Pedro Chagas Freitas agradece a Ronaldo com uma reflexão sobre os 23 anos na Seleção e as memórias pessoais que o futebol ajuda a guardar. Numa publicação no Facebook, o escritor defendeu que o percurso do jogador não deve ser reduzido à forma como terminou.
A mensagem acompanha uma imagem do camisola 7 com a palavra “Obrigado” e começa por contestar a importância atribuída ao desfecho.
“Dizem que o que interessa é como acaba, mas quem diz isso não sabe nada de futebol, e muito menos de vida.”
“O fim é uma merda, como a morte é uma merda.”
O autor desenvolveu depois a ideia de que o significado está no caminho percorrido.
“Importa é a vida, o espaço desarrumado entre começar e acabar. O fim é um apito, uma camisola dobrada pela última vez. O resto foram vinte e três anos.”
“Vinte e três anos, porra. Como se coloca isso num texto?”
“Começamos pela palavra mais linda da língua portuguesa: Obrigado.”
“Fizeste com que tantos milhões vivessem melhor”
Pedro Chagas Freitas respondeu também a quem considera que Ronaldo se limitou a desempenhar a sua profissão.
“Alguns dizem que só fizeste o teu trabalho. Têm razão, mas estão a ver só a parte da frente da realidade. Eu sou apaixonado pelo que uma realidade faz a outras realidades. Tu fizeste o teu trabalho e fizeste com que tantos milhões vivessem melhor.”
“É incrível como um golo, uma finta, podem fazer de uma vida uma experiência melhor, não é?”
O escritor recordou as diferentes gerações que acompanharam a carreira do avançado.
“Houve crianças que levantaram os braços nos recreios e gritaram como tu, houve pais que viram jogos teus com o filho ao colo e agora esse filho conduz, trabalha, talvez já tenha filhos também.”
“Um futebolista gigantesco entra na memória íntima das pessoas.”
Uma referência ao pai
A homenagem ganhou uma dimensão pessoal quando o autor relacionou os jogos com as pessoas que os acompanharam ao longo da vida.
“Quando o vemos, sabemos onde estávamos, contra quem jogávamos, quem estava vivo, quem ainda estava sentado ao nosso lado. O futebol serve para guardar pessoas, não serve?”
Entre parênteses, acrescentou: “Estás aí, meu pai? Amo-te muito, muito.”
“Tu guardaste milhões de pais, de mães, de avós, de avôs, de filhos, de primos, de amores, de amigos. Obrigado.”
Entre admiração e crítica
Pedro Chagas Freitas abordou também a relação dos portugueses com o jogador, marcada por elogios e exigências.
“Obrigado por nos fazeres olhar para nós. Passámos a vida a discutir se eras egoísta ou extraordinário, arrogante ou obcecado, genial ou excessivo, problema ou solução.”
“Foste tudo. Somos todos tudo, não somos?”
“Choraste, caíste. Não há melhor exemplo do que ver um grande a cair e a depois levantar-se.”
O autor resumiu o impacto de Ronaldo no país com duas frases: “Foste Portugal. Aumentaste-nos.”
“Amámos-te por isso, e também te criticámos, claro. Desconfiamos sempre de quem é grande?”
“Pedimos-te tudo. Quando ganhavas, era o mínimo; quando falhavas, dizíamos que devias ter ido embora. É a nossa forma de amor, entre o fado e Pessoa.”
A publicação terminou com uma reflexão sobre o lugar do futebol na vida de quem o acompanha.
“O futebol é inútil, e salva tanta gente, não salva?”
“Tudo o que torna a vida suportável é inútil: uma música, um beijo, uma gargalhada, um poema, um golo aos 90 minutos.”
“Obrigado. Não interessa como acabou. Interessa como aconteceu.”
