Fábio Guerra participa no Europeu de jiu-jitsu depois de vários títulos na modalidade, num percurso bastante meritório.
Há poucos meses, Fábio Guerra limitava-se a acompanhar a filha aos treinos de jiu-jitsu. A curiosidade levou-o ao tatami e, desde então, os resultados sucederam-se a um ritmo pouco habitual.
Aos 39 anos, o atleta natural de Estremoz já foi vice-campeão nacional, venceu uma categoria da Copa Ibérica e subiu ao pódio noutras três ocasiões. Tudo isto aconteceu durante os primeiros meses de uma ligação à modalidade que começou por influência familiar.
Guarda prisional na Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Fábio Guerra representa a Escola Nova União de Estremoz e trabalha sob a orientação do professor Bruno Martinho. Além da profissão exigente, divide o tempo entre os treinos, a preparação física e a vida familiar.
O próximo desafio será o PBJJF European Championship 2026, que começa a 1 de agosto, em Sintra. Antes da participação na competição internacional, o atleta falou ao Infocul.pt by ARDGlobal sobre os resultados alcançados, a preparação e a importância da família no caminho que está a construir.
Quatro competições e uma presença constante no pódio
A primeira grande confirmação aconteceu nos dias 11 e 12 de abril, no Pavilhão da Torre da Marinha. Fábio Guerra disputou o Campeonato Português de Jiu-Jitsu 2026, organizado pela Federação Portuguesa de Jiu-Jitsu Brasileiro, e terminou como vice-campeão nacional.
O segundo lugar foi conquistado na categoria Master 2 – peso pesado. Na altura, o atleta ainda tinha poucos meses de experiência, mas já demonstrava capacidade para discutir os primeiros lugares.
Pouco mais de um mês depois, voltou ao Seixal. A 16 de maio, participou na terceira edição do MSC Championship BJJ, realizada no Pavilhão Municipal da Torre da Marinha.
Desta vez, competiu na categoria Absoluto, onde o peso dos atletas não determina a divisão. Fábio Guerra alcançou o terceiro lugar e somou mais uma presença no pódio.
O resultado de maior expressão chegou a 13 de junho, no Pavilhão Desportivo de Pinhal Novo. Na Copa Ibérica de Jiu-Jitsu Desportivo 2026, organizada pela ISBJJA, conquistou o primeiro lugar na categoria Pesado, destinada a atletas até 94 quilos.
A prova correspondeu à segunda etapa do Circuito Nacional Português. Além de se sagrar campeão da respetiva categoria, Fábio Guerra voltou a competir no Absoluto e terminou novamente na terceira posição.
Já a 4 de julho, viajou até Matosinhos para disputar o Portugal Grand Slam 2026. A competição, promovida pela Federação Portuguesa de Jiu-Jitsu Brasileiro, decorreu na Nave Costa Pereira.
Fábio Guerra chegou às meias-finais do Absoluto e concluiu a participação no terceiro lugar. Em menos de três meses, participou em quatro competições e regressou sempre a casa com um lugar no pódio.
O conjunto de resultados mostra uma evolução rápida, mas também uma consistência que não pode ser explicada apenas pela condição física. Há trabalho técnico, capacidade de aprendizagem e uma disciplina que o atleta transportou de outras áreas da vida.
“Quero representar Portugal da melhor forma possível”
Depois das provas nacionais, o PBJJF European Championship 2026 surge como um novo teste. A competição vai reunir em Sintra atletas de vários países, numa disputa pelos títulos europeus das diferentes categorias.
Para Fábio Guerra, a participação representa a oportunidade de perceber como responde perante adversários com outros percursos e maior experiência competitiva. O pódio está entre as ambições, embora não seja o único critério para avaliar o desempenho.
Em entrevista ao Infocul.pt by ARDGlobal, o atleta explicou aquilo que pretende levar para o tatami.
“O principal objetivo passa por representar Portugal da melhor forma possível e testar-me ao mais alto nível europeu. Claro que entrar numa competição destas faz-nos sonhar com o pódio e com o título, mas acima de tudo quero fazer boas lutas, mostrar evolução e provar a mim próprio que o trabalho diário compensa. Ser vice-campeão nacional deu-me ainda mais motivação para continuar a crescer.”
A medalha de prata conquistada em abril foi apenas o início de um percurso que, entretanto, ganhou outros resultados. No entanto, Fábio Guerra não atribui a evolução a uma fórmula especial.
O atleta reconhece a importância da preparação física que já possuía, mas coloca a dedicação diária e a disponibilidade para aprender no centro do trabalho.
“Acredito que muito se deve à disciplina, consistência e à mentalidade que já trazia do desporto e da vida profissional. Sempre fui muito dedicado à preparação física e quando entrei no jiu-jitsu encarei a modalidade com muito respeito e foco. Procuro aprender todos os dias, ouvir os treinadores e dar o máximo em cada treino. Os resultados acabam por surgir naturalmente quando existe dedicação.”
