Blaya abre a casa das memórias: “Este disco sou eu ao pormenor”, antecipou em entrevista ao Infocul.pt by ARDglobal.
Foto: Melissa Vieira
Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Blaya está numa fase de regresso às origens, mas sem abdicar do corpo, da dança e da provocação que sempre fizeram parte da sua identidade artística. Depois de “No Meu Tempo de Escola”, a artista editou “Biri Bam Bam”, um tema nascido da história dos pais, da travessia entre o Brasil e Portugal e da memória familiar que, agora, começa a ganhar forma em canções.
Nesta entrevista ao Infocul.pt by ARDGlobal, Blaya fala do novo álbum que vem a caminho, que define como uma “autobiografia cantada”, da colaboração com Maria João, da maternidade, das redes sociais, das polémicas e da vontade de continuar a ser livre num país que, acredita, ainda tem dificuldade em lidar com mulheres frontais.
“Biri Bam Bam” é mais do que uma música para dançar. É resistência, identidade e memória. E é também uma porta aberta para o chamado “gingado misturado”, conceito que Blaya usa para explicar a artista que é hoje: brasileira, portuguesa, alentejana, urbana, latina, popular, provocadora e emocional.
“Cada vez mais fui sentindo a necessidade de cantar a minha história”
Infocul.pt – “Biri Bam Bam” nasce de uma história muito pessoal, ligada ao percurso dos seus pais entre o Brasil e Portugal. Quando percebeu que essa memória familiar tinha de ser transformada em canção?
Blaya – Muita gente conhece a Blaya artista, mas não conhece a minha vida, de onde vim e todo o percurso que fiz até aqui. Cada vez mais fui sentindo a necessidade de cantar a minha história.
Infocul.pt – Ao falar dessa travessia dos seus pais, sente que está também a contar uma parte importante da sua própria identidade?
Blaya – Sem dúvida. Eu vejo os meus pais como pessoas resistentes e lutadoras, e isso acabou por me moldar como pessoa.
Infocul.pt – A música fala de resistência, força e sobrevivência emocional. Foi difícil entrar nesse lugar mais íntimo durante o processo criativo?
Blaya – Na verdade, foi muito simples escrever sobre ela. Mas, na primeira vez que cantei em frente à minha mãe, as lágrimas caíram-me pelo rosto.
Infocul.pt – O tema junta Dancehall, Forró e uma dimensão mais tribal. Como encontrou esse equilíbrio entre festa, corpo e memória?
Blaya – À medida que fui e vou crescendo, percebo que sou uma mistura de várias sonoridades e vivências. É isso que quero passar ao público. O meu corpo tem ritmo e a minha voz resistência.
Infocul.pt – Disse que, nesta fase, quer contar a sua história através de canções do seu “gingado misturado”. O que significa exactamente esse conceito para si?
Blaya – O gingado misturado é mesmo essa mistura com que fui crescendo. Nascida no Brasil, viajei até Portugal e parei no Alentejo. Nasci com a alegria da música latina, cresci a ouvir Spice Girls, Iran Costa e a cantar o fado para os meus pais ao pé da lareira, no Alentejo. Pelo meio ouvi “Tem que dançar o sal”, Papa Roach, Eminem e queria ser a Alicia Keys. Apresentava coreografias de dança ao som de Blasted Mechanism ao mesmo tempo que ouvia Sam The Kid e escrevia as minhas primeiras canções. Este é o meu gingado misturado.
Infocul.pt – “No Meu Tempo de Escola” revisita a infância no Alentejo. “Biri Bam Bam” olha para a origem familiar. Estamos a assistir a uma Blaya mais autobiográfica?
Blaya – Sinto que chegou esse momento de cantar partes da minha história.
Infocul.pt – Há uma preocupação maior, nesta fase, em deixar uma obra que conte quem é para além dos êxitos?
Blaya – Não diria que é uma preocupação, mas sim uma necessidade.
Maria João, liberdade e uma colaboração “fora da caixa”
Infocul.pt – A presença de Maria João dá à canção uma energia muito particular. O que é que ela trouxe a “Biri Bam Bam” que talvez mais ninguém pudesse trazer?
