Hipots apresenta «Ride or Die»: “Não quero chegar a um público maior e descobrir que deixei de me reconhecer ao espelho”

Hipots apresenta «Ride or Die», um dueto com Cashmere que dá continuidade à construção de uma nova identidade artística. Em entrevista ao Infocul.pt, fala da colaboração, do reconhecimento internacional e das dificuldades em encontrar espaço em Portugal, sem esquecer quem o acompanhou desde o início.

A conversa passa pelos prémios conquistados nos Estados Unidos, pela chegada da sua música aos «Morangos com Açúcar» e pelos palcos que marcaram o percurso. Mas também pelas canções que prefere guardar, pelo orgulho dos pais e pela preocupação de crescer sem perder aquilo que o levou a começar.

Cashmere trouxe outra perspetiva a «Ride or Die»

O encontro com Cashmere aconteceu através de amigos. Depois de assistir a alguns concertos da artista, Hipots ficou com vontade de perceber o que poderiam criar juntos. A oportunidade surgiu quando começou a escrever «Ride or Die» e sentiu que faltava uma voz feminina.

“Há encontros que acontecem por acaso, mas que parecem já estar escritos algures. Conheci a Cashmere através de amigos, vi alguns dos seus concertos e ficou-me aquela sensação de que havia ali qualquer coisa por descobrir musicalmente”, recorda.

O convite nasceu de uma intenção concreta: a colaboração precisava de acrescentar uma perspetiva à canção.

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“Quando comecei a escrever «Ride or Die», percebi que aquela música precisava de uma voz feminina. Não queria apenas alguém a cantar por cima da minha voz. Queria uma presença, uma outra perspetiva, uma espécie de contraponto à minha própria loucura. Lembrei-me dela, falei-lhe da ideia e felizmente aceitou. Às vezes, a música sabe antes de nós quem deve estar ao nosso lado.”

A letra aborda a permanência numa relação, seja ela amorosa ou de amizade. Hipots descreve uma ligação capaz de resistir aos momentos em que tudo parece falhar.

“«Ride or Die» fala de uma espécie de amor que não pede licença para existir. Daquelas ligações em que não interessa se o mundo está a desabar, porque há alguém que permanece. Pode ser uma relação amorosa, uma amizade ou aquela pessoa que conhece os teus demónios e, mesmo assim, não foge. Acho que todos temos alguém assim. Ou pelo menos devíamos ter.”

É também desse contraste entre a facilidade de partir e a decisão de ficar que nasce a mensagem do tema: “Vivemos numa época em que as pessoas entram e saem das nossas vidas como se fossem quartos de hotel. Este tema é sobre quem fica quando as luzes se apagam.”

Quando enviou a canção a Cashmere, Hipots já sabia o que pretendia transmitir, mas deixou espaço para a artista participar nas decisões.

“Quando comecei a escrever, a música já tinha uma identidade muito própria. Tinha uma ideia clara daquilo que queria transmitir. Enviei-a à Cashmere e deixei espaço para que ela pudesse entrar naquele universo e torná-lo também seu.”

Essa abertura faz parte da sua forma de trabalhar em colaboração. “Não acredito muito em controlar tudo quando se faz música. Há uma altura em que temos de deixar a canção respirar e permitir que outra pessoa lhe dê algo que nós nunca conseguiríamos dar. Felizmente, encontrámos esse equilíbrio sem grandes conflitos. Talvez porque estávamos a ouvir a mesma coisa, mesmo quando a ouvíamos de maneiras diferentes.”

“Não basta lançar uma canção e acreditar na sorte”

Depois de «Sempre» e «Tás à Vontade», o novo single surge numa etapa em que Hipots procura dar maior coerência à música, à imagem e à presença em palco. A entrada na DBK Collective contribuiu para essa mudança de perspetiva.

“Durante muito tempo, muitos artistas preocuparam-se apenas em fazer música e esperar que o mundo reparasse nela. Mas uma música não vive isolada. Tem uma alma, uma imagem, um corpo, uma história. A entrada na DBK Collective ajudou-me a perceber melhor essa dimensão.”