Uma profissão exigente e o desporto como equilíbrio
A preparação de Fábio Guerra não acontece num contexto profissional leve. Enquanto guarda prisional, enfrenta diariamente uma realidade que exige atenção permanente, controlo emocional e capacidade para lidar com situações de pressão.
Depois do horário de trabalho, ainda existem os treinos técnicos, a musculação, os cuidados com a alimentação e a recuperação física. A conciliação nem sempre é simples.
Contudo, o jiu-jitsu não representa apenas mais uma obrigação numa agenda preenchida. Também é o espaço onde consegue aliviar parte da tensão acumulada na profissão.
“Não é fácil. A profissão de guarda prisional exige muito a nível físico e emocional. Há dias mais difíceis, maior desgaste mental e cansaço acumulado. Mas o desporto acaba também por ser uma válvula de escape. O jiu-jitsu ajuda-me a libertar o stress, a manter o equilíbrio emocional e a sentir-me mais focado. É cansativo conciliar tudo, mas quando fazemos algo de que gostamos, encontramos sempre forças.”
A relação de Fábio Guerra com o exercício físico já existia antes da chegada ao jiu-jitsu. A musculação continua a fazer parte da rotina, depois de ter vivido uma fase de maior dedicação ao bodybuilding.
O cuidado com o corpo nunca esteve, porém, desligado do bem-estar psicológico. Para o atleta, treinar é também uma forma de ordenar os pensamentos e enfrentar melhor os problemas quotidianos.
“Sempre teve as duas vertentes. Claro que existe a preocupação física, a saúde e a imagem, mas para mim o desporto sempre foi também uma forma de equilíbrio emocional. Ajuda-me a ganhar disciplina, confiança e a lidar melhor com os desafios do dia a dia. O treino acaba por ser quase uma terapia.”
Mel abriu a porta do jiu-jitsu à família
Apesar do histórico ligado ao desporto, Fábio Guerra não chegou ao jiu-jitsu através da musculação ou de uma decisão individual. A modalidade entrou em casa através de Mel, a filha do meio, de sete anos.
Foi ela a primeira a começar a treinar. O pai acompanhava-a, assistia às aulas e observava a forma como a modalidade trabalhava a disciplina, a confiança e o respeito.
Com o passar do tempo, deixou de ser apenas o familiar sentado fora do tatami. Experimentou uma aula e encontrou um novo desafio.
“Começou muito por acompanhá-la. Ao início era apenas para apoiar e estar presente, mas com o tempo fui ganhando curiosidade pela modalidade. Via o ambiente, os valores transmitidos e a evolução dela, e isso despertou-me vontade de experimentar. Hoje acabou por se tornar uma paixão partilhada em família.”
Mel também já teve contacto com a competição. No Campeonato Nacional, terminou no quarto lugar da categoria Mirim.
Entretanto, Mia, a filha mais velha, de 11 anos, começou igualmente a praticar jiu-jitsu. O interesse nasceu da influência da irmã e do percurso entretanto iniciado pelo pai.
Martim, de quatro anos, também já experimentou a modalidade. O jiu-jitsu deixou, assim, de ser apenas uma atividade desportiva individual para passar a fazer parte da dinâmica familiar.
Curiosamente, Fábio Guerra consegue controlar melhor as emoções quando é ele a competir. A situação muda quando assiste às filhas dentro do espaço de combate.
“Sem dúvida por elas. Quando somos nós a competir conseguimos controlar melhor as emoções e focar-nos no combate. Como pai, ver as filhas competir traz sempre outro nervosismo, porque queremos protegê-las e vê-las felizes. Mas ao mesmo tempo sinto muito orgulho por as ver crescer no desporto, ganhar confiança e aprender valores importantes.”
A esposa e os três filhos acompanham um percurso que exige disponibilidade, deslocações e alterações à rotina. Sem esse apoio, seria difícil manter a intensidade da preparação e o calendário competitivo.
Fora do trabalho e do tatami, Fábio Guerra procura precisamente o contrário da pressão. Prefere os momentos simples, a proximidade da família e o tempo passado com os amigos.
“Sou uma pessoa muito ligada à família e aos amigos. Nos tempos livres gosto de estar com as minhas filhas, aproveitar momentos simples e descansar um pouco da rotina intensa. Também gosto de treinar, cuidar da saúde e manter uma mentalidade positiva. Valorizo muito a tranquilidade e o equilíbrio.”
Entre duas e quatro horas de treino por dia
A preparação para um Campeonato Europeu obriga a aumentar a exigência. O trabalho técnico é apenas uma das componentes de um processo que também inclui condição física, recuperação e alimentação.