Blaya – A Maria João trouxe um lado bastante ancestral e tribal que eu procurava para esta canção. Quando a convidei, não sabia muito bem como iria ficar o tema, mas a forma como ela interpreta as músicas, nunca saindo do seu registo, fez-me confiar no resultado.
Infocul.pt – Falou num encontro que deu o “clique” para esta colaboração. Como foi esse momento?
Blaya – Alguns músicos foram convidados para um projecto solidário, a HELPO ONGD, e, no dia em que fui gravar a minha parte, ela já lá estava a gravar. Quando comecei a ouvir as suas ideias, pensei logo que seria uma colaboração super fora da caixa, mas que encaixava na perfeição.
Infocul.pt – Maria João é uma figura muito livre, muito visceral. Sentiu que essa liberdade combinava com a fase artística que está a viver?
Blaya – Quando a Maria João participou no Festival da Canção, olhei para a televisão e senti logo essa liberdade de expressão, o não ter medo de arriscar. E a música fala mesmo sobre isso: sair do seu conforto, arriscar, tentar e, se cair, voltar a levantar e a arriscar.
Infocul.pt – A colaboração também parece aproximar universos que, à partida, nem sempre se encontram. Gosta de criar esse tipo de surpresa no público?
Blaya – A música é uma arte livre e tenho pena que haja tantas caixas para a colocar. Tendo eu feito tantas coisas, seria estranho manter-me dentro de uma caixa.
Uma casa com molduras e a paz com as várias versões de Blaya
Infocul.pt – O videoclipe passa-se numa casa com uma parede cheia de molduras. Como nasceu essa ideia visual?
Blaya – Uma casa com molduras é uma casa com história. É como um convite a entrarem na minha casa e saberem mais sobre a minha história.
Infocul.pt – Essas molduras representam memórias, fases e versões diferentes da Blaya. Hoje já consegue olhar para todas elas com paz?
Blaya – Sim, consigo olhar para todas as fases em paz. Mas estou sempre a aprender todos os dias e sou a favor de que podemos mudar de opinião de um dia para o outro.
Infocul.pt – Há alguma versão antiga de si que o público talvez ainda não tenha compreendido totalmente?
Blaya – Sempre tentei ser o mais fiel a mim mesma. Se o público ainda não compreendeu, é porque tenho de voltar a explicar melhor.
“Este disco sou eu ao pormenor”
Infocul.pt – Este novo ciclo aponta para um álbum de originais. O que pode revelar sobre esse trabalho?
Blaya – Será uma autobiografia cantada, passando por várias fases da minha vida, temas que moldaram a artista que sou hoje em dia.
Infocul.pt – O álbum vai juntar Forró, Semba, Samba, Kizomba, Funk e música urbana. Como se organiza tanta influência sem perder coerência?
Blaya – Felizmente, vai juntar mais estilos. A partir do momento em que estou a ser eu, sem que me deixe intimidar pela opinião de fora, estou a ser coerente. Provavelmente, para quem ouve de fora vai pensar que sou maluca. Mas sou mesmo!
Infocul.pt – Sente que este disco é uma resposta artística à necessidade de juntar todas as “Blayas”?
Blaya – A Blaya livre que todos conhecem é livre porque tem histórias para contar. É livre porque passou por rejeição, aceitação, alegrias, tristezas e desafios. Este disco sou eu ao pormenor.
Infocul.pt – Ao longo da carreira, foi muitas vezes associada à energia, à dança e ao lado provocador. Este novo álbum também quer mostrar a sua profundidade emocional?
Blaya – Este gingado misturado vai juntar as duas coisas: energia, dança, provocação e voz activa ao abordar temas sociais.
Infocul.pt – Depois de “Lado B”, editado em 2025, sente que abriu espaço para o público conhecer uma parte mais íntima da sua vida?
Blaya – Foi um álbum que trouxe ao de cima um lado que ainda não tinha sido exposto. Mais do que isso, também me deu a oportunidade de escrever sobre outras coisas para agora conseguir juntar tudo.
Infocul.pt – O que aprendeu sobre si enquanto preparava estas novas canções?
Blaya – O que tenho vindo a aprender é que posso e devo abordar temas de intervenção através do corpo e da voz. Não tenho que me limitar.