Para o músico, essa atenção exige um trabalho que vai além da composição e da gravação. “Hoje penso no artista como um universo que tem de fazer sentido em todas as suas manifestações. Não basta lançar uma canção e acreditar na sorte. Claro que o acaso existe, mas acredito mais que a sorte dá trabalho.”

Questionado sobre a possibilidade de estes lançamentos conduzirem a um álbum, Hipots explica que «Ride or Die» foi pensado como um single. Quanto à parceria com Cashmere, deixa a porta aberta.

“Cada música tem o seu próprio destino. «Ride or Die» nasceu como um single, dentro da identidade que estou a construir para o Hipots com a DBK Collective. Mas há coisas que não conseguimos prever. A química com a Cashmere foi muito natural e, quando duas pessoas encontram um território comum, não faz sentido fechar-lhe a porta. Se houver mais histórias para contar juntos, certamente haverá mais música.”

Do metal ao hip-hop sem ficar preso a um género

Embora o hip-hop seja central no seu percurso, as primeiras referências de Hipots passaram por outras sonoridades. Antes de encontrar no rap a sua linguagem, ouviu metal e rock, atraído pela energia e pela liberdade de quem estava em palco.

“Antes de encontrar o Hip Hop, perdi-me em muitos outros lugares. Comecei pelo Metal, com Pantera e Sepultura, depois vieram Nirvana, Soundgarden e Rage Against the Machine. Sempre me interessou aquela energia crua, quase animalesca, de pessoas que não estavam preocupadas em pedir autorização para fazer barulho.”

Os Rage Against the Machine tiveram um papel particular nessa descoberta, ao aproximarem duas formas de expressão que viriam a influenciá-lo.

“O Rage Against the Machine foi uma espécie de ponte. Ali encontrei o casamento entre a atitude do rock e a linguagem do Hip Hop. Depois chegaram Big Pun e Bone Thugs-N-Harmony, entre muitos outros. Acho que nunca pertenci verdadeiramente a um só género. A música é demasiado grande para vivermos fechados numa única divisão.”

Em 2010, lançou de forma independente o álbum «Nem Tudo É o Que Parece». Ao revisitar esse primeiro trabalho a solo, reconhece sobretudo as relações que o tornaram possível e a ambição de quem estava a começar.

“2010 parece ter acontecido noutra vida. Quando olho para esse disco, reconheço as pessoas, as amizades e aquela vontade quase ingénua de conquistar o mundo. E isso continua a ter valor. Há pessoas que participaram nesse álbum com quem voltaria a trabalhar hoje sem pensar duas vezes.”

A distância permite-lhe olhar para as canções sem exigir que representem o artista que é hoje. “Musicalmente, talvez algumas canções merecessem uma segunda vida, outras pertencem definitivamente àquele tempo. Mas não tenho qualquer problema com isso. Por isso a música é tão especial, é um processo de evolução permanente.”

As pausas e a experiência de criar em coletivo

Entre o primeiro álbum e o momento atual, houve períodos de menor produção e necessidade de repensar o caminho. Ainda assim, Hipots distingue essas pausas de uma vontade de abandonar a música.

“Desistir nunca foi uma palavra que tivesse verdadeiramente espaço na minha cabeça. Houve períodos em que fiz menos música, momentos em que precisei de parar, olhar à minha volta e perceber para onde queria ir.”

Os projetos que integrou também contribuíram para essa aprendizagem, tanto na criação como na relação com o público.

“Depois do primeiro álbum, passei por diferentes experiências, como os Strugglaz Project, onde misturámos Hip Hop e Reggae e aprendi muito sobre música e sobre estar em palco. Depois vieram os Richfellaz, que continuam no ativo. Por entre altos e baixos da vida, temos que por vezes parar um pouco e perceber para onde queremos ir.”

Trabalhar a solo e integrar um coletivo são experiências diferentes, às quais reconhece vantagens próprias. Nos Richfellaz, a partilha exige entendimento entre várias personalidades, mas também permite chegar a resultados que não alcançaria sozinho.

