Cardeal Tolentino Mendonça reflete sobre o passado: “O gesto de esquecer é um gesto espiritual necessário”, assinalou.
O cardeal José Tolentino de Mendonça deixou nas redes sociais uma reflexão sobre o peso do passado e a necessidade de seguir em frente. O texto, com referência ao Avvenire, parte das perguntas que muitas pessoas continuam a carregar e que, por vezes, impedem uma vida mais livre no presente.
A mensagem não nega a dor nem as marcas deixadas pelo que ficou para trás. Ainda assim, aponta para uma ideia central: há momentos em que continuar preso ao que já aconteceu impede o recomeço.
As perguntas que prendem ao que já passou
Na reflexão partilhada, o cardeal começa por reconhecer que o passado deixa interrogações difíceis de silenciar. São perguntas que regressam, que procuram explicações e que podem manter a pessoa presa ao que não conseguiu resolver.
“Todos nós carregamos, do passado, uma série de perguntas sem resposta, que muitas vezes ainda nos prendem. “Ah! Por que foi assim? Por que as coisas não aconteceram de outra maneira?”. No entanto, deve chegar o momento em que essas perguntas devem ser abandonadas: o que foi foi.”
A frase marca o tom da publicação. Para Tolentino Mendonça, o passado não deve ser apagado, mas também não pode ocupar todo o espaço interior.
O risco de viver numa “floresta de fantasmas”
O cardeal alerta depois para o perigo de revisitar obsessivamente aquilo que já aconteceu. Na sua leitura, esse movimento pode fechar a pessoa à novidade e à graça do presente.
“Se nos perdemos para perfurar obsessivamente o passado, perdemos a possibilidade de acolher a novidade de graça que nos transforma no presente. O julgamento do passado não é a coisa mais importante, ao contrário do que pensamos.”
Para o cardeal, o essencial está na oportunidade de vida que continua a ser oferecida. Essa possibilidade deve ser acolhida, não apenas para cada um, mas também na relação com os outros.
“O importante é esta oportunidade de vida que o Senhor concede a cada um de nós e que ele quer que, por nossa vez, concedamos a nós mesmos e aos outros.”
A reflexão ganha um tom mais severo quando fala dos ajustes de contas que se arrastam. Tolentino Mendonça vê nesse apego um caminho sem saída.
“Os ajustes de contas que se arrastam no tempo, ou as intermináveis queis queim sobre coisas mal resolvidas são inúteis. O risco é que a vida se torne, ainda mais, uma presa em uma floresta de fantasmas. O passado é passado.”
Esquecer como gesto espiritual
Na parte final da publicação, o cardeal recorre a uma imagem de São Paulo, na Carta aos Filipenses. A passagem serve para sustentar a importância de deixar para trás aquilo que impede o avanço.
“Gosto de pensar em uma imagem sugerida por Paulo na Carta aos Filipenses: «Só sei isto: esquecendo o que está atrás de mim e inclinado para o que está diante de mim, corro para o meu destino» (Fl 3,13-14).”
Para Tolentino Mendonça, esquecer não é um ato superficial. É uma decisão espiritual, ligada à fé e à possibilidade de recomeçar.
“O gesto de esquecer, de deixar o que foi para trás, é um gesto espiritual necessário. Existe um passado que condena e, se não nos distanciarmos dele, se não dermos aquele salto que a fé exige de nós, não seremos capazes de recomeçar.”
Com esta mensagem, o cardeal José Tolentino de Mendonça deixa um convite à libertação interior. Não se trata de negar o que aconteceu, mas de impedir que o passado continue a comandar o presente.
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