Redes sociais, exposição e o peso de ser uma mulher livre
Infocul.pt – A sua carreira também foi marcada por momentos de grande exposição nas redes sociais. Como lida hoje com a opinião pública?
Blaya – Sou menos frontal, confesso! Mas há dias em que acordo e quero responder, outros em que nem sequer ligo.
Infocul.pt – Ao longo do tempo, algumas polémicas nas redes sociais acabaram por ganhar dimensão mediática. Sente que esses episódios tiveram impacto real na sua carreira?
Blaya – Sim, claro. Especialmente as coisas mais negativas. Portugal ainda é um país um pouco fechado e existem muitas coisas que, sendo noutro país, seriam vistas com mais leveza e naturalidade.
Infocul.pt – Houve momentos em que sentiu que as redes sociais não a estavam a ver como artista, mas apenas como personagem pública?
Blaya – Acho que isso acabou por ser culpa minha. Sempre fui uma pessoa que teve uma ligação com a internet muito aberta e sempre partilhei bastante com o público. É normal que muita gente se tenha relacionado mais com a minha maneira de ser do que com a minha música. Mas fui eu que deixei, e agora é um pouco difícil sair desse lugar.
Infocul.pt – Considera que o público português ainda tem dificuldade em aceitar mulheres que são frontais, livres e donas do próprio corpo?
Blaya – Claro que sim, mas uma das coisas que aprendi durante estes anos é que, se escolhermos muito bem as palavras, essa compreensão será mais fácil.
Infocul.pt – Alguma vez sentiu que teve de se explicar mais do que outros artistas por ser Blaya?
Blaya – Acho que não. Mas acredito que, se eu fosse mais simples, as pessoas iriam perceber melhor.
Infocul.pt – Com o tempo, aprendeu a proteger-se mais da exposição digital?
Blaya – Como disse ali mais em cima, a escolha de palavras é essencial.
Infocul.pt – Hoje, quando publica, pensa mais nas consequências ou continua a querer comunicar de forma espontânea?
Blaya – Gosto de comunicar de forma espontânea, mas claro que acabo por pensar nas consequências.
Infocul.pt – A Blaya que o público vê nas redes sociais corresponde à mulher que existe fora do ecrã?
Blaya – No geral, sim! Mas dou a sensação de que estou sempre on fire, e sou bastante calma.
Infocul.pt – Sente que ainda há uma imagem sua que gostaria de desmontar?
Blaya – A liberdade da mulher é uma imagem que tem que ser desmontada todos os dias. E é esta liberdade que eu tento desmontar sem ser julgada.
Maternidade, futuro e uma nova forma de olhar para a carreira
Infocul.pt – A maternidade mudou a forma como olha para a carreira?
Blaya – Em termos de responsabilidade, sim. Antes eu levava a vida sem pensar no futuro e hoje em dia tenho que pensar.
Infocul.pt – Que impacto teve ser mãe na sua relação com o corpo, com a música e com a exposição pública?
Blaya – Cresci a ver corpos diferentes e a admirá-los como são. Então, não houve impacto nenhum com a mudança de corpo. Em relação à música que faço, não teve nenhum impacto, mas sim com o tipo de música que ouço em casa. Tenho sempre esse cuidado. E, com a exposição pública, respeito a decisão dos meus filhos. Se eles não querem aparecer, não aparecem.
Infocul.pt – A maternidade trouxe-lhe mais força ou mais medo?
Blaya – Trouxe força para ser um exemplo, mas também medo da instabilidade da arte em Portugal.
Infocul.pt – Olha para os seus filhos como uma razão para ser mais livre ou mais cuidadosa?
Blaya – Ser mais livre e dona de mim, para terem opinião e serem livres para serem quem são. Mas com algum cuidado, claro.
Infocul.pt – Há decisões artísticas que toma hoje de forma diferente por ser mãe?
Blaya – Nunca iria passar uma temporada fora de Portugal a fazer música, por exemplo. Os meus filhos serão sempre a minha prioridade.
Infocul.pt – Sente que a maternidade também a aproximou mais da história dos seus próprios pais?