“A solo sou o meu próprio território. Posso ir até onde quiser, sem pedir licença a ninguém. Nos Richfellaz é diferente. Somos várias personalidades a habitar a mesma música. Às vezes ocupamos o mesmo espaço, mas aprendemos a não nos atropelar.”

A amizade é uma parte importante desse processo: “Existe respeito, amizade e uma química que não se consegue fabricar num estúdio. O mais interessante é que, quando estamos juntos, acontece algo que nenhum de nós conseguiria produzir sozinho. Talvez seja isso que torna um coletivo verdadeiramente especial, deixamos de ser apenas pessoas e passamos a ser parte de qualquer coisa maior.”

Os prémios internacionais e o espaço em Portugal

Em 2023, os Richfellaz conquistaram o prémio de Canção do Ano nos International Portuguese Music Awards. No ano seguinte, Hipots foi distinguido a solo com «Vem Comigo», na categoria Hip-Hop/Rap/Dance.

As duas distinções nos Estados Unidos confirmaram-lhe que a música podia chegar a públicos fora de Portugal. Esse reconhecimento trouxe satisfação, mas também uma pergunta sobre as oportunidades no próprio país.

“Esses dois prémios, nos Estados Unidos, deram-me uma confirmação importante. Não porque precise de troféus para saber o que faço, mas porque perceber que a tua música consegue atravessar fronteiras e encontrar pessoas que não conheces é algo poderoso.”

“E inevitavelmente surge uma pergunta: se a música consegue chegar lá fora, por que razão não há-de encontrar o seu espaço em Portugal? A indústria tem os seus próprios labirintos e nem sempre vale a pena tentar encontrar uma explicação para tudo.”

Apesar das dificuldades, a motivação mantém-se. “Continuo a fazer música pela mesma razão que comecei. Não sei onde vai dar esta estrada, mas sei que ainda tenho muito para dizer. O resto pertence a Deus.”

A presença de «Epifania», a solo, e de «O Sol Brilha», dos Richfellaz, na banda sonora dos novos «Morangos com Açúcar» foi outra oportunidade de chegar a ouvintes. Hipots, porém, faz uma avaliação prudente do impacto.

“Foi uma alegria enorme saber que as músicas iam fazer parte de uma série que marcou uma geração. Os antigos «Morangos com Açúcar» tiveram uma dimensão quase cultural e algumas das músicas tornaram-se verdadeiros fenómenos.”

O artista considera que as diferenças entre as duas fases da série também se refletiram na exposição das canções.

“Esta nova fase teve uma realidade diferente, com outro horário e menos episódios semanais. Naturalmente, a exposição também foi diferente. Talvez tenhamos conquistado alguns novos ouvintes, mas não senti uma transformação gigantesca.”

Ainda assim, valoriza a possibilidade de a música chegar a alguém através da televisão. “Gosto de pensar que uma música pode encontrar alguém num momento inesperado. Às vezes, basta uma pessoa ouvir uma canção na altura certa para que tudo tenha valido a pena.”

Sobral de Monte Agraço e o orgulho dos pais

Nascido em Lisboa, Hipots viveu grande parte da vida em Loures e passou cerca de oito anos em Sobral de Monte Agraço. Foi neste último município que começou a encarar a música com maior compromisso.

“Foi ali que comecei a levar a música mais a sério. É curioso como, por vezes, são os lugares mais pequenos que nos dão os maiores palcos. Encontrei uma comunidade muito unida e um município que sempre abriu as portas à cultura e aos artistas locais.”

Entre as memórias desse período estão duas iniciativas que reuniram vários nomes do hip-hop nacional.

“Foi ali que nasceram iniciativas como a Supah Jam 1 e 2, que considero alguns dos momentos mais importantes do Hip Hop português, reunindo nomes como Sam The Kid, Regula, Xeg, SP & Wilson, Chullage, NBC, Blackmastah e tantos outros.”

Em 2025, recebeu a Medalha de Mérito Municipal de Sobral de Monte Agraço. Mais do que o reconhecimento institucional, guarda a possibilidade de ter partilhado o momento com os pais.

