Vila Franca deu o exemplo e Tiago Tavares fez-se ouvir no silêncio do Campo Pequeno

Vila Franca deu o exemplo e Tiago Tavares fez-se ouvir no silêncio do Campo Pequeno, na noite de ontem.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

A terceira corrida da temporada do Campo Pequeno, realizada esta sexta-feira, 21 de agosto, encontrou os seus momentos mais relevantes nas jaquetas dos Amadores de Vila Franca de Xira e na atuação exigente do diretor de corrida, Tiago Tavares. Numa noite dedicada à memória de Manuel Trindade, os forcados vilafranquenses resolveram as três pegas ao primeiro intento e conquistaram o troféu instituído em homenagem ao jovem forcado de São Manços.

Perante uma assistência que ocupou cerca de dois terços da praça lisboeta, lidaram-se touros da ganadaria de António Silva. O cartel reuniu Luís Rouxinol, Gilberto Filipe, Filipe Gonçalves, Manuel Telles Bastos, Andrés Romero, Paco Velásquez e o praticante Vasco Veiga, com pegas repartidas entre os Amadores de Montemor e Vila Franca de Xira.

Vila Franca apresentou argumentos e levou o troféu Manuel Trindade

O concurso de pegas constituiu um dos principais motivos de interesse da noite, mas foi também uma homenagem a Manuel Trindade, forcado dos Amadores de São Manços que sofreu uma colhida grave nesta praça, na temporada passada, e acabaria por falecer.

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Os Amadores de Vila Franca de Xira responderam à responsabilidade com uma atuação consistente. Miguel Faria, Guilherme Dotti e Rodrigo Andrade concretizaram as respetivas pegas ao primeiro intento, num desempenho coletivo que marcou a diferença ao longo do espetáculo.

A sexta pega da corrida, realizada por Rodrigo Andrade, mereceu a distinção de melhor da noite. Também Rodrigo Dotti, na primeira ajuda, teve participação relevante na concretização do momento.

O júri, constituído pelos cabos dos dois grupos, atribuiu o prémio ao forcado vilafranquense. A entrega coube a Pedro Trindade, pai de Manuel Trindade, num momento particularmente significativo, reforçado pela decisão de Rodrigo Andrade de deixar o troféu junto da família do jovem homenageado.

Pelos Amadores de Montemor, Miguel Cecílio e Vasco Ponce concretizaram as respetivas pegas à terceira tentativa, enquanto Joel Santos o fez à quarta. José Maria Pena Monteiro encerrou a corrida com uma pega ao primeiro intento, embora a última intervenção da noite não integrasse o concurso.

Tiago Tavares recusou facilidades e reservou a música para três atuações

Se Vila Franca se afirmou na arena, Tiago Tavares deixou também uma marca evidente na direção do espetáculo. A música acompanhou apenas três das sete atuações, num critério exigente que distinguiu os momentos considerados merecedores desse reconhecimento.

Gilberto Filipe, Filipe Gonçalves e Vasco Veiga atuaram ao som da banda. Nas restantes lides, o silêncio manteve-se, deixando perceber que, naquela noite, a música não seria tratada como acompanhamento automático. A atribuição de voltas também foi exigente, numa decisão incontestável do diretor de corrida.

A opção do diretor de corrida deu coerência à condução do espetáculo e recordou uma ideia simples: numa praça com a história do Campo Pequeno, os sinais de reconhecimento também devem obedecer a critérios.

Paco Velásquez confirmou a alternativa na praça lisboeta, um dia depois de ter atuado em Las Ventas, Madrid. Por esse motivo, coube-lhe abrir a corrida, depois de Luís Rouxinol lhe ter cedido o lugar na ordem de atuação.

A memória de Manuel Trindade e José Cabral acompanhou a noite

O espetáculo ficou igualmente marcado por uma homenagem póstuma ao médico José Cabral, que integrou durante vários anos a equipa clínica do Campo Pequeno e esteve ligado aos Amadores de Montemor.

A evocação contou com a presença da viúva e dos filhos, chamados à arena num momento de reconhecimento pelo percurso do antigo médico da praça.

Andrés Romero brindou a atuação à família de Manuel Trindade, também lembrada pelos Amadores de Vila Franca de Xira. Os grupos de Montemor e Vila Franca prestaram igualmente homenagem aos familiares de José Cabral.

Numa noite em que nem tudo precisou de explicação detalhada, houve duas evidências difíceis de contornar: a consistência dos Amadores de Vila Franca de Xira e a exigência com que Tiago Tavares dirigiu a corrida.

Touros de António Silva sem argumentos para elevar a corrida

Os touros da ganadaria de António Silva apresentaram-se com trapio e, de forma geral, cumpriram os requisitos de apresentação exigidos pelo Campo Pequeno. Contudo, o comportamento revelou-se aquém do desejável, com a mansidão a condicionar o desenrolar da corrida.

A falta de entrega e continuidade nas investidas retirou possibilidades aos cavaleiros, obrigados a procurar soluções perante oponentes com reduzida disponibilidade para a lide. Houve nuances entre os diferentes exemplares, mas nenhuma suficientemente relevante para alterar a impressão deixada pelo conjunto.

Numa praça como a de Lisboa, onde a apresentação deve caminhar lado a lado com o comportamento, o curro de António Silva ficou a dever precisamente aquilo que mais falta fez ao espetáculo: matéria-prima para que a noite pudesse ter contado outra história.

Glamour e classe não se escrevem apenas nos cartazes

A temporada do Campo Pequeno tem sido promovida sob o lema do glamour e da classe. Porém, nem todas as corridas podem ser colocadas debaixo do mesmo slogan, sobretudo quando aquilo que acontece na arena está longe de corresponder à imagem anunciada.

Houve solenidade nas homenagens, exigência na direção da corrida e uma boa prestação dos Amadores de Vila Franca de Xira. No conjunto, porém, o espetáculo foi uma valente seca, muito condicionado pela mansidão dos touros de António Silva e sem conteúdo artístico que sustentasse a promessa feita ao público.

O glamour e a classe não aparecem por estarem escritos num cartaz ou repetidos na promoção de uma temporada. Têm de acontecer na praça. E, na noite de ontem, não aconteceram.

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