Blaya – Nunca será igual. Eu não tive que mudar de país, nunca tive que ter dez empregos diferentes, nunca saí de perto da minha família.
Buraka Som Sistema, ARRAIÁ.L e a Blaya luso-brasileira
Infocul.pt – Vai reunir-se com os Buraka Som Sistema para celebrar os 20 anos da banda no NOS Alive. Que peso emocional tem esse reencontro?
Blaya – Celebrar o que quer que seja com os meus mentores é sempre especial.
Infocul.pt – Quando olha para o percurso dos Buraka, sente que essa fase continua a viver dentro da sua identidade artística?
Blaya – Eles ensinaram-me como estar em palco e como abordar o público. Por isso, em todos os meus concertos, a vivência que tive com eles está presente.
Infocul.pt – Em nome próprio, está também a levar aos palcos “ARRAIÁ.L”, um espectáculo que junta arraiais portugueses e festas juninas brasileiras. Que Blaya encontramos neste concerto?
Blaya – A Blaya brasileira e a Blaya portuguesa.
Infocul.pt – Esse espectáculo parece condensar a sua identidade luso-brasileira. Era importante transformar essa mistura numa experiência ao vivo?
Blaya – O ARRAIÁ.L é uma mistura de vários estilos, mas com arranjos musicais bastante festivos.
Infocul.pt – Entre “Faz Gostoso”, “Só Love”, “Lado B” e estes novos temas, como constrói uma viagem por tantas eras diferentes em palco?
Blaya – É um trabalho desenvolvido com o meu director musical. Antes da tour começar, pensámos numa maneira de juntar todos estes estilos sem que ficassem super diferentes uns dos outros. Então existe a linha condutora mais festa, que acaba por ligar todas as músicas.
“Quero que dancem. Que sintam o ritmo”
Infocul.pt – Nesta fase, o que ainda sente que precisa de provar?
Blaya – Preciso de provar que está tudo ok em ser uma mulher livre, e que podemos dançar sem vergonha. Mas isto é uma coisa diária.
Infocul.pt – Gostava que este novo álbum mudasse a forma como o público olha para si?
Blaya – Este álbum é para quem quiser saber um pouco mais sobre mim e não para mudar a forma como olham para mim.
Infocul.pt – Depois de tantos estilos, fases e exposições, quem é a Blaya de 2026?
Blaya – É a Blaya exploradora, haha. Mas serei sempre fiel ao que sinto.
Infocul.pt – Que parte da sua história ainda falta contar?
Blaya – Bem, neste momento faltam as histórias da minha vida que vou contar no gingado misturado. Mas ainda sou nova e tenho muito a aprender.
Infocul.pt – Quando o público ouvir este novo trabalho, o que gostava que sentisse primeiro: vontade de dançar ou vontade de perceber melhor quem é a Blaya?
Blaya – Acho que primeiro quero que dancem! Que sintam o ritmo!
Perguntas rápidas
Infocul.pt – Uma palavra para definir “Biri Bam Bam”.
Blaya – Resistência.
Infocul.pt – Uma memória de infância que ainda vive na sua música.
Blaya – Ritmo.
Infocul.pt – Um ritmo que nunca sai do seu corpo.
Blaya – Percussões.
Infocul.pt – Uma coisa que aprendeu com Maria João.
Blaya – Diferença.
Infocul.pt – Uma versão antiga da Blaya que ainda a acompanha.
Blaya – Todas.
Infocul.pt – Uma polémica ensinou-lhe mais sobre os outros ou sobre si?
Blaya – Os dois.
Infocul.pt – Uma qualidade que a maternidade lhe trouxe.
Blaya – Paciência.
Infocul.pt – Um medo que perdeu com a idade.
Blaya – Mudar de direcção, se assim o sentir.
Infocul.pt – Um palco onde ainda sonha actuar.
Blaya – Neste momento sonho em formar alguém para pisar um palco.
Infocul.pt – Uma frase que define esta nova fase.
Blaya – Gingado misturado.
Infocul.pt – Depois de “No Meu Tempo de Escola” e “Biri Bam Bam”, sente que este novo álbum pode ser o trabalho mais completo da sua carreira até agora?
Blaya – Sim, até agora sim. Porque consigo juntar a dança à minha história.

