Pedro Chagas Freitas publicou uma carta aos polícias escrita na voz de uma criança de oito anos, questionando o uso da força contra manifestantes. Partilhado no Facebook este domingo, 1 de novembro, o texto contrapõe as imagens de violência às regras de proteção e solidariedade ensinadas na infância.
A publicação surge acompanhada por uma ilustração com o título «Carta às senhoras e aos senhores polícias», assinada “do Pechimperé”. O escritor recorre à perspetiva infantil para abordar a responsabilidade individual dos agentes e aquilo que aproxima polícias e cidadãos.
“Eu tenho 8 anos e gosto de polícias. Os polícias protegem, não deixam que os fortes façam mal aos fracos. É assim, não é?”, começa o texto.
A partir daí, a criança que dá voz à carta descreve as dúvidas provocadas pelas imagens transmitidas na televisão.
“Vi há bocado umas imagens na TV. Os polícias estavam a bater e a perseguir pessoas. Perguntei: ‘São ladrões?’ A minha mãe disse-me: ‘Não.’ ‘Estavam a fazer algum mal?’ O meu pai disse-me: ‘É complicado.’”
“Na minha escola há uma regra: quando alguém cai, paramos”
Pedro Chagas Freitas usa depois a expressão dos adultos para introduzir uma observação irónica.
“Os adultos dizem ‘é complicado’ quando não conseguem explicar alguma coisa. Eu vou começar a usar. Quando a professora perguntar se fiz os TPC: ‘É complicado.’”
O contraste entre o que se ensina às crianças e o que estas veem no comportamento dos adultos atravessa a publicação.
“Nas imagens, havia uma pessoa no chão. Fiquei confuso. Na minha escola há uma regra: quando alguém cai, paramos”, lê-se.
A carta questiona também as justificações assentes no cumprimento de ordens.
“Depois ouvi os polícias a dizerem coisas destas: ‘As ordens eram estas.’ ‘Foi o procedimento.’ Não percebi nada. Quando eu faço uma asneira e digo ‘Foi ele que mandou’, a minha mãe pergunta: ‘E tu não tens cabeça?’”
“Então porque estão em equipas diferentes?”
Na reflexão, o escritor aproxima as preocupações de quem protesta das dificuldades que também podem fazer parte da vida dos agentes.
“Já viram que os polícias e os manifestantes parecem muito diferentes, mas são tão parecidos?”, pergunta.
“Uns têm escudos, outros têm cartazes, mas os polícias pagam casa e os manifestantes também, os polícias têm filhos e os manifestantes também, os polícias têm medo de ficar sem dinheiro e os manifestantes também.”
Essa comparação dá lugar a duas perguntas: “Então porque estão em equipas diferentes? Quem fez as equipas?”
Como resposta, a voz infantil propõe uma equipa comum, com um nome inventado.
“Se calhar, deviam estar todos na mesma equipa. Era uma equipa grande, imbatível. Podia chamar-se assim: TODUNS.”
“É todos mais uns. Os adultos estão sempre a falar de ‘uns’ e de ‘outros’; eu acho que, antes de sermos uns ou outros, somos todos”, acrescenta.
O “Nãozão” e a coragem de proteger
Dirigindo-se diretamente aos agentes, a carta apresenta a recusa como uma forma de coragem.
“Senhoras e senhores polícias, aprendi nos filmes que um herói às vezes tem de dizer não. É esse o maior superpoder: o Nãozão.”
O conceito é explicado através da linguagem de uma criança: “O Nãozão é um ‘não’ enorme usado para impedir uma coisa pequena de se tornar numa coisa horrível.”
O recreio da escola serve de exemplo para esse apelo à proteção de quem está numa posição mais vulnerável.
“No recreio é assim, sabem? Quando todos estão a gozar com um menino, há um que não se ri. Às vezes nem diz nada, fica ao lado dele. Esse é o mais corajoso do recreio. Eu acho que vocês podiam ser esse.”
Na parte final, Pedro Chagas Freitas associa a força à obrigação de a usar com maior cuidado.
“A minha avó diz que quem tem muita força tem de ter ainda mais cuidado. Quanto mais força temos, mais devagar devíamos usá-la.”
A carta termina com a ideia que sustenta toda a reflexão: “Eu tenho 8 anos. Não sei quase nada. Mas acho que, quando alguém está indefeso, não precisamos de ser mais fortes do que ele. Só precisamos de ser melhores.”
