Cardeal Tolentino de Mendonça convida a olhar a vida de outra forma: “Falemos de sementes”

Cardeal Tolentino de Mendonça convida a olhar a vida de outra forma: “Falemos de sementes”, referiu nas redes sociais.

O cardeal José Tolentino de Mendonça partilhou uma reflexão sobre a necessidade de interromper a pressa quotidiana e procurar novas perspetivas sobre a existência.

Numa homilia divulgada nas redes sociais, o religioso recorreu à imagem das sementes para questionar aquilo que cada pessoa precisa de transformar. O objetivo, explicou, passa por abandonar a superficialidade e aproximar-se de uma vida mais fecunda.

Olhar a vida a partir de outros ângulos

José Tolentino de Mendonça começou por defender que nem sempre é possível compreender a própria vida mantendo o mesmo ponto de observação.

“Queridas irmãs e irmãos, para olharmos para a nossa vida, muitas vezes temos de encontrar outros pontos de vista, outros ângulos, outras perspetivas.”

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Segundo o cardeal, esse movimento de mudança está também presente na forma como Jesus comunica.

“É isso que também Jesus faz. Jesus sai de casa e vai para a beira-mar. E, à beira do mar, conta parábolas, e as parábolas são também isso. A parábola é uma palavra que se desloca, literalmente.”

A parábola surge, assim, como uma forma de afastar o olhar das preocupações imediatas. Ao mudar a linguagem, torna-se possível chegar a perguntas que a rotina frequentemente impede.

Jesus fala de sementes em vez das preocupações diárias

Na reflexão, o cardeal contrapôs o desgaste do quotidiano à simplicidade da imagem escolhida por Jesus.

“Por isso, Jesus, em vez de falar dos nossos caminhos, das nossas viagens curtas, do nosso viver atropelado, da nossa ofegância, daquilo que conseguimos ou não conseguimos, do balancete interior de todos os dias, Jesus, em vez de falar de Maria, João, Antônio e de Tolentino, Jesus fala de sementes.”

Mais do que uma mudança de assunto, a escolha permite regressar às questões essenciais da existência.

“E diz: Não, vamos deixar isto e aquilo, quem tem razão, quem não tem razão, quem fez e não fez… Vamos deixar isso. Vamos falar de sementes.”

Para José Tolentino de Mendonça, falar de sementes significa procurar novamente o sentido original da vida.

“Isto é, vamos recuperar o sentido original da vida. Vamos perguntar porque é que estamos aqui.”

Distanciamento ajuda a encontrar as perguntas profundas

O cardeal reconheceu que a intensidade dos dias nem sempre permite refletir sobre as razões mais fundas do caminho de cada pessoa.

“Vamo-nos perguntar pelas razões profundas do nosso viver, que é uma coisa que, às vezes, na luta do dia a dia, no combate, nós não temos, esse distanciamento necessário.”

Na sua perspetiva, algumas respostas só podem começar a surgir quando existe espaço para interromper o ruído e ganhar distância.

“No fundo, as perguntas profundas só vêm quando a gente se distancia.”

Por isso, José Tolentino de Mendonça voltou à imagem central da homilia.

“Então, em vez de falar da vidinha, falemos de sementes, sementes que o próprio Deus semeia na nossa vida.”

“A nossa vida pode ser estéril e pode ser fecunda”

A reflexão prosseguiu com uma oposição entre uma existência fechada sobre si própria e uma vida disponível para receber e fazer crescer a semente.

“A nossa vida pode ser estéril e pode ser fecunda. Isto nós sabemos no íntimo de nós próprios.”

O cardeal deixou depois uma pergunta sobre aquilo que precisa de mudar para que a vida deixe de permanecer apenas à superfície.

“No fundo, o que é que cada um de nós tem de transformar na sua vida para a fazer passar de um lugar de superficialidade, onde nada entra, porque é uma vida defendida e armada, para uma vida que é uma terra boa, onde a semente pode começar uma história, onde a semente pode ser promete essa que se concretiza?”

A interrogação conduz a outra, centrada no caminho interior de cada pessoa.

“O que é que cada um de nós tem de fazer para passar da superficialidade à profundidade?”

Perguntas que não podem ser adiadas

José Tolentino de Mendonça sublinhou que estas questões não devem ficar esquecidas no meio das preocupações diárias.

“São perguntas vitais na nossa vida, que nós não podemos adiar, não podemos fazer de conta que não estão aí.”

Na conclusão, o cardeal colocou frente a frente duas possibilidades: realizar plenamente a vida ou deixá-la presa ao adiamento.

“Trata-se de viver e consumar, de realizar plenamente a vida ou de deixá-la adiada, suspensa, até estragada: a vida entre os espinhos e entre as pedras, a vida que nunca se encontrou com a possibilidade de ser fecunda e de ser plena. — Card. José Tolentino de Mendonça©, homilia.”

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