Eládio Clímaco preocupado com Vítor de Sousa e revela episódio antigo sobre Maria Elisa na RTP, em entrevista ao site Dioguinho.
Foto: Eládio Clímaco – Instagram
Há nomes que atravessam a história da televisão portuguesa sem precisarem de grandes apresentações. Eládio Clímaco é um deles. Em entrevista ao DIOGUINHO, a antiga estrela dos “Jogos Sem Fronteiras” recordou episódios da RTP, mas também falou de uma preocupação atual: Vítor de Sousa.
O ator, segundo o relato de Eládio, vive afastado de muita gente próxima. O apresentador não dramatiza para além do que sabe, mas admite que o caso inquieta colegas e amigos.
A preocupação com Vítor de Sousa
Ao falar de antigos companheiros, Eládio Clímaco explicou que continua ativo, a sair, a falar com pessoas e a atender telefonemas. Porém, quando o nome de Vítor de Sousa surgiu, o tom mudou.
O apresentador descreveu um afastamento prolongado do ator e recordou o período em que ambos participaram em gravações de audiolivros. Para Eládio, esse trabalho foi uma fase particularmente feliz.
“O Vítor é um caso, eu não digo que seja errado, deve ser um caso como muitos outros, está numa profunda depressão não quer tratar-se, não quer saber de nada. Uma coisa que a mim me dava muito prazer fazer, e a ele também, quando convidam para fazer audiolivros. Foi durante um ano, de leitura, um ano impressionante de positividade, de alegria, mas ele estava sempre a dizer “eu já não digo bem, eu já não leio bem”, e eu “não digas isso, também me engano mas qual é o problema?” Aí já o começava a sentir que não estava satisfeito com coisa alguma, depois acabou o audiolivro e aí eu falei duas ou três vezes. Tínhamos um barbeiro em comum, encontrei-o lá duas ou três vezes, e depois quando eu ia cortar o cabelo diziam-me, “não, não, o Vitor ainda não apareceu e, outras vezes, “três meses depois apareceu-me aqui com o cabelo nas costas”. Não quer ver ninguém, não quer sair com ninguém pronto, e é assim que ele está. Ele não me atende, ele tinha uma paixão pela Simone de Oliveira, eram unha com carne, falavam todos os dias, mas a Simone também não consegue fazer nada, ele não quer, não quer, eu não sei…”
Apesar da preocupação, Eládio Clímaco não acredita que Vítor de Sousa tenha desistido de viver. Ainda assim, reconhece que há muito que desconhece sobre o quotidiano do ator.
“Não, desistir não desistiu, porque isso tinha dado sinais. Quer estar sozinho, deve ver televisão, não sei, tinha um afilhado, não sei se o afilhado o visita não faço ideia, não sei se tem alguém, não faço ideia.”
Maria Elisa, o nariz e uma televisão antes do 25 de Abril
Mais à frente, a conversa recuou para os primeiros tempos de Eládio Clímaco na RTP. Foi aí que surgiu Maria Elisa, numa memória que mostra bem o peso das escolhas feitas nos bastidores da televisão.
Na altura, Eládio entrou num grupo de novas caras da estação pública, ao lado de nomes como Maria Elisa e Raul Durão. Primeiro, ficaram 12 rapazes e 12 raparigas. Depois, a seleção apertou.
“Não éramos conhecidos uns dos outros, mas pronto, seríamos eventualmente colegas. E quando fomos escolhidos, ficámos 12 rapazes e 12 raparigas, e já tivemos uma aproximação do que é ser colega e amigo. E depois só ficaram seis de um lado, seis de outro, porque o Valadão, que era o Presidente na altura, chamou-nos lá e disse, “você sim, você não, eu não gosto de si porque não fez isto ou aquilo” e então com a Maria Elisa foi uma coisa muito engraçada. O Valadão achava que ela tinha um nariz muito grande. Tinha talento, mas tinha que fazer uma operação ao nariz para ficar lá. Eu já fazia um programa, fiz logo um programa de entretenimento na altura, que era uma coisa que era um bocadinho tonta. Era um programa que era ‘Nós, Vós, Elas e…’, que era um programa que falava da emancipação da mulher.”
A história cruza televisão, censura e uma época ainda anterior ao 25 de Abril. Eládio sublinhou que falar da emancipação da mulher, naquele contexto, não era propriamente confortável.
“E ninguém queria falar num programa de emancipação da mulher, no tempo da censura e do Salazar e do Valadão. Mas como a pessoa que tinha feito o programa, e que o tinha apresentado ao Valadão, era amiga dele, lá deixou passar. Portanto, eu era o apresentador principal.”
O poema que abriu caminho
Maria Elisa, segundo Eládio Clímaco, não fez a operação ao nariz. Ainda assim, acabou por encontrar espaço na televisão. E um pedido simples terá ajudado a mudar o rumo.
A antiga colega quis dizer um poema no programa. Eládio arranjou forma de isso acontecer. Depois, a carreira seguiu outro caminho.
“Ela estava um bocadinho fora, tinha que fazer a operação ao nariz, e tinha sido lá metida pela Maria Germana Tangente, que era íntima amiga dela, tinha sido professora de voz. Como não estava a trabalhar, pediu-me uma vez, “olhe lá, eu gostava tanto de dizer um poema no programa”. E não fez a operação. Depois as coisas deram uma volta, também se meteu o 25 de abril, e a Maria Elisa foi a brilhante apresentadora dos telejornais. Ela ficou na informação. Mas lá arranjei para ela dizer um poema e. E ela lá foi dizer um poema e a partir daí as pessoas começaram a chamá-la para aqui, para ali, com o nariz grande.”
Assim, entre a inquietação com Vítor de Sousa e a memória de Maria Elisa, Eládio Clímaco deixou um retrato feito de afeto, bastidores e televisão. Uma conversa onde o presente pesa, mas onde o passado ainda revela muito sobre quem chegou ao ecrã.