“A medalha representa muito para mim, principalmente por ter tido a minha Mãe e o meu pai presente nessa distinção, orgulhosos de estar a ser distinguido na sua terra do coração. Representa anos de trabalho, de cultura e de ligação às pessoas. Já não vivo lá, mas há lugares que nunca deixam verdadeiramente de viver dentro de nós. Sobral é um deles.”

A noite em que cantou com a voz da sua primeira cassete

Ao recordar os concertos que mais o marcaram, Hipots começa pela estreia a solo na Supah Jam 1. Seguem-se experiências com os Strugglaz e os Richfellaz, em palcos que lhe mostraram outras possibilidades para a sua música.

“Houve vários concertos que ficaram na memória. A estreia a solo na Supah Jam 1, rodeado de alguns dos maiores nomes do Hip Hop português, foi inesquecível. Com os Strugglaz, no Sumol Summer Fest, a abrir para Dub Inc e Alborosie, foi o primeiro grande palco que me mostrou outra dimensão da música ao vivo. Com os Richfellaz, tivemos a sorte de fazer a nossa estreia logo no MEO Sudoeste.”

Há, contudo, uma noite que destaca pela ligação à sua história como ouvinte. No Casino Estoril, partilhou o palco com Rui Pregal da Cunha, dos Heróis do Mar.

“Mas há uma noite que guardo de forma especial: um concerto no Casino Estoril, onde tivemos Rui Pregal da Cunha, dos Heróis do Mar, como convidado. Lembro-me de olhar para ele e pensar que estava a cantar ao lado do vocalista da minha primeira cassete de música.”

A experiência ficou associada à possibilidade de concretizar algo que antes parecia distante. “Foi um daqueles momentos em que o passado e o presente se encontram no mesmo palco. Foi aí que percebi que tudo é possível quando acreditamos muito numa coisa.”

As canções que ainda prefere guardar

Se a música lhe permite partilhar experiências e sentimentos, também existem limites para aquilo que pretende tornar público. Hipots tem temas escritos que permanecem por lançar, alguns por serem pessoais, outros por ainda não os considerar prontos.

“Tenho muitas músicas escritas que ainda não viram a luz do dia. Algumas são demasiado pessoais, outras são dedicatórias a pessoas que fazem ou fizeram parte da minha vida. Não acredito que tudo tenha de ser partilhado imediatamente.”

A decisão de esperar pode ter tanto que ver com o tempo de criação como com a forma de lidar com o que está a escrever.

“Há sentimentos que precisam de envelhecer, e há histórias que ainda não encontraram as palavras certas. Às vezes escrevemos uma música e pensamos que terminámos, mas percebemos que ainda falta qualquer coisa. Talvez porque ainda não conseguimos dizer tudo aquilo que queríamos. E há coisas que, mesmo transformadas em música, continuam a pertencer-nos apenas a nós.”

Chegar mais longe sem deixar de se reconhecer

A ambição internacional mantém-se nesta nova etapa. Hipots está a desenvolver músicas e a trabalhar a identidade do projeto, procurando explorar mercados onde já encontrou reconhecimento.

“Não tenho medo de atravessar fronteiras, nem de aprender novas formas de fazer as coisas. Uma carreira internacional exige trabalho, inteligência e também alguma capacidade de adaptação. Estou a trabalhar numa identidade mais sólida para o Hipots, a desenvolver novas músicas e a explorar mercados onde o nosso trabalho já teve reconhecimento.”

Nesse processo, identifica um limite que não quer ultrapassar: perder a ligação ao que acredita para conquistar mais público.

“Mas há uma coisa que não quero perder pelo caminho: a minha verdade. Não quero chegar a um público maior e descobrir que deixei de me reconhecer ao espelho. Quero que os meus filhos e a minha família possam ouvir as minhas músicas e sentir orgulho naquilo que transmito.”

É com essa preocupação que continua a construir o percurso, consciente das exigências profissionais, mas também do lugar pessoal que a música ocupa.

“A música pode ser um negócio, pode ser uma indústria, pode ser um espetáculo. Mas, no fim do dia, para mim, continua a ser uma forma de existir. E o caminho… esse só Deus sabe onde acaba.”

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