Nos dias de maior carga, Fábio Guerra poderá dedicar quatro horas ao treino. O volume será ajustado de acordo com a proximidade da competição e com a necessidade de chegar fisicamente preparado a Sintra.
“A preparação está a ser feita com muito foco. Inclui treinos técnicos de jiu-jitsu, preparação física, recuperação e atenção à alimentação. Em média devo dedicar entre duas a quatro horas por dia ao treino, dependendo da intensidade e da fase da preparação. Nesta fase todos os detalhes contam.”
A rapidez da evolução pode criar expectativas elevadas. Afinal, em poucos meses, Fábio Guerra chegou a cinco pódios e conquistou um título na categoria Pesado.
Contudo, o atleta não entra no Europeu com a obrigação de transformar todo o percurso numa medalha. Quer ganhar, naturalmente, mas estabelece uma condição diferente para considerar a participação bem-sucedida.
“Para mim, fracasso seria não dar o máximo de mim. Claro que todos os atletas entram para ganhar, mas competir num europeu já representa muito trabalho, dedicação e superação pessoal. Quero sair da competição com a sensação de que fiz tudo o que estava ao meu alcance. Se isso acontecer, independentemente do resultado, já será algo positivo.”
Não se trata de reduzir a ambição. Fábio Guerra quer competir, vencer combates e lutar pelo pódio. Porém, sabe que um resultado isolado não pode apagar os meses de trabalho nem definir todo o valor de um atleta.
Jiu-jitsu exige mais inteligência do que aparenta
Para quem observa a modalidade de fora, o jiu-jitsu pode parecer um confronto decidido pela força. Essa leitura esquece a importância da técnica, da antecipação e da estratégia.
Cada movimento do adversário obriga a uma resposta. Uma decisão precipitada pode colocar um atleta numa posição de desvantagem, enquanto a paciência pode abrir o caminho para controlar o combate.
Fábio Guerra destaca também os benefícios que não se veem numa classificação. A confiança, a disciplina e a capacidade de manter a calma em momentos difíceis acompanham os praticantes para além do treino.
“O jiu-jitsu é uma modalidade muito completa, tanto física como mentalmente. Ensina disciplina, respeito, controlo emocional e resiliência. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é apenas luta; existe muita estratégia, técnica e inteligência envolvida. Além disso, melhora a condição física, a autoconfiança e ajuda bastante na gestão do stress.”
O crescimento da modalidade em Portugal tem sido acompanhado pelo aumento do número de academias, praticantes e competições. Além disso, crianças e adultos encontram no jiu-jitsu objetivos diferentes.
Uns procuram competir. Outros querem melhorar a condição física, aprender a defender-se ou simplesmente encontrar uma atividade que trabalhe o corpo e a mente.
“Sem dúvida. O jiu-jitsu tem crescido muito em Portugal e acredito que ainda vai crescer mais. Cada vez mais pessoas procuram modalidades que trabalhem não só o físico mas também a mente e os valores pessoais. Além disso, é um desporto inclusivo, que pode ser praticado por crianças, adultos e até pessoas mais velhas.”
O Europeu é o próximo passo, não o ponto de chegada
Organizado pela Portugal Brazilian Jiu-Jitsu Federation, o PBJJF European Championship 2026 tem início marcado para 1 de agosto, em Sintra.
A prova contará com atletas de vários países e dará aos participantes a possibilidade de representar as respetivas academias e bandeiras numa competição internacional. As inscrições são feitas através da plataforma Smoothcomp.
Fábio Guerra chegará ao Europeu com o estatuto de vice-campeão nacional, uma vitória na Copa Ibérica e três terceiros lugares conquistados em diferentes competições.
Levará também o trabalho desenvolvido na Escola Nova União de Estremoz, a orientação do professor Bruno Martinho e o apoio de uma família que esteve na origem de tudo.
Ainda assim, quando olha para o futuro, não limita os desejos às medalhas. Daqui a uma década, gostaria de continuar no desporto, mas coloca a saúde e a felicidade dos filhos acima de qualquer resultado.
“Daqui a 10 anos gostava de continuar saudável, ativo e ligado ao desporto. A nível pessoal, o mais importante será ver as minhas filhas felizes e realizadas. No desporto, gostaria de continuar a evoluir, conquistar mais títulos e talvez inspirar outras pessoas a começarem, independentemente da idade. A nível profissional, espero continuar a desempenhar o meu trabalho com dignidade e equilíbrio.”
Em entrevista ao Infocul.pt by ARDGlobal, Fábio Guerra mostrou ambição, mas não tentou transformar alguns meses de sucesso numa história concluída.
A 1 de agosto, terá um novo teste no tatami. Seja qual for o resultado, chegará a Sintra depois de um percurso que já inclui quatro competições, cinco pódios e a confirmação de que começar mais tarde não significa chegar tarde.
