, destacou:
“Num contexto de evidente polarização política e cultural, é difícil imaginar pontos de convergência. A procura de soluções para os problemas que enfrentamos, particularmente os de natureza ecológica, continua refém de questões como a aparente complexidade da sua implementação, a resistência à mudança, a dificuldade em estabelecer o diálogo e a falta de vontade política.”
A menção honrosa desta competição foi atribuída a “The System”, do realizador neerlandês Joris Postema.
Bárbara Paz distinguida por documentário sobre as cheias no Brasil
O Prémio Camacho Costa, destinado à competição de longas-metragens em língua portuguesa, foi entregue a “Rua do Pescador N.º 6”, de Bárbara Paz.
Filmado a preto e branco, o documentário aborda as inundações que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, centrando-se nas consequências humanas da catástrofe e na perda de casas, referências e património.
O júri valorizou a forma como a realização aproxima o espectador dessa experiência:
“Os ângulos e os movimentos de câmara em determinadas cenas do filme conduzem-nos, metaforicamente, às emoções e aos sentimentos. Aquilo que fica para trás — a riqueza daquelas pessoas, o seu património material e imaterial. As emoções indescritíveis — a dor, o desespero e a perda.”
Já o Prémio Antropologia Ambiental, integrado nas competições internacionais de longas-metragens, distinguiu “Iron Winter”, do australiano Kasimir Burgess.
O filme acompanha Batbold, um jovem que enfrenta a responsabilidade de proteger mais de mil cavalos durante um inverno extremo no vale de Tsakhir, na Mongólia. Na apreciação reproduzida pela organização, o júri salientou a abordagem às “tensões entre ancestralidade e tecnologia, tradição e mudança, sem as reduzir a simples oposições”.
Curtas e médias-metragens premiadas
Na competição internacional de curtas e médias-metragens, o prémio foi atribuído a “1,5 y Más”, do espanhol Miguel Dorado.
O júri destacou o “enredo cativante e instigante, aliado a uma excelente execução técnica”, considerando que o filme aborda grandes questões contemporâneas, “oferecendo múltiplas camadas de interpretação”.
“Remigia’s Lessons”, da realizadora filipina Jewel Maranan, recebeu a menção honrosa.
Na competição de curtas e médias-metragens em língua portuguesa, venceu “Floresta do Fim do Mundo”, de Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança. A menção honrosa foi para “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”, de Daniel Soares.
O Prémio Educação Ambiental distinguiu o documentário brasileiro “Guerreiros Plantados”, de José Carbonel e Rui Mendonça.
Foram ainda premiados “El Canto del Jaguar”, de Antonia Silva Alvarado, na categoria de Curta-Metragem de Ficção, Não Ficção e Animação, e “Aller & Retour”, de Lucia Bulgheroni e Michele Greco, com o Prémio Curta-Metragem de Animação.
“Maços e Martelos” vence Panorama Regional
A competição Panorama Regional distinguiu “Maços e Martelos”, de Tiago Cerveira, documentário dedicado a um gesto ancestral que persiste nas serras do interior português.
De acordo com o comunicado, o realizador já tinha conquistado prémios nesta categoria em 2015, 2019 e 2020, regressando agora ao palmarés do festival.
Entre os prémios especiais, que abrangem todas as competições, “Black Water”, de Natxo Leuza, recebeu o Prémio Valor da Água. O Prémio Juventude foi atribuído a “La Fjella Leve”, de Håvard Bustnes.
Com a próxima edição já marcada, a organização reafirmou o propósito que orienta o festival: “usar o cinema para pensar a nossa relação com o ambiente e o território”.
