O advogado de Jorge Jesus considera que a saída de Cristiano Ronaldo da Seleção Nacional já era um cenário previsível desde 29 de setembro. No «Jogo Aberto», da SIC Notícias, Luís Miguel Henrique afirmou que o agravamento do conflito tornou um regresso cada vez mais difícil, embora o treinador mantivesse esperança.
As declarações foram prestadas na quinta-feira, 5 de novembro, depois do anúncio da despedida do avançado. A análise é feita por alguém que assume uma relação pessoal e profissional com o selecionador e participação em parte dos acontecimentos.
Questionado sobre se Jorge Jesus tinha sido surpreendido pela decisão, o jurista respondeu: “Eu diria que não.”
“Seria extremamente complicado”
Luís Miguel Henrique recordou textos em que já tinha manifestado dúvidas sobre a possibilidade de reconciliação.
“Quem leu há algumas semanas alguns artigos que eu ainda fiz no Record, eu escrevi claramente, há três semanas salvo erro, que estaria muito pessimista em relação ao regresso de Cristiano Ronaldo, porque conheço a personalidade de um e de outro, sei exatamente o que se passou naquilo em que estive diretamente envolvido, depois há coisas que eu estive indiretamente envolvido e há outras em que eu não estive envolvido de todo.”
O advogado ressalvou, assim, que não acompanhou todos os episódios, mas considerou suficientes aqueles de que teve conhecimento.
“Mas basta aquelas que eu estive diretamente envolvido e aquelas em que estive indiretamente envolvido para perceber que seria extremamente complicado.”
Na sua perspetiva, existiu uma oportunidade inicial para resolver o diferendo.
“Se calhar, a determinado momento, era possível nas primeiras 24, 48 horas, se as coisas não tivessem sido tão crescidas e empoladas, era possível ter-se esclarecido um conjunto de questões.”
As comparações com Fernando Santos e Jorge Mendes
O jurista atribuiu o afastamento progressivo a acontecimentos posteriores que, no seu entender, agravaram o problema inicial.
“Mas a partir de determinado momento, fruto de um conjunto de ações subsequentes que só agravaram problemas anteriores, as coisas tomaram uma dimensão que só quem não conhece um bocadinho da personalidade de Cristiano – eu não sou da área matemática, sou da área das ciências sociais e humanas e eu tinha um professor de história que dizia que, da análise do passado, tu compreendes o presente e antecipas um pouco o futuro.”
Para explicar a previsão que fazia, recuperou relações anteriores do futebolista.
“Bastava olhar, disse isso a duas ou três pessoas próximas, o que aconteceu entre Cristiano Ronaldo e Fernando Santos, entre Cristiano Ronaldo e Jorge Mendes, pessoas que teriam dado muito mais a Cristiano do que Jorge Jesus, que apenas trabalhou com ele um ano e deu-lhe o título de campeão da Arábia Saudita.”
Luís Miguel Henrique deixou depois uma apreciação crítica à forma como entende que Ronaldo reage a situações com as quais discorda.
“A partir do momento em que ele sente que há uma determinada situação que ele encara que não deveria ter sido assim, ele, mais do que a coerência que eu defendo, é extremamente, sem querer ofender, muito obtuso nas suas decisões e nas suas convicções.”
O dia que o advogado identifica como decisivo
Ao situar o momento em que passou a considerar mais provável uma rutura, o advogado apontou para a véspera do abandono do estágio.
“Eu tenho o dia 29 de setembro, mas por um conjunto de questões que aconteceram no dia 29 de setembro. A conferência de imprensa é dia 30.”
O jurista afirmou dispor de mensagens que sustentam a cronologia da sua previsão.
“Dia 29 tenho provas disso, porque tenho mensagens enviadas a quem de direito, fruto do que se estava a passar, eu disse que, neste momento, era muito complicado porque havia três cenários e, desses três cenários, o segundo era – disse claramente – que Cristiano vai arranjar um incidente para sair do estágio, com ou sem autorização, e o terceiro cenário era claramente de poder eventualmente, a partir de determinado momento, perceber que o espaço que ele idealizou ou como ele idealizou não era exatamente aquele que ele estava a encontrar e a partir desse momento ele saiu de fininho.”
Estas palavras descrevem os cenários que Luís Miguel Henrique afirma ter antecipado. Não constituem, por si, demonstração de que Ronaldo tenha planeado provocar um incidente.
“A mim não é surpresa nenhuma, desde o dia 29 de setembro esse cenário, para mim, era um dos claramente que estava traçado”, acrescentou.
Apesar desse pessimismo, garantiu que Jorge Jesus “teve a esperança” de voltar a contar com o jogador.
O aviso antes de trabalharem juntos no Al-Nassr
O advogado recuperou também uma conversa que, segundo contou, aconteceu quando Jorge Jesus foi para o Al-Nassr.
“Até vou contar outra história, porque no dia em que foi para o Al-Nassr, uma das pessoas mais responsáveis na CR7 SA, estávamos um bocadinho a brincar, mas um bocadinho a sério, disse-lhe isto: das duas uma: isto vai correr muito bem ou vai correr muito mal.”
Luís Miguel Henrique esclareceu que esse episódio era anterior ao conflito na Seleção.
“Não tem a ver com a Seleção, tem a ver um ano antes com a ida para o Al-Nassr. Se eles ganharem, vai correr lindamente. Pelo feitio e personalidade que cada um tinha, tinha tudo às vezes para correr mal, porque são muito parecidos